texto retirado da página Tradição Reformada
Uma das principais afirmações dos reformados que sustentam uma ideia de continuidade ou unidade entre os movimentos luterano e reformado é que o Luteranismo seria uma espécie de reforma mal consolidada e só aprimorada dentro da tradição reformada. É injusto dizer que essa posição só é comum entre leigos. Na verdade muitos eruditos reformados são adeptos dessa ideia. Podemos citar vários, mas nos contentemos com a declaração do teólogo holandês, bastante respeitado na tradição reformada, Abraham Kuyper, que diz "em grande parte Calvino inicia a colheita do que o herói de Wittenberg [Lutero] tinha semeado na Alemanha e fora dela". Nesse texto busco mostrar que essa afirmativa não é fiel à história eclesiástica do século XVI.
Na ânsia de recolher "aliados teológicos" além de Calvino e seus principais herdeiros, geralmente alguns reformados tendem a apelar a autores anteriores a Calvino para provar que o movimento reformado não ensinou doutrinas novas. Muitos deles citam teólogos como Santo Agostinho, S. Bernardo de Claraval, S. Tomás de Aquino e por fim Martinho Lutero como calvinistas (reformados) antes de Calvino.
É verdade que o movimento reformado não introduziu doutrinas novas na Igreja. No entanto, nem todo autor que inspirou uma doutrina reformada pode ser considerado de fato um reformado. Sem abordar outros autores porque daria um texto maior. Mas só em citar S. Bernardo de Claraval como um proto-reformado alguém está cometendo um anacronismo grave. É verdade que Claraval negou o dogma mariano da Imaculada Conceição e defendeu uma ideia de justificação idêntica à de Calvino. No entanto, Claraval defendia outras doutrinas mariológicas e uma eclesiologia bastante diferente do que é proposto dentro da tradição reformada.
Claraval não é um reformado antes de existirem reformados, Claraval é um católico romano que PROVAVELMENTE concordaria com reformados em algumas coisas e os reprovaria em outras. O mesmo pode se aplicar a Martinho Lutero. Por qual razão eu digo "provavelmente"? Porque Claraval não foi contemporâneo da ascensão reformista na Igreja Católica, por isso não podemos ter 100% de certeza de como ele se posicionaria diante dela (acho provável que seguisse como um católico romano). Já em relação à Lutero, é bem diferente. Lutero foi contemporâneo de pioneiros reformados como Zwingli, Bucer, Bullinger, Zanchi, Vermigli e Calvino e discordou de maneira veemente de todos citados em questões importantes.
O movimento reformado já nasceu de maneira independente do Luteranismo. Ao tratarmos de Catolicismo Reformado (tratado pejorativamente como Calvinismo) e do Catolicismo Evangélico (tratado pejorativamente como Luteranismo), nunca estaremos falando de uma mesma igreja, um mesmo segmento teológico ou uma mesma filosofia religiosa. Não se trata de uma Igreja que um dia foi una e se separou por meio de cisma, como houve, por exemplo, no cisma de 1054 dentro da Igreja Católica Apostólica que resultou na divisão entre Ocidentais (católicos romanos) e Orientais (católicos ortodoxos). A Igreja Luterana surge por meio do cisma de 1517 dentro da Igreja Católica do Ocidente (já separada da Igreja Oriental), após a excomunhão de Martinho Lutero e a elaboração da Carta de Protesto dos príncipes alemães contra a expulsão deste pelas autoridades da Igreja Papal[2]. A Igreja Luterana não nasce já trazendo em seu "pacote" a Igreja Reformada. Muito pelo contrário. A Igreja Reformada já nasce em outro país, por meio do cisma de 1519 quando reformistas suíços foram excomungados também da Igreja Católica, a exemplo de Lutero. Pode se dizer que Lutero teve influência na reforma que houve na Suíça - no entanto não teológica ou eclesiástica, mas política. Digamos que Lutero deu um impulso de encorajamento apenas e passou confiança para que os reformados não tivessem medo da repressão das autoridades da Sé Romana.
A prova irrefutável de que Igreja Luterana e Igreja Reformada são orientações distintas desde seus respectivos nascimentos é a ocorrência do Colóquio de Marburg no ano de 1529. O Colóquio visava exatamente unificar as duas igrejas e fortalecer a causa protestante contra: países europeus, cantões suíços e regiões do Sacro Império Romano-Germânico que estavam sob domínio papista. No entanto, não houve sucesso na tentativa. Durante a ocasião, o principal representante da Igreja Reformada, Ulrich Zwingli, teve uma discussão grave contra Martinho Lutero, o principal representante da Igreja Luterana. Lutero e Zwingli puseram-se de acordo sobre catorze temas, mas não a respeito do décimo quinto, a Eucaristia[3]. Lutero, irado com a posição memorialista de Zwingli acerca da Eucaristia, desistiu de seguir participando do Colóquio e negou a mão da comunhão aos reformados, ao dizer "Nosso espírito e vosso espírito não estão de acordo"[4] (em alemão: "Unser Geist und euer Geist reimt sich nicht zusammen"), concluindo que não haveria união eclesiástica e teológica entre luteranos e reformados.
