sábado, 2 de fevereiro de 2019

A Admoestação e a Disciplina Cristãs

A Admoestação Cristã

      O corpo de Cristo deve ser uma comunidade vigilante para refletir Cristo, sua cabeça. Tocados pelo amor de Deus em Cristo, os cristãos aceitam o privilégio e a responsabilidade de nutrir e apoiar as necessidades espirituais e corporais uns dos outros. O Salvador disse claramente, “O meu mandamento é este: amem uns aos outros como eu amo vocês.” (Jo 15.12) João relembra-nos: “E o amor é isto: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e mandou o seu Filho para que, por meio dele, os nossos pecados fossem perdoados. Amigos, se foi assim que Deus nos amou, então nós devemos nos amar uns aos outros.” (1Jo 4.10-11). E, devido ao fato de o poder do Diabo, o mundo e a nossa carne pecaminosa combinarem-se a fim de desviar o fraco do bom caminho — e mesmo o forte de tempos em tempos — Paulo relembra aos cristãos da Galácia: “Meus irmãos, se alguém for apanhado em alguma falta, vocês que são espirituais devem ajudar essa pessoa a se corrigir. Mas façam isso com humildade e tenham cuidado para que vocês não sejam tentados também. Ajudem uns aos outros e assim vocês estarão obedecendo à lei de Cristo.” (Gl
6.1-2).
      Não havia limite para o que o Salvador poderia fazer e para a paciência que ele demonstrava na tarefa de recuperar o perdido e o errante. A trilogia de parábolas registrada em Lucas 15 articula a perseverança de Deus em procurar o errante e a ansiedade de Deus para perdoar e para restaurar o perdido à família de Deus.
      E nem o pastor poupará esforço algum para auxiliar a congregação a recuperar os membros errantes ou perdidos, permitindo “Que a mensagem de Cristo, com toda a sua riqueza, viva no coração de vocês! Ensinem e instruam uns aos outros com toda a sabedoria.” (Cl3.16) Esta tarefa não é auto-justifiação, mas interesse e preocupação genuínos pelo membro e irmão que rompe com a comunidade adoradora, que repudia o nutrimento dos meios da graça, ou que às tentações que assaltam a todos nós. A meta é que todos sejam mantidos a salvo no rebanho de nosso Salvador.
      Ainda assim, os cristãos frequentemente ignoram aqueