terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O Culto Luterano - manual litúrgico 5

Este manual encontra-se completo aquiMas está disponibilizado também nas postagens, com o marcador "manual da comissão de culto". Há outras duas publicações no blog (mais antigas) devem aparecer na busca também, mas estas aqui estão atualizadas.

C. Variedade Litúrgica e Uniformidade


Os Luteranos, de forma geral, tomam seriamente a máxima confessional: “não é necessário que as tradições humanas ou os ritos e cerimônias instituídos pelos homens sejam semelhantes em toda parte.”[1] O rito básico do “Lutheran Worship” e do “Lutheran Book of Worship” oferecem muitas opções e alternativas. As congregações têm o direito de formatar as práticas do culto em suas comunidades. Isso não significa, porém, que o Culto Luterano esteja propondo uma anarquia litúrgica. Uma das orientações sinodais básicas da Igreja Luterana sempre foi de que devesse existir tanta unidade litúrgica quanto possível.[2] Essa unidade no rito é estabelecida pelo “é” das rubricas nos cultos. Todas as rubricas que indicam uma ação, “é” para ser realizada e considerada como obrigatória. Outras rubricas admitem, a ação “pode” ser realizada. Infelizmente a ordem do Culto Principal I e II do nosso Hinário Luterano não vêm com rubricas, porém isso não acontece com o “Lutheran Worship” (LW) por exemplo. No LW todas as orientações estão rubricadas (em vermelho). A primeira orientação das três ordens de culto apresentam uma rubrica que diz que um hino de invocação pode ser cantado antes da Invocação Trinitária. Por outro lado, após a Absolvição, o Intróito, um Salmo designado para o dia, ou um Hino de Entrada é cantado.[3] As rubricas obrigatórias e não obrigatórias estabelecem o rito básico, mas permitem que a congregação local molde o seu culto a partir delas.
A congregação local ainda possui outras oportunidades de formatar o seu culto, ao fazer uso das chamadas partes alternativas das ordens do culto. Em alguns períodos do Ano Eclesiástico, por exemplo, o “Gloria in Excelsis” pode ser substituído por outro cântico. O LW substituiu o “Gloria in Excelsis” na sua primeira ordem, pelo cântico “Come, Oh, Come, Immanuel”, e na segunda, por “This Is the Feast”.[4] No Hinário Luterano, as opções oferecidas são os hinos 230 e 231. Existem alternativas também para o Ofertório e para outras partes maiores do culto.
No caso do LW, a intenção é propor um rito unificado, permitindo que a prática das congregações locais formatizem o culto de acordo com as suas necessidades e condições, com maior ou menor simplicidade, ou com maior ou menor requinte.

D. A Celebração da Vitória de nosso Senhor
Os cultos corporativos da Igreja Luterana são celebrações da vitória de nosso Senhor Jesus Cristo. Eles proclamam a ação salvífica de Deus por meio da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Nossos cultos celebram que Jesus abriu as portas dos céus por nós, mediante sua vida, morte e ressurreição. Nossos cultos não celebram um Jesus de Nazaré recentemente morto, e sim, testemunham a ressurreição de Cristo pela proclamação, pregação, louvor, ações de graças, e o Sacramento. Pela proclamação da Palavra e pela celebração e administração do Sacramento, Jesus Cristo está presente em nosso meio, de acordo com suas promessas. E de fato Ele está conosco até o fim dos tempos (Mt 28.20).