Com o tempo em que a ortodoxia luterana foi se desenvolvendo e resumindo suas doutrinas no Livro de Concórdia (um compilado de confissões do Luteranismo) mais diversas outras divergências entre Lutero e os reformados teriam surgido além da questão eucarística. Apesar de não serem as únicas, essas podem ser citadas como algumas das principais:
1. Representações artísticas de Cristo (luteranos foram favoráveis, reformados foram contra).
2. Soteriologia (luteranos foram favoráveis à Expiação Ilimitada e Resistibilidade da Graça, reformados foram contra esses dois pontos e ambos só encontraram consenso em Depravação Total e Eleição Incondicional).
3. Filosofia (luteranos, a exemplo de ortodoxos orientais, seguiram uma visão mais próxima do misticismo, enquanto reformados seguiram a Escolástica e estavam próximos do racionalismo, a exemplo dos católicos romanos).
4. Liturgia (luteranos estavam mais próximos de um Princípio Normativo de Culto - que aciona ao culto livremente aquilo que não é proibido biblicamente, enquanto reformados estavam mais próximos de um Princípio Regulador de Culto - que aciona ao culto somente e tão somente aquilo que tem ordenança ou implicação bíblica e rejeita inclusive o que não é proibido explicitamente).
Por fim, de diversas formas podemos provar que nunca houve unidade em sentido eclesiástico e teológico entre luteranos e reformados. O Luteranismo não é uma reforma incompleta e a Tradição Reformada uma completa, na verdade se tratam de reformas completas em diferentes contextos. São duas vertentes que estão unidas pela fé do Credo Apostólico e pelos Cinco Solas da Reforma Protestante, mas divergentes em todo o resto.
Reformados admiram Lutero, mas não devem permitir que essa benquerença seja convertida em omissão para com os estudos sinceros da história eclesiástica e em uma romantização de um passado que nunca existiu. Lutero era um grande homem, tanto quanto nossas grandes referências reformadas. Mas todos eles reprovariam essa deficiência histórica cada vez mais propagada no meio evangelical e reformado atual.
_______________________________
[1] KUYPER, Abraham. "Calvinismo", p. 28.
[2] Em 19 de abril de 1529, seis príncipes e representantes de 14 Cidades Livres Imperiais pediram a Dieta Imperial em Speyer contra uma proibição imperial contra Lutero, bem como a proscrição de suas obras e ensinamentos. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Protestation_at_Speyer
[3] Este colóquio aconteceu por iniciativa de Felipe I de Hesse e reuniu as principais figuras do protestantismo. Lutero, Brenz, Osiander e Melanchton opunham-se a Zuinglio e Ecolampadio, enquanto Bucer, Hedio e Capito esforçaram-se para conciliar as duas partes. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Marburg_Colloquy
[4] JACKSON, Samuel M. "Huldreich Zwingli, the Reformer of German Switzerland", 1903.
Pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Neste Blog você encontra material cristão, sejam artigos, pregações, estudos, música e tudo mais que couber... Há também, no youtube, muita coisa: www.youtube.com/pastorjarbas
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quarta-feira, 27 de novembro de 2019
sexta-feira, 21 de junho de 2019
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
História de Lutero - 7 - Últimos dias
Os últimos dias de Lutero
No dia 23 de janeiro de 1546, a pedido insistente dos príncipes de Mansfeld, Lutero viajou para Eisleben. Como não se sentisse bem de saúde para empreender sozinho a viagem, levou consigo seus filhos Martinho e Paulo, pois o tempo estava mau e as estradas quase intransitáveis. Foram necessários cinco dias para vencer a distância de 120 quilômetros. Lutero decidiu-se a fazer esta viagem, somente por se tratar de uma missão de amor. Havia sido convidado para restabelecer a paz em uma família desunida por uma grande briga. Depois de vinte dias de pacientes admoestações, Lutero conseguiu reconciliar a família. Mas estava completamente exausto. Tinha sido esforço demasiado para sua saúde precária. Na noite do dia 17 de fevereiro, foi levado para seu quarto, a fim de descansar. Junto a sua cama permaneceram seus dois filhos e três amigos íntimos. Lutero sabia que seu fim se aproximava. Em fervorosa oração encomendou sua alma ao Pai celestial. Um dos amigos perguntou-lhe se estava preparado para morrer em nome do Senhor Jesus Cristo, cuja doutrina havia pregado. Lutero respondeu com voz clara: Sim. Em seguida cerrou seus olhos para seu derradeiro sono aqui na terra.Lutero morreu no dia 18 de fevereiro de 1546. Seu corpo foi levado para Wittenberg. No dia 22 de fevereiro foi sepultado na Igreja do Castelo, bem defronte do púlpito, onde permanece até hoje.
Lutero está morto, mas sua obra permanece. A Reforma da igreja, por ele iniciada, espalhou-se por todas as partes do mundo. Jesus, o Rei da Graça, proclamado por Lutero, vive nos corações de milhões de cristãos. Passados 500 anos, Lutero continua a ser honrado como o grande mestre da Igreja Luterana e de todo Protestantismo.
