quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Luteranos x Reformados

texto retirado da página Tradição Reformada

Uma das principais afirmações dos reformados que sustentam uma ideia de continuidade ou unidade entre os movimentos luterano e reformado é que o Luteranismo seria uma espécie de reforma mal consolidada e só aprimorada dentro da tradição reformada. É injusto dizer que essa posição só é comum entre leigos. Na verdade muitos eruditos reformados são adeptos dessa ideia. Podemos citar vários, mas nos contentemos com a declaração do teólogo holandês, bastante respeitado na tradição reformada, Abraham Kuyper, que diz "em grande parte Calvino inicia a colheita do que o herói de Wittenberg [Lutero] tinha semeado na Alemanha e fora dela". Nesse texto busco mostrar que essa afirmativa não é fiel à história eclesiástica do século XVI.

Na ânsia de recolher "aliados teológicos" além de Calvino e seus principais herdeiros, geralmente alguns reformados tendem a apelar a autores anteriores a Calvino para provar que o movimento reformado não ensinou doutrinas novas. Muitos deles citam teólogos como Santo Agostinho, S. Bernardo de Claraval, S. Tomás de Aquino e por fim Martinho Lutero como calvinistas (reformados) antes de Calvino.

É verdade que o movimento reformado não introduziu doutrinas novas na Igreja. No entanto, nem todo autor que inspirou uma doutrina reformada pode ser considerado de fato um reformado. Sem abordar outros autores porque daria um texto maior. Mas só em citar S. Bernardo de Claraval como um proto-reformado alguém está cometendo um anacronismo grave. É verdade que Claraval negou o dogma mariano da Imaculada Conceição e defendeu uma ideia de justificação idêntica à de Calvino. No entanto, Claraval defendia outras doutrinas mariológicas e uma eclesiologia bastante diferente do que é proposto dentro da tradição reformada.

Claraval não é um reformado antes de existirem reformados, Claraval é um católico romano que PROVAVELMENTE concordaria com reformados em algumas coisas e os reprovaria em outras. O mesmo pode se aplicar a Martinho Lutero. Por qual razão eu digo "provavelmente"? Porque Claraval não foi contemporâneo da ascensão reformista na Igreja Católica, por isso não podemos ter 100% de certeza de como ele se posicionaria diante dela (acho provável que seguisse como um católico romano). Já em relação à Lutero, é bem diferente. Lutero foi contemporâneo de pioneiros reformados como Zwingli, Bucer, Bullinger, Zanchi, Vermigli e Calvino e discordou de maneira veemente de todos citados em questões importantes.

O movimento reformado já nasceu de maneira independente do Luteranismo. Ao tratarmos de Catolicismo Reformado (tratado pejorativamente como Calvinismo) e do Catolicismo Evangélico (tratado pejorativamente como Luteranismo), nunca estaremos falando de uma mesma igreja, um mesmo segmento teológico ou uma mesma filosofia religiosa. Não se trata de uma Igreja que um dia foi una e se separou por meio de cisma, como houve, por exemplo, no cisma de 1054 dentro da Igreja Católica Apostólica que resultou na divisão entre Ocidentais (católicos romanos) e Orientais (católicos ortodoxos). A Igreja Luterana surge por meio do cisma de 1517 dentro da Igreja Católica do Ocidente (já separada da Igreja Oriental), após a excomunhão de Martinho Lutero e a elaboração da Carta de Protesto dos príncipes alemães contra a expulsão deste pelas autoridades da Igreja Papal[2]. A Igreja Luterana não nasce já trazendo em seu "pacote" a Igreja Reformada. Muito pelo contrário. A Igreja Reformada já nasce em outro país, por meio do cisma de 1519 quando reformistas suíços foram excomungados também da Igreja Católica, a exemplo de Lutero. Pode se dizer que Lutero teve influência na reforma que houve na Suíça - no entanto não teológica ou eclesiástica, mas política. Digamos que Lutero deu um impulso de encorajamento apenas e passou confiança para que os reformados não tivessem medo da repressão das autoridades da Sé Romana.