E. O Culto Principal I e II em Detalhes

CULTO PRINCIPAL I
CULTO PRINCIPAL II
 Hino de Invocação
 Hino de Invocação
Invocação
Invocação
Exortação e ou Alocução Confessional
Alocução Confessional
Confissão e Absolvição
Confissão e Absolvição
Introito: Antifona, Salmo, Gloria Patri, Antifona
Introito
Gloria Patri
Kyrie
Kyrie
Gloria in Excelsis
Gloria in Excelsis
Saudação
Saudação
Oração do Dia
Coleta
Leitura do Antigo Testamento

Leitura da Epístola
Epístola
Gradual ou Hino do Gradual
Hino
Leitura do Evangelho
Evangelho

Confissão da Fé: Credo Niceno ou Credo Apostólico
Hino do Dia
Hino
Sermão
Sermão
Confissão da Fé: Credo Niceno, Credo Apostólico, Hino do Credo, Credo Atanasiano ou Explicação dos Três Artigos do Credo


Ofertório
Oração Geral da Igreja

Recolhimento das Ofertas
Recolhimento das Ofertas

Oração Geral
Obs.: Não havendo Ceia,
segue: Pai Nosso, Hino,
 Oração e Bênção
Obs.: Não havendo Ceia,
 segue: Pai Nosso, Hino,
 Oração e Bênção
Ofertório ou Hino de Santa Ceia
Hino
Prefácio
Prefácio
Sanctus
Sanctus
Pai Nosso: Oficiante, Coro ou Congregação
Pai Nosso
Oficiante
As Palavras da Instituição
As Palavras da Instituição
Pax Domini
Pax Domini
Agnus Dei
Agnus Dei
Distribuição da Santa Ceia
A Distribuição
Ação de Graças, ou Nunc Dimittis ou Hino apropriado
Nunc Dimittis

Ação de Graças

Saudação

Benedicamus
Bênção
Bênção


1. Preparação

A preparação pode iniciar com um hino de invocação. Este hino opcional pode ser omitido se a extensão do culto for um ponto a considerar. As partes liberadas, para serem omitidas, estarão assinaladas nas rubricas com a expressão “pode”.
Como pode ser observado, o Culto Principal I e II são muito semelhantes. Ambos iniciam com a Invocação do Deus Triúno. Convém salientar que esta é uma Invocação. Não estamos apenas sendo lembrados de que o Deus que adoramos é Pai, Filho e Espírito Santo. Estamos pedindo para que o único Deus verdadeiro esteja em nosso meio, esteja em nossos corações, ao lhe oferecermos o nosso culto e o nosso louvor.
Ambos os cultos convidam os penitentes a examinarem cuidadosamente as suas consciências, para então, chamá-los a uma Confissão geral dos pecados. As duas ordens apresentam duas formas de Confissão e Absolvição. Uma mais direta e pessoal, outra mais genérica e declaratória.
É interessante observar uma evolução nas ordens de culto do antigo para o novo Hinário Luterano. No antigo Hinário tínhamos uma ordem para cultos sem Santa Ceia e outra para cultos com Santa Ceia. No novo Hinário temos duas ordens completas com Santa Ceia, apenas prevendo a eventualidade de cultos sem Santa Ceia. Fica evidente que a intenção no novo Hinário é a de estimular cultos regulares com Santa Ceia.
Não existe nada do ponto de vista teológico e litúrgico que apontem para a necessidade de uma Confissão precedente à Santa Ceia.[5] Mesmo que o costume e o discernimento pastoral apontem para o valor de uma Confissão e Absolvição na maioria das vezes, as circunstâncias podem demandar que o culto inicie com o Introito, ou Salmo de Entrada ou Hino de Entrada.
A ordem do Culto Principal I aponta para o fato de que a Confissão e Absolvição é um ato de preparação. Essa preparação pode apropriadamente ser conduzida da entrada da igreja, antes do processional de entrada. Neste caso, a congregação volta a sua face para o ministro presidente. Ela também pode ser conduzida da fonte batismal, caso esta esteja localizada à entrada da nave (mais comum em igrejas luteranas europeias e norte-americanas e, principalmente, em igrejas Católico-Romanas), devido à íntima relação existente entre o Batismo e a Absolvição.