E hoje, mais do que nunca, precisamos de Lutero e suas palavras para trazer seus herdeiros de volta à pura e clara Palavra de Deus, que não precisa de novos profetas, apóstolos, milagreiros e vendedores de bênçãos e prosperidade. Essa igreja precisa ser, de novo Reformada. E nós luteranos da IELB, queremos continuar trilhando o caminho que já caminhamos faz 500 anos.
domingo, 29 de outubro de 2017
História de Lutero - 6 - No lar e escritos importantes
Lutero no Lar
A 13 de junho de 1525, Lutero casou com Catarina de Bora, uma antiga freira que abandonara o convento por reconhecer o erro da vida enclausurada. A cerimonia de casamento realizou-se no Mosteiro Negro de Wittenberg, há pouco transformado em residência para Lutero.Deus abençoou este matrimônio com três meninos e três meninas. Lutero amava o lar, e sempre encontrava tempo para brincar com os filhos, tocar música e cantar com eles, e para lhes escrever bonitas cartas quando estava viajando. Interessava-se também pelo jardim e pelos demais problemas do lar.
Lutero recebia muitas visitas. Mesmo não sendo rico, era muito generoso. Sua bondade e liberalidade para com os outros, muitas vezes preocupava sua mulher, especialmente porque Lutero era extremamente hospitaleiro, dando, de bom grado, casa, comida, e até dinheiro aos necessitados.
Lutero escreve o Catecismo Menor e o Hinário
Reconhecendo que a fé cristã se baseia no conhecimento cristão, Lutero fundou e organizou escolas cristãs. Para facilitar aos pastores e professores a instrução cristã das crianças, Lutero escreveu o Catecismo Menor, em l529. Depois da Bíblia, o Catecismo é o livro mais usado na igreja. Lutero escreveu também um bom número de hinos maravilhosos. Em 1524 publicou o primeiro hinário evangélico, e animou outros escritores e compositores hábeis a escreverem bons hinos com bonitas melodias. Ajudou a escrever a Confissão de Augsburgo, publicada em 1530. Completou a tradução do Antigo Testamento em 1534. Embora não gozasse de boa saúde, estava sempre ativo, trabalhando, quer entre o povo, quer em seu gabinete de trabalho. Suas obras ocupam mais de 100 volumes. Continuou a trabalhar incansavelmente até a véspera de sua morte.sábado, 28 de outubro de 2017
História de Lutero - 5 - Em Worms e no Cstelo de Wartburg
Lutero em Worms
Quando o papa Leão X, em Roma, ouviu falar do que acontecia na Alemanha, ficou furioso e ameaçou Lutero com a excomunhão, caso ele não se retratasse dentro de 60 dias. Lutero, porém, ficou firme em seu ponto de vista, pois tinha a certeza de que havia agido certo, para a glória de Deus. Em 1521 Lutero recebeu a comunicação de que devia comparecer à Dieta (assembleia) de Worms, para ser julgado. Estavam presentes à reunião as mais altas autoridades da Igreja e do país. Novamente Lutero foi intimado a se retratar. Lutero pediu que lhe provassem da Bíblia que ele estava errado. Ninguém pôde provar. Por isso Lutero se recusou a desmentir qualquer cousa do que havia dito ou escrito.Lutero no Castelo de Wartburg
Lutero foi, então, declarado pessoa fora da lei. Quem o encontrasse, o podia matar, sem medo de sofrer castigo. Embora sua vida corresse grande perigo, Lutero não se intimidou e iniciou sua viagem de volta para Wittenberg. Ao atravessar uma floresta, um bando de homens mascarados o atacou. Fizeram-no prisioneiro e o levaram para um castelo, chamado Wartburg. À meia-noite, a pesada ponte foi baixada, e Lutero desapareceu atrás das enormes muralhas do castelo. Bem poucas pessoas sabiam onde Lutero se encontrava, mas eles souberem guardar segredo. Muitos pensavam que Lutero havia sido morto. O que o povo não sabia, era que seus amigos haviam simulado o rapto para o guardar em segurança contra seus inimigos.Lutero, disfarçado de cavaleiro, permaneceu durante longo tempo no castelo de Wartburg. Aproveitou essa oportunidade para traduzir o Novo Testamento para a língua alemã, a fim de que todo o povo pudesse ler a palavra de Deus em sua própria língua, e assim compreender a vontade de Deus.
Poucos anos antes, Gutenberg havia aperfeiçoado a imprensa, descobrindo o sistema de letras móveis. Isso possibilitou que se imprimisse o Novo Testamento em muitos milhares de exemplares, podendo assim ser vendido ao povo por preço mais acessível. Antes desse tempo os livros eram escritos a mão. Uma Bíblia, assim escrita, custava uma pequena fortuna, e só os mais ricos a podiam comprar.
Após um ano de retiro forçado no castelo de Wartburg, Lutero voltou para Wittenberg e continuou a pregar na sua igreja. Realizou uma série de oito pregações vigorosas, mostrando os erros em que muitos haviam caído e explicando ao povo de que maneira convém viver para agradar a Deus. Advertiu-os a não fazerem uso da força em sua luta contra o papa e a igreja católica. Deviam combater o erro da igreja apenas com a palavra de Deus.