A prova irrefutável de que Igreja Luterana e Igreja Reformada são orientações distintas desde seus respectivos nascimentos é a ocorrência do Colóquio de Marburg no ano de 1529. O Colóquio visava exatamente unificar as duas igrejas e fortalecer a causa protestante contra: países europeus, cantões suíços e regiões do Sacro Império Romano-Germânico que estavam sob domínio papista. No entanto, não houve sucesso na tentativa. Durante a ocasião, o principal representante da Igreja Reformada, Ulrich Zwingli, teve uma discussão grave contra Martinho Lutero, o principal representante da Igreja Luterana. Lutero e Zwingli puseram-se de acordo sobre catorze temas, mas não a respeito do décimo quinto, a Eucaristia[3]. Lutero, irado com a posição memorialista de Zwingli acerca da Eucaristia, desistiu de seguir participando do Colóquio e negou a mão da comunhão aos reformados, ao dizer "Nosso espírito e vosso espírito não estão de acordo"[4] (em alemão: "Unser Geist und euer Geist reimt sich nicht zusammen"), concluindo que não haveria união eclesiástica e teológica entre luteranos e reformados.

Com o tempo em que a ortodoxia luterana foi se desenvolvendo e resumindo suas doutrinas no Livro de Concórdia (um compilado de confissões do Luteranismo) mais diversas outras divergências entre Lutero e os reformados teriam surgido além da questão eucarística. Apesar de não serem as únicas, essas podem ser citadas como algumas das principais:

1. Representações artísticas de Cristo (luteranos foram favoráveis, reformados foram contra).
2. Soteriologia (luteranos foram favoráveis à Expiação Ilimitada e Resistibilidade da Graça, reformados foram contra esses dois pontos e ambos só encontraram consenso em Depravação Total e Eleição Incondicional).
3. Filosofia (luteranos, a exemplo de ortodoxos orientais, seguiram uma visão mais próxima do misticismo, enquanto reformados seguiram a Escolástica e estavam próximos do racionalismo, a exemplo dos católicos romanos).
4. Liturgia (luteranos estavam mais próximos de um Princípio Normativo de Culto - que aciona ao culto livremente aquilo que não é proibido biblicamente, enquanto reformados estavam mais próximos de um Princípio Regulador de Culto - que aciona ao culto somente e tão somente aquilo que tem ordenança ou implicação bíblica e rejeita inclusive o que não é proibido explicitamente).

Por fim, de diversas formas podemos provar que nunca houve unidade em sentido eclesiástico e teológico entre luteranos e reformados. O Luteranismo não é uma reforma incompleta e a Tradição Reformada uma completa, na verdade se tratam de reformas completas em diferentes contextos. São duas vertentes que estão unidas pela fé do Credo Apostólico e pelos Cinco Solas da Reforma Protestante, mas divergentes em todo o resto.

Reformados admiram Lutero, mas não devem permitir que essa benquerença seja convertida em omissão para com os estudos sinceros da história eclesiástica e em uma romantização de um passado que nunca existiu. Lutero era um grande homem, tanto quanto nossas grandes referências reformadas. Mas todos eles reprovariam essa deficiência histórica cada vez mais propagada no meio evangelical e reformado atual.

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[1] KUYPER, Abraham. "Calvinismo", p. 28.
[2] Em 19 de abril de 1529, seis príncipes e representantes de 14 Cidades Livres Imperiais pediram a Dieta Imperial em Speyer contra uma proibição imperial contra Lutero, bem como a proscrição de suas obras e ensinamentos. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Protestation_at_Speyer
[3] Este colóquio aconteceu por iniciativa de Felipe I de Hesse e reuniu as principais figuras do protestantismo. Lutero, Brenz, Osiander e Melanchton opunham-se a Zuinglio e Ecolampadio, enquanto Bucer, Hedio e Capito esforçaram-se para conciliar as duas partes. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Marburg_Colloquy
[4] JACKSON, Samuel M. "Huldreich Zwingli, the Reformer of German Switzerland", 1903.