2. Ofício da Palavra
O Ofício da Palavra inicia com um Introito, que consiste de versos de Salmos selecionados para o dia, o Salmo do dia, ou de um Hino de Entrada. Originalmente, o Introito consistia de um Salmo de Entrada, que por decreto papal (432 A.D.) era cantado antifonicamente (responsivamente), por um coro duplo, por ocasião da entrada do ministro presidente e seus assistentes. Por volta do ano 600 A.D., Gregório Magno abreviou este Salmo, dando origem à forma reduzida que encontramos até hoje em uso. Lutero preservou esses introitos, mas sempre mostrou preferência por Salmos completos.[6]
É interessante observar que existem várias opções. Se a congregação tiver um coro disponível, seria apropriado que o Salmo ou o Introito fosse cantado pelo coro. Por desconhecimento, a maioria das congregações da IELB tem utilizado quase exclusivamente Salmos responsivos. Raramente se utilizam do Hino de Entrada e quase nunca do Salmo cantado pelo coro. Há uma tendência ao retorno de Salmos cantados pelo coro ou pela congregação na Igreja Luterana.
Na medida em que entramos na parte principal do culto, convém rever a diferença entre Rito e Cerimônia e sua aplicação nas diferentes partes. O Rito é o texto do culto. O Rito é salientado nas rubricas obrigatórias do culto. Elas definem o que deve ser feito cada vez que cristãos se reúnem em nome do Senhor. Tais rubricas não foram escritas por mero capricho, mas foram cuidadosamente planejadas, levando em conta as normas históricas e teológicas do culto. Quando cristãos se reúnem, eles oram, leem as Escrituras, ouvem a explanação da Palavra de Deus, apresentam suas ofertas e celebram o Sacramento do Altar. As rubricas existem para indicar claramente que tais coisas devem ou podem fazer parte do nosso culto luterano.
O Rito pode ser enriquecido ou ampliado, de acordo com o caráter festivo do dia ou do período. As Cerimônias (as ações recomendadas) que estão sendo sugeridas a seguir, levam em consideração os princípios teológicos e históricos apresentados anteriormente.
Considerando que o Ofício da Palavra está centrado na leitura, na pregação e nas orações do povo de Deus, estas partes poderiam apropriadamente serem feitas fora do altar, em um púlpito de leitura (ambão), reservando o altar exclusivamente para a celebração da Ceia do Senhor. Desta forma, se criaria dois focos de concentração maiores, um para a Palavra e outro para o Sacramento, visivelmente evidenciados no altar e nos púlpitos — o de leitura e o de pregação.
As rubricas deveriam antecipar todas as ações do culto, indicando as partes do ministro presidente, dos assistentes e da congregação, quando algo deve ser cantado ou falado. No caso de haver a indicação para o canto por parte do ministro presidente, isso não significa que o mesmo deveria fazê-lo como se fosse um cantor de ópera e sim, falar cantando. Por outro lado, se ministros cantam, a congregação deve responder cantando. Se ministros falam, a congregação responde falando.
Existem ordens que seguem a Formula Missae e que invariavelmente recomendam o uso do Kyrie e do Gloria in Excelsis. Outras ordens alternativas, porém, indicam o Kyrie e o Gloria in Excelsis como formas opcionais e recomendam que durante os períodos comuns, ou períodos verdes (Epifania e Pentecostes), sejam omitidos, reservando o seu uso para os períodos festivos. O uso do Kyrie recomendado para o Advento e a Quaresma, enquanto o Grande Hino de Louvor deve ser usado durante o Natal e a Páscoa.
A Oração do Dia é a primeira grande oração variável do culto, também chamada de Coleta por reunir todos os nossos pensamentos num parágrafo simples e objetivo. Existem as coletas históricas que têm acompanhado a igreja ao longo dos séculos, mas que carecem de uma atualização na linguagem. A Comissão de Liturgia está concluindo a elaboração de uma nova série de coletas que levam em consideração as leituras da Série Trienal[7]. São duas orações por Domingo, uma considerando a segunda leitura e a outra, a primeira leitura e o Evangelho. A Oração do Dia é precedida pela saudação e o seu responso. Essa é uma bênção mútua entre pastor e congregação, congregação e pastor. As rubricas luteranas reservam essa oração exclusivamente ao ministro presidente.