De Wittenberg Lutero viajou para muitas outras cidades, visitando comunidades e aconselhando o povo a usar a liberdade dada por Deus contra a tirania papal para um único fim: para se tornarem melhores cristãos.
Lutero vivia em constante perigo de ser preso e morto. E ainda que seus amigos temessem por sua vida, nada lhe aconteceu. O fato de Lutero ter ficado vivo naqueles dias, parece ser um verdadeiro milagre. Deus jamais o abandonou.
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
História de Lutero - 4 - Do nascimento à Universidade e as 95 teses
As 95 teses
Naqueles dias a igreja entregou-se ao nefasto comércio das indulgências (recibos de perdão dos pecados, comprados com dinheiro). João Tetzel, vendedor dessas indulgências na Alemanha, chegou a Wittenberg. Ali insistia junto ao povo que comprasse perdão para todos os pecados, passados, presentes e futuros. Alguns membros da igreja de Lutero compraram-nas e não se importaram mais em se arrepender dos pecados. Lutero, em consequência disso, lhes negou a Santa Ceia. Disse-lhes que, se não se arrependessem, Deus não lhes perdoaria os pecados, pois as indulgências não tinham nenhum valor diante de Deus.Muito entristecido com o que estava acontecendo, Lutero pregou nos domingos seguintes com veemência, chamando o povo ao arrependimento. Por fim escreveu 95 teses (proposições) para serem discutidas em público, em que condenava a venda de indulgência.
No dia 31 de outubro de 1517, pregou essas teses na porta da catedral, para que todos as pudessem ler. Numa delas ele afirmava:
Cada cristão que se arrepende de seus pecados, tem perdão dos mesmos, não necessitando das indulgências.Milhares de pessoas, ricas e pobres, vibraram de alegria, vendo a coragem com que Lutero combatia os erros da Igreja.
Conheça as 95 teses - com breves comentários
1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o
nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse
penitência.
2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência
sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos
sacerdotes).
3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência
interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não
produzisse toda sorte de mortificação da carne.
4. Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio
de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada
do reino dos céus.
[Lutero nega que as indulgências possam livrar alguém das
penas terrestres.]
5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas
senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6. O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e
confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos
casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por
inteiro.
[5-6: Lutero mostra que o papa não tem nenhuma autoridade
além daquela dada por Jesus. É, no mínimo, uma atitude de esclarecer à
autoridade (da igreja).]
7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo
tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
[7: Deus perdoa por graça. Qualquer coisa. A qualquer
pessoa. Assim as indulgências erram a ignorar esta graça. Já se pode perceber
diferença do pensamento romano.]
8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos;
segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa
quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da
necessidade.
10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes
que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
(“O purgatório, um estado de penitência e purificação entre
a morte e o juízo final, é, para a doutrina católico-romana, o local para o
pagamento das penas decorrentes dos pecados. Estas penas podem ser parcial ou
totalmente eliminadas pelas indulgências. No mundo cristão, a doutrina do
purgatório surge primeiro em Orígenes, no século II. Em 1517 Lutero ainda
aceita a doutrina do purgatório. Mais tarde irá abandoná-la completamente.)
11. Essa erva daninha de transformar a pena canônicaem pena
do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
[11: Lutero parece não acreditar que as indulgências tenham
entrado à igreja com a permissão dos bispos.]
12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois,
mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
[Lutero está rebatendo a venda de indulgências para livrar
do purgatório até mesmo aos que já morreram. Segundo sua concepção (aqui ainda
não contra o purgatório) só se pode fazer alguma coisa para livrar-se da
condenação aqui na terra.]
13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão
mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
[Lutero reafirma que só aos vivos é dada a oportunidade da
salvação.]
14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente
traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.
15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar
de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão
próximos do horror do desespero.
16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma
que o desespero, o semidesespero e a segurança.
[Claramente se vê que Lutero ainda aceita o purgatório,
afinal, esta era uma doutrina oficial da igreja que ele ainda não tinha
aprofundado o conhecimento. Mais tarde, por causa da Escritura, Lutero rejeita
a existência do purgatório.]
17. Parece necessário, para as almas no purgatório, que o
horror diminua na medida em que cresce o amor.
18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos
racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou
de crescimento no amor.
19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório
estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de
nossa parte, tenhamos plena certeza.
[17-19: Lutero começa com “Parece”, ele não afirma.
Demonstrando um caráter pacífico.]
20. Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa
não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
[Lutero não entra no mérito da autoridade do papa, mas diz
claramente que ele só pode entender sobre as penas que ele mesmo impôs, ou
seja, não pode ministrar sobre as penas do purgatório.]
Depois de uma introdução de 20 teses, Lutero bate de frente
com os vendedores de indulgências.
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que
afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do
papa.
22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de
uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
[Para afirmar sua tese Lutero, acreditando no purgatório,
usa este como argumento. O que não for pago em vida será ali pago.]
23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a
alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
[Lutero parece aceitar que existam perfeitos. Isso pode ser
classificado como uma clara leitura de sua educação romana. Lutero ainda não
entende o homem como completamente corrompido e completamente justificado.]
24. Por isso, a maior parte do povo está sendo
necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de
absolvição da pena.
[Acusa as indulgências de serem enganação.]
25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo
geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
[O papa não detém o poder das chaves, poder que é usado
para assegurar a validade das indulgências. O poder do papa é o mesmo que
qualquer cristão: interceder pelos outros. Neste caso, até mesmo pelos mortos
que estão no purgatório. Parece contestar a autoridade superior do papa, mas
considerando o caráter destes escritos não nos atreveríamos a afirmar isso a
essa época. Mas poderíamos argumentar que essa tese leva a entender que cada
bispo e cura é um papa em seu território de domínio. A tese não é clara quanto
à autoridade do papa e nem é isso que se está discutindo neste documento.]
26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo
poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo
tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o
céu].
[Segundo o pesquisador católico Nicolau Paulus, o pregador
dominicano João Tetzel realmente anunciou em suas pregações a frase: “Antes que
o dinheiro tilinte na caixa, a alma salta do purgatório.”]
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem
aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da
vontade de Deus.
[Lutero contrapõe a vontade de Deus à cobiça da Igreja.]
29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem
ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.
30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição,
muito menos de haver conseguido plena remissão.
[Aqui está implícita a luta pela remissão dos pecados que
cada um deveria ter na fé católica.]
31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire
autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
[Lutero não diz que as indulgências não sejam possíveis, mas
que são quase. Uma vez mais não é polêmico e sim pacífico.]
32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus
mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de
indulgência.
[Demonstração de que não aceita de forma alguma as
indulgências e ainda condena que as espalha, atrapalhando as consciências.]
33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as
indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa
é reconciliada com Deus.
34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente
às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.
35. Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária
a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.
[As confessionalia, “breves confessionais”, eram parte
importante das graças relacionadas com a proclamação das indulgências
jubilares. Quem comprasse tal privilégio adquiria o direito de escolher um
confessor, ao qual haviam sido concedidas autorizações ( faculdades) especiais
para a absolvição. Além disso, adquiria uma indulgência plenária para ser usada
uma vez na vida e para a hora da morte. Os confessores indicados, quando da
venda de uma tal bula extraordinária, tinham a autoridade de conceder dispensa
também nos casos reservados ao papa e de transformar promessas especialmente
severas em outras de menor peso. Além disso, podiam autorizar a retenção de
bens ilegitimamente adquiridos, de matrimônios entre pessoas inabilitadas
devido a certos graus de parentesco, etc. - As breves confessionais davam à
pessoa a segurança de que na hora da morte poderiam se livrar do castigo eterno
ou do purgatório. Ainda poderiam escolher a quem melhor lhes parecia para
confessar.]
36. Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito
à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.
[Qualquer cristão pode ser salvo, não apenas os que compram
indulgências.]
37. Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem
participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo
sem carta de indulgência.
[A graça é dada por Deus mediante Cristo.]
38. Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma
alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do
perdão divino.
[O papa não deve ser ignorado, mas somente porque declara o
que Deus já deu.]
39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo
exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a
verdadeira contrição.
[A indulgência dificulta a interpretação de pecado. As
consciências podem sentir-se tranquilas apesar de quaisquer pecados. Não há
contrição. Há suborno.]
40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo
que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando
ocasião para tanto.
[Os que procuram indulgências estão tentando escapar da
culpa através de meios não lícitos. Está implícito o pensamento de que se pode
pagar pelos pecados cometidos.]
41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências
apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às
demais boas obras do amor.
[Lutero contrapõe as boas obras às indulgências. São
preferíveis as obras. Lutero ainda está no pensamento romano de que as obras
são necessárias para a salvação.]
42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do
papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as
obras de misericórdia.
[Lutero afirma que o papa não corrobora com as indulgências.
Lutero pensa ter o apoio papal ao discutir estas questões. Na época julga poder
usar a opinião papal contra seus adversários. Somente alguns anos mais tarde é
que verá que estava enganado.]
43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou
emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.
[Uma vez mais Lutero afirma que é melhor fazer boas obras do que comprar indulgências.]
44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a
pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna
melhor, mas apenas mais livre da pena.
[As indulgências são fuga da pena.]
45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o
negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do
papa, mas a ira de Deus.
[Comprar indulgências traz a ira de Deus, pois é preferível
usar o dinheiro para ajudar ao necessitado. Lutero afirma claramente que
(segundo o pensamento romano) para livrar-se do purgatório e inferno é
necessário que se faça obras, ao invés de tentar fugir do castigo buscando as
indulgências.]
46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em
abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma
desperdiçar dinheiro com indulgência.
[Lutero entende que Deus dá bens às pessoas para que elas
possam viver e cuidar dos seus. Não se deveria gastar com indulgências se vai
faltar em casa. Isso vai contra o princípio de se comprar a indulgência para
livrar-se do castigo eterno.]
47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de
indulgências é livre e não constitui obrigação.