As leituras bíblicas[8] e sua exposição são os elementos fundamentais do Ofício da Palavra. A Primeira e a Segunda Leitura podem ser feitas por um ministro assistente, esta era a função do diácono e do sub-diácono na Missa Solemnis. As leituras indicadas para uso no culto são em número de três. A Primeira Leitura é normalmente do Antigo Testamento, as únicas exceções são: o Batismo de Jesus (1º Domingo após Epifania) e o período da Páscoa, quando na Série Trienal as leituras são extraídas de Atos dos Apóstolos. A Segunda Leitura, normalmente um trecho de uma Epístola, excepcionalmente no período da Páscoa, na Série C, é substituída por trechos do Apocalipse, e no dia de Pentecostes, nas três Séries, é substituída por Atos dos Apóstolos.
O Santo Evangelho é cercado com grande dignidade e honra, pois reporta às palavras de nosso Senhor Jesus. Ouvir o Evangelho é ouvir a Cristo. Marcamos a dignidade do Evangelho com responsos antes e depois da sua leitura. Um costume muito antigo, mas muito apropriado, é a procissão do Evangelho, carregando o livro em meio a “tochas de fogo” até o centro da igreja, particularmente nos dias de grande festa do Ano da Igreja. Ordinariamente, a Leitura do Evangelho é feita pelo ministro presidente, visto constituir-se frequentemente no texto da pregação.
A ordem do Culto Principal II aponta a recitação do Credo logo após a Leitura do Evangelho. O Credo sumariza a fé cristã ouvida nas Escrituras. O Credo Niceno deve ser usado em cultos com celebração da Santa Ceia. O Credo Apostólico pode ser usado em outras ocasiões, especialmente em celebrações batismais e confirmações. Caso o Credo tenha sido usado por ocasião do Batismo, ele não precisa ser repetido mais tarde.
O Hino antes do sermão não é considerado opcional pelas rubricas luteranas. Este é o Hino do Dia. Na Igreja Luterana ele tem sido considerado o Hino Principal (Hauptlied), e tem como função preparar a congregação para o sermão e por esta razão, sempre foi selecionado com o maior dos cuidados. Em muitas ordens de culto do século XVI, tais hinos eram selecionados e prescritos para cada Domingo e Dia Festivo do Ano Eclesiástico. Muitos desses hinos foram traduzidos e preservados nos Hinários Luteranos contemporâneos.
O sermão nunca é opcional, mesmo um simples culto de dia de semana demanda que a Palavra de Deus seja lida e explicada ao povo. A pregação na teologia luterana é a viva voz do Evangelho. Jamais deve ser omitida. O ministro presidente geralmente prega o sermão. Exceções podem ser feitas em ocasiões especiais, quando há pregadores convidados.
A Ordem do Culto Principal I indica o uso do Credo após o sermão.[9] A colocação do Credo após o Sermão, visa salientar o uso da compreensão teológica do Credo como sumário da Palavra de Deus. Ouvimos a Palavra de Deus nas Leituras. A Palavra de Deus foi proclamada na pregação, a viva voz do Evangelho. O Credo se torna o sumário desta fé bíblica, lida e exposta. O Credo Niceno é indicado para uso em celebrações do Sacramento do Altar. O Credo Apostólico em todas demais ocasiões.
O culto continua com o ofertar das orações. Este é um papel específico dos ministros assistentes. Na igreja antiga, o diácono saindo do meio da congregação, como representante da congregação, trazia todas as necessidades, louvores, ações de graças, diante do trono de Deus. Não existiam formas de orações pré-elaboradas, mas eram feitas sugestões para petições. Após cada petição, a congregação recebia a oportunidade de responder. A oração era concluída pelo pastor no seu papel de ministro presidente. É apropriado, segundo as rubricas, oferecer essas orações do púlpito de leitura.
O Culto Principal I, ao inverter a Oração Geral da Igreja e o recolhimento das ofertas, procura introduzir uma inovação que traz de volta uma antiga prática da igreja cristã de, entre as ofertas que são trazidas até o altar, incluir o pão e o vinho a serem utilizados na Santa Ceia. Também as ofertas em dinheiro são recebidas neste momento e, preferencialmente, depositadas numa credência, ao lado do altar, pois esta é a hora de preparar a Ceia do Senhor.
Não havendo celebração da Santa Ceia o culto conclui com Pai Nosso, Hino, Oração e Bênção.