[Lutero aceita as indulgências (devemos lembrar que Lutero
aceita a autoridade do papa), mas afirma que não devem ser forçadas e sim
oferecidas.]
48. Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder
indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma
oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.
49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa
são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente
prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
[Lutero é confuso neste argumento. Não define como as
indulgências poderiam ser úteis. Mas ele está seguro de que as indulgências
representam a tentativa de fuga da ira de Deus.]
50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das
exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica
de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto
— como é seu dever — a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns
pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para
isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.
[50-51: Nas duas teses acima, mais uma vez Lutero defende o
papa. Sugere que este não sabe do que se passa na venda das indulgências. E que
se soubesse não permitiria.]
52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de
indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma
como garantia pelas mesmas.
53. São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa
da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas
demais igrejas. O comissário era uma pessoa comissionada pela Igreja com a
venda de indulgências.
(Durante o período de sua permanência em uma localidade, o
comissário era senhor absoluto sobre a igreja e sobre os sacerdotes.
Determinava quando e onde poderia ser pregado. Podia, além disso, suspender as
indulgências especiais, proibir a confissão, sob pena de excomunhão, designar
confessores de indulgências.)
54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão,
se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
55. A atitude do papa é necessariamente esta: se as
indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino,
uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser
anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
[53-55: Nas teses acima Lutero defende o valor da Palavra de
Deus ante as indulgências. Estava se dando muito mais valor às indulgências do
que à Palavra de Deus. Já não era a graça de Deus que salvava e livrava do
castigo eterno, mas simplesmente a indulgência papal.]
56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as
indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo
de Cristo.
(O tesouro da Igreja é formado pelas obras excedentes de
Cristo e dos santos. Estas obras excedentes estão confiadas à administração
papal como thesaurus bonorum operum. Cabe ao papa distribuí-las a quem delas
necessita. Lutero nega essa concepção na tese 58.)
57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza
temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas
apenas os ajuntam.
58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos,
pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz,
a morte e o inferno do ser humano exterior.
[Lutero ainda acredita (como a igreja romana) que os santos
tenham méritos e que os possam compartilhar.]
59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os
tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua
época.
60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja,
que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.
61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos
casos, o poder do papa por si só é suficiente.
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho
da glória e da graça de Deus.
[Aqui se sente que Lutero valoriza o Evangelho acima de
todas as coisas que a Igreja possa oferecer.]
63. Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão,
porque faz com que os primeiros sejam os últimos.
64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais
benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.
[As indulgências servem como fuga da ira divina.]
65. Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes
com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes
com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as
maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão
boa renda.
[65-67: Nas teses acima Lutero afirma que as indulgências
servem apenas para arrancar dinheiro das pessoas.]
68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas
em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.
[Indulgências não são nada quando comparadas à graça de Deus
em Cristo.]
69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a
reverência os comissários de indulgências apostólicas.
[Lutero enfatiza a hierarquia à essa época. Talvez por isso
ele tenha escrito a tese seguinte.]
70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os
dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não
preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.
[Lutero volta a defender o papa. Admitindo que os
comissários é que estariam desvirtuando aquilo que o papa lhes tinha ordenado.]
71. Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade
das indulgências apostólicas.
72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a
devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de
qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das
indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.
75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes
ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de
Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais
não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua
culpa.
(A teologia católica distingue entre pecados veniais e
pecados mortais. Os primeiros não são pecados no sentido lato do termo. Os
segundos referem-se aos sete pecados capitais. Estes, enquanto não forem
perdoados, têm como consequência a morte eterna, devendo, por isso, ser
confessados.)
[Lutero aponta para a inutilidade das indulgências.]
77. A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa
atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o
papa.
78. Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como
qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os
dons de curar, etc., como está escrito em 1Co 12.
79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa,
insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.
[Nada é maior do que a cruz de Cristo, nem mesmo a cruz do
papa.]
80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que
permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.
[Lutero lembra da responsabilidade de cada bispo frente ao
seu rebanho.]
81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não
seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra
calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.
82. Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas — o que seria a mais justa de todas as causas —, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica — que é uma causa tão insignificante?
83. Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os
aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam
de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar
pelos redimidos?
84. Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é
essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma
piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma
alma piedosa e dileta, por amor gratuito?
85. Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais — de fato
e por desuso já há muito revogados e mortos — ainda assim são redimidos com
dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno
vigor?
86. Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior
do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos
esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres
fiéis?
87. Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede
àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação
plenária?
88. Do mesmo modo: que benefício maior se poderia
proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da
mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a
qualquer dos fiéis?
89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a
salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora
já concedidas, se são igualmente eficazes?
[81-89: Nas teses que acima Lutero usa de sarcasmo para
contra argumentar às indulgências. Ele é muito perspicaz e não parece temer o
papa. Segundo ele pensava não havia o que temer, pois o papa estaria do seu
lado. Lutero põe nas teses as perguntas que provavelmente estariam circulando
entre as pessoas de sua época. Como na tese 82: se o papa pode tirar as pessoas
do purgatório por dinheiro, por que não faz isso por bondade? Com perguntas
assim ele mostra que é totalmente contra tais indulgências.]
90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos
somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a
Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.
[Lutero chama a atenção ao fato de que as pessoas merecem ao
menos uma explicação dos abusos que estão acontecendo. Eles não deveriam ser
tratados à força.]
91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em
conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam
ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92. Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo
de Cristo: "Paz, paz!" sem que haja paz!
93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de
Cristo: "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz!
94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por
seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;
[Os cristãos deveriam confiar que pelas penas estariam nos
céus (se percebe a teologia romana) e não por comprarem as indulgências. Estas,
ao contrário, geram uma esperança falsa e levam que leva ao inferno.]
95. e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes
através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.
[O caminho do céu passa pelas tribulações da terra. O
cristão sofre aqui, antes de estar na perfeição com Deus. Isto é claro para
Lutero.]
História de Lutero - 3 - Sacerdote, professor e pregador
Lutero se torna sacerdote, professor e pregador
Na primavera de 1507, Lutero, com 23 anos de idade, tornou-se sacerdote. Era tão bem visto por seus superiores que o enviaram como professor para a Universidade de Erfurt e depois para a nova Universidade de Wittenberg. Dentro em pouco tornou-se famoso mestre da Bíblia. Os estudantes não perdiam suas aulas de religião.Contudo teve de interromper suas preleções porque o seu superior, Dr. Staupitz, lhe pediu que fosse a Roma, onde vivia o papa. Lutero ficou muito contente. Partiu com um companheiro, viajando a pé. Foi uma longa e perigosa viagem. Quando finalmente avistaram Roma, Lutero se ajoelhou e exclamou:
Salve, santa cidade de Roma!Ficou, porém, muito desapontado quando viu que o povo de Roma levava uma vida pecaminosa, incluindo também os padres.
Depois de cinco meses Lutero estava de volta, continuando a lecionar na Universidade de Wittenberg. Em 1512 recebeu o titulo de Doutor em Teologia, passando também a pregar na bonita catedral de Wittenberg. O povo nunca havia ouvido pregações tão belas e eloquentes. Era cada vez maior o número de pessoas que iam à igreja ouvir Lutero falar. Lutero advertia seus ouvintes a não procurarem se salvar pelas obras, mas somente pela fé em Jesus.
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
História de Lutero - 2 - Lutero no Convento
Lutero no Convento
Certa ocasião um grande amigo de Lutero morreu subitamente. Lutero ficou tão abalado que disse a si mesmo:Que será de mim na eternidade, quando eu morrer?Noutra ocasião, ao voltar para Erfurt, de uma visita à casa paterna, foi colhido no caminho por uma tempestade. Atemorizado, fez uma promessa a Santa Ana, de que se saísse dali vivo, se tornaria um monge, e foi o que aconteceu. Retornando à Universidade, vendeu seus livros, despediu-se dos amigos e, não dando ouvidos a seus pedidos insistentes, entrou para o convento Agostiniano de Erfurt.
Então dizia:
Agora poderei viver de maneira mais agradável a Deus.Seu quarto era uma cela pequena de dois ou três metros, em que havia uma mesa, uma cadeira, um colchão de palha e uma janela. Lutero continuou a estudar a Bíblia. Vestindo uma batina preta, cumpria todas as penitências religiosas que lhe eram impostas. Andava também pelas ruas da cidade com um saco às costas, como era costume na época, mendigando pão, manteiga, ovos e tudo que era necessário para o sustento do convento. Além disso tinha que cuidar da limpeza da capela e dos quartos, e bater o sino. No quarto, estudava religião e filosofia e orava aos santos, querendo merecer o céu por meio de suas boas obras. Mais do que nunca buscava a paz de espírito, mas não a podia encontrar. Pensava sempre:
Sou pecador, e Deus está zangado comigo.Um dia descobriu uma coisa maravilhosa na Bíblia: Que a salvação é dom gratuito de Deus por intermédio de seu Filho Jesus Cristo, nosso Salvador.
História de Lutero - 1 - Do nascimento à Universidade
Nesta semana que se comemora os 500 anos da Reforma Luterana, veja algumas informações históricas sobre o Reformador que reconduziu a Igreja à verdade bíblica de que a "salvação é somente pela fé em Cristo Jesus".