3. Celebração da Santa Ceia
O Ofertório é mais uma inovação no Culto Principal I, dando início a preparação para a Santa Ceia. O pão e vinho são preparados e trazidos pelos ministros assistentes e depositados sobre o altar.
À medida que o ministro presidente se aproxima do altar, algumas coisas precisam ser ditas. As Ações do Prefácio à Consagração são reservadas exclusivamente ao ministro presidente segundo as rubricas luteranas. É ele, que pelo ato da ordenação e seu chamado, foi designado para ser o pastor que age em nome e em lugar do Senhor. O papel próprio do pastor como ministro presidente é o de pronunciar a absolvição, pregar o sermão e celebrar o Sacramento. É precisamente essa a sua obrigação, nos termos de seu chamado pela congregação.
No que concerne ao altar, não existem recomendações definitivas quanto ao estilo. Sabemos que Lutero tinha preferências por um altar removido da parede e há uma forte tendência de seguir esta orientação de Lutero. Até a Idade Média, o celebrante ficava de frente para o povo, permanecendo atrás da mesa do altar. A introdução de relíquias que iam sendo estocadas atrás do altar, forçaram o celebrante a passar para a frente do mesmo, ficando de costas para o povo. As congregações que se sentirem à vontade com esta recomendação, devem sentir-se livres para fazê-lo.
Apesar de Lutero ter abandonado integralmente a oração eucarística por razões teológicas, muitos estudiosos da liturgia criticam a sua atitude radical e falta de coerência em não preservar o que não fosse contrário à Escritura. Pensa-se hoje em restaurar a oração eucarística purificada de seus abusos.[10]
O próprio LW nas ordens de culto I e II, incluem orações antes das palavras da instituição, com o argumento de manter-se em consonância com as ações de nosso Senhor ao dar graças por ocasião da última Ceia, bem como a prática histórica da igreja. Esta oração lembra a obra da salvação (anamnesis) e invoca a ação do Espírito Santo sobre o seu povo (epiklesis) pedindo uma recepção digna do Sacramento. Esta oração é seguida pelo Pai Nosso.
Na teologia luterana, as palavras da instituição são elemento essencial na consagração do pão e do vinho. São elas que contêm a Palavra da Promessa de Cristo com relação ao pão e o vinho, ao seu corpo e sangue. É apropriado segundo as rubricas, fazer o sinal da cruz no momento de pronunciar as palavras “isto é meu corpo” e “isto é o meu sangue”. Também é apropriado tomar nas mãos o pão, ao pronunciar as palavras “tomou o pão” e semelhantemente também “tomou o cálice”.
A Igreja da Confissão de Augsburgo tradicionalmente fez uso do cálice comum na Santa Ceia. O uso de cálices individuais é uma inovação recente, pertencente ao século XX. Foi introduzido pela Igreja Luterana imitando denominações protestantes que deixaram de usar o vinho no Sacramento, substituindo-o por suco de uva. Sem o conteúdo alcoólico do vinho, o uso do cálice comum foi considerado anti-higiênico e insalubre, por causa do perigo do contágio de doenças infectocontagiosas. Com isso, muitos luteranos acharam por bem abandonar seu uso, o que não era necessário, considerando que o vinho utilizado pelos luteranos contém álcool.
As duas ordens do nosso Hinário Luterano prescrevem uma saudação da paz de Deus entre ministro presidente e congregação. Se a congregação desejar, essa paz pode ser compartilhada entre os membros por meio de um aperto de mão ou de um abraço. O partilhar da paz reproduz em roupagem moderna o ósculo da paz bíblica, apostólica e pós-apostólica. O mesmo era partilhado de homem para homem e de mulher para mulher. O gesto moderno de apertar as mãos parece ser uma reprodução adequada desta antiga prática. Mas deve ser mais do que um mero “bom dia”. Não é o momento para conversa fiada e trocas de informações. É um momento para saudarmos uns aos outros como irmãos redimidos no Senhor.
Segue-se o cantar do Cordeiro de Deus. Esta não é uma parte opcional, mas obrigatória do Rito. Este é o último hino de louvor antes de Cristo vir a nós na Santa Ceia.
O ministro presidente e os ministros assistentes participam da Ceia antes de ser distribuída à congregação. Aqueles que distribuem as dádivas sagradas, devem eles próprios experimentá-las primeiro. Os perdoados oferecem o perdão por meio da distribuição do Sacramento. Para manter o precedente histórico, é próprio que o ministro presidente se auto-comungue e depois comungue os seus assistentes. É totalmente desnecessário e sem sentido que o ministro presidente se faça comungar por um de seus assistentes antes de dar-lhes a comunhão.
Cada congregação desenvolveu um método próprio de distribuição do Sacramento. A questão de experimentar novas maneiras de distribuição deveria ser precedida de reflexão adequada. Não inovar pelo espírito de inovar; o objetivo deve ser distribuir o Sacramento de forma reverente, sem perda de tempo, mas sendo eficiente e não descuidando do significado do que se está fazendo.
Caso os elementos consagrados tenham sido consumidos totalmente, o ministro presidente deverá consagrar novos elementos, fazendo-o de forma que todos o percebam.
Observe-se que as palavras da distribuição não são opcionais; elas tornam claro ao comungante e à congregação de que Cristo está verdadeiramente presente no Sacramento.
A despedida é propriamente reservada para o ministro presidente. Ele é o servo de Deus chamado e ordenado naquela congregação e deve cumprir responsavelmente o seu papel.
Cânticos de pós comunhão são providos em ambas as ordens de culto. Recomenda-se que, durante o cantar desses cânticos ou de um hino apropriado, os ministros removam do altar os utensílios, devolvendo-os à mesa da credência ou como acontece na igreja Católica Romana, depositando-os no sacrário.
Os vasos sagrados, tanto no altar quanto na credência, devem ser cobertos. Após o culto o cálice pode ser esvaziado na terra ou derramado na fonte, especialmente reservada para tais finalidades no santuário, desde que o dreno desta esteja diretamente ligado à terra. Os ministros podem reverentemente tomar o restante do vinho do cálice. O pão consagrado pode ser consumido pelos ministros, ou cuidadosamente removido da patena e do cibório e ser guardado para a próxima comunhão.
A conclusão da ordem de culto I é mais breve e objetiva do que a II. O momento da pós-comunhão não tem razão de ser prolongado e assim se tornar dispersivo e anti-climático.