Nascimento
Martinho Lutero nasceu na cidade de Eisleben, na Alemanha, no dia 10 de novembro de 1483. E foi batizado no dia seguinte, que era o Dia de São Martinho, por isso recebeu seu nome em homenagem ao santo do dia. Seu pai era camponês e, mais tarde tornou-se mineiro. Trabalhava da manhã à noite nas sombrias minas de carvão. Chamava-se João Lutero. Sua mãe chamava-se Margarida Lutero. Os pais de Martinho oravam com todo fervor aos santos, ensinando a seus filhos a fazer o mesmo. Amavam muito a seus filhos, mas eram também muito severos quando estes lhes desobedeciam.Lutero na Escola
Com a idade de 5 anos, Martinho começou a frequentar a escola na cidade de Mansfeld, para onde seus pais se haviam mudado. Nessa escola Lutero aprendeu os Dez Mandamentos, o Credo, o Pai Nosso, música sacra e também um pouco de Latim e Aritmética. Entretanto muito pouco aprendeu do amor de Deus. Ensinavam-lhe que Jesus era um Juiz severo e não um Amigo dos pecadores. E, assim, em vez de ele amar a Jesus, tinha-lhe medo. Martinho aprendeu depressa, pois era um bom aluno, muito aplicado e inteligente. Aos 14 anos matriculou-se na Escola Superior de Latim, em Magdeburgo, distante uns 90 quilômetros de onde morava. Foi aí que Lutero encontrou pela primeira vez uma Bíblia. No ano seguinte seu pai o transferiu para uma escola em Eisenach. Para se sustentar, Lutero e seus colegas tinham de cantar pelas ruas, angariando dessa forma o suficiente para viver. Numa dessas ocasiões, cantando em frente à casa de uma senhora de nome Úrsula Cotta, esta se interessou por ele e o recebeu em sua casa, dando-lhe desde então casa e comida de graça. Lutero aceitou com alegria e gratidão a oferta. Agora tinha mais tempo para se dedicar aos estudos. A família Cotta era muito culta e apreciava as artes, principalmente a música. Foi assim que Lutero passou a se dedicar à música. Mais tarde fez uso desse dom, compondo muitos hinos, que hoje são cantados na Igreja Luterana em todo o mundo. O principal desses hinos é Castelo Forte.Lutero na Universidade
Afinal Lutero ingressou na Universidade. Nessa época seu pai já prosperara o suficiente para poder custear seus estudos universitários. Reconhecendo os dons de seu filho, desejava que se formasse advogado. Foi por isso que o mandou para a Universidade, em Erfurt. Lutero continuou a estudar com afinco, e principalmente era diligente nas orações a Deus. Aos 21 anos recebeu o título de Bacharel em Artes, estando habilitado a lecionar. Para agradar a seu pai, Lutero continuou a estudar Direito, mas logo perdeu o interesse pela matéria. Cada vez mais se dedicava ao estudo de religião, sentindo o peso dos seus pecados. Mas, por mais que quisesse agradar a Deus com a sua vida, não pôde achar a desejada paz de espírito.segunda-feira, 21 de agosto de 2017
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Livre ou preso
Está passando no cinema “Mandela — luta pela liberdade", filme baseado no livro de memórias do carcereiro James Gregory que conviveu com Mandela por 20 anos. Conforme sinopse, o filme transcorre sob o ponto de vista do sargento James Gregory, que assume a direção da penitenciária onde se encontra o famoso detento. No começo, Gregory é extremamente racista, e está disposto a qualquer preço para que os brancos não percam o controle político do país. Aos poucos, porém, quanto mais ele tem contato com Mandela, mais começa a rever seus conceitos.Não vi o filme, até porque foi lançado há duas semanas. Falo desta obra cinematográfica por três motivos. O carcereiro é o ator Joseph Fiennes, o mesmo que interpretou Martinho Lutero no filme “Lutero”. Amanhã é 31 de outubro — dia em que Lutero em 1517 condenou publicamente o comércio do perdão dos pecados e deu início a luta contra o “apartheid” da igreja. E há um paralelo entre o carcereiro Gregory e o teólogo Lutero. Quem conhece a história de Lutero, percebe a semelhança. Só que o preconceito deste monge agostiniano era contra ele mesmo. Tornou-se carcereiro de Deus ao ingressar no mosteiro para conseguir perdão dos pecados e paz de espírito. Confinado numa sela sob os votos da pobreza, castidade e obediência, confessou mais tarde que sentia ódio de Deus. Mas foi ali mesmo no convento, em contato íntimo com as Escrituras Sagradas, que conheceu o Deus misericordioso revelado na face de Cristo.
O termo “apartheid” significa "separação", nome dado a este regime político sul africano que durante décadas impôs a dominação dos brancos sobre os negros. A Bíblia diz que os nossos pecados nos separam de Deus (Isaías 59.2). Um “apartheid” espiritual que, graças a Deus, não existe mais. Ou como escreve Paulo:
“Em todo o Universo não há nada que possa nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor” (Romanos 8.39).Com o fim deste regime diabólico, o único carcereiro agora sou eu mesmo — na ignorância e na descrença. É o que lembra Jesus:
“Quem não crer será condenado” (Marcos 16.16).Vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Mandela disse que
"não há caminho fácil para a liberdade”.O apóstolo Paulo escreveu algo parecido — ele que também esteve na prisão. Disse que Cristo nos libertou para sermos realmente livres, e que assim devemos permanecer sem voltar à escravidão (Gálatas 5.1). Pensando em tudo isto, que a liberdade não vem de mão beijada, que o carcereiro sou eu mesmo, cabe agora decidir o que fazer com as chaves.
“Eu lhe dou as chaves do Reino dos Céus”,lembra Jesus,
“o que você fechar na terra será fechado no céu, e o que você abrir na terra será aberto no céu” (Mateus 16.19).No final, dependendo da decisão, estarei livre ou preso.
Marcos Schmidt
Pastor luterano
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS
30 de outubro de 2008
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