V - Palavras Finais
Mudanças ligadas ao culto muitas vezes provocam resistências. A igreja precisa tratar com seriedade as ansiedades daqueles que se sentem ameaçados pelas mudanças litúrgicas. A mudança é especialmente ameaçadora para a igreja porque a religião e a liturgia falam de nossos valores básicos. A mudança pode implicar a alteração desses valores e gerar dúvidas sobre os mesmos. É preciso enfatizar que mudanças na ordem de culto não procuram mudar ou alterar nosso verdadeiro culto ao Triúno Deus.
Precisamos lembrar que o culto, como todas as ações humanas, está sujeito a distorções e deterioração. A liturgia necessita de constante clarificação, para que não se torne presa do cerimonialismo. Nem sempre convém falar a cristãos sobre práticas litúrgicas como sendo corretas ou incorretas. O que precisamos fazer é perguntar-nos se nossas práticas litúrgicas estão servindo de apoio ou de distorção para a nossa compreensão da fé cristã e de ministério. Nosso culto precisa estar em harmonia com a nossa teologia e vice-versa.
Não se deve pensar que mudanças em nossas práticas de culto resolverão todos os problemas da igreja. Também não devemos dar a entender que formas antigas de culto estão incorretas. Não se ganha nada em criticar formas antigas de culto. A introdução de novas formas de culto deve ser vista como recurso adicional ao culto congregacional.
Por último, precisamos todos lembrar que culto não é uma técnica. É a obra do Espírito. Nossa tarefa como líderes de culto é a de criar uma situação em que Palavra e Sacramento possam ser poderosamente oferecidos e recebidos pelo povo de Deus. A oração é a primeira exigência ao se começar a trabalhar em mudanças na liturgia. Todos precisamos ser lembrados que isto é obra de Deus e não nossa.

São Leopoldo, 27/01/1998
Reformulado e ampliado em: 07/04/1998
Rev. Oscar Lehenbauer
Rev. Ely Prieto



[1] Livro de Concórdia, CA VII, p.66.3-4.
[2] Conferir os Estatutos e Regimento da IELB, Art. 100.III, p.61, 1996.
[3] Lutheran Worship, Concordia Publishing House, St. Louis, 1982, pp.136, 158 e 178.
[4] Id. Ibid., pp.137 e 161.
[5] Sabe-se no entanto, através do Didaquê, que a igreja da época adotava o costume de, durante o culto, os que estivessem em falta se levantavam e confessavam perante a igreja as faltas cometidas. Era uma confissão pública, espontânea e em voz audível. O Didaquê porém desconhece qualquer prática de absolvição por parte de um ministro. José G. SALVADOR “O Didaquê”. São Paulo, Departamento de Editoração da Imprensa Metodista, 1980., pp.63 e 64. (Cf. Didaquê XIV.1 e IV.14). No período da Reforma, enquanto Lutero se preocupou em redigir uma “Breve Ordem de Confissão perante o Sacerdote para o Homem Comum” (1529) e “Como se Deveria Ensinar as Pessoas Simples a Confessar-se” (1531), claramente enfatizando não a confissão, e sim, a absolvição; os outros reformadores se contentaram em acrescentar orações penitenciais aos seus cultos dominicais públicos. James F. WHITE, op. cit., p. 207.
[6] Luther D. REED, op. cit., p.262.
[7] Aqui se estava pensando na Série Trienal que foi usada até 2008.
[8] Segundo WHITE, um dos mais úteis resultados da era pós-Vaticano II foi o lecionário ecumênico. Iniciado após Vaticano II pela Igreja Católica Romana, o trabalho de vários anos feito por uma equipe de tempo integral e 800 consultores - protestantes, católicos e judeus - levou-o à sua forma atual. Espiscopais, Luteranos e Presbiterianos desenvolveram suas próprias versões a partir do lecionário original., op. cit. p.61. Em 1980 a Igreja Evangélica Luterana do Brasil - IELB, em Convenção Nacional, adotou a versão da LCMS (Cf. Preciso Falar Vol. VI, 1986, p.IV).
[9] A Idade Média (no Ocidente) também acrescentou o Credo Niceno imediatamente após o sermão. Isso parece ter acontecido em oposição ao arianismo (que negava a divindade de Cristo) e por esquecimento da natureza proclamatória da oração eucarística. Essa prática provavelmente se originou na Espanha, promovida por Carlos Magno, sendo adotada em Roma somente um pouco antes do séc 11. No Oriente foi adotada no séc. 6 como parte da Eucaristia. James F. WHITE, op. cit., p.117.
[10] Nelson KIRST observa que: ”os reformadores tomaram medidas bastante radicais, amputando partes essenciais do culto cristão dominical, porque reagiam ao que consideravam desvios da Igreja Ocidental da Idade Média. No entanto, eles desconheciam a liturgia dos primeiros séculos. Sabemos hoje que ignoravam muitos documentos relevantes daqueles tempos primordiais (como, por ex., o Didaquê), op. cit., p.139. James F. WHITE acrescenta que: “a redescoberta da centralidade da oração eucarística como a suprema declaração de fé da igreja estimulou a revisão de orações existentes e a composição de novos exemplos. Os luteranos americanos a recuperaram em 1958”, op. cit., p.190.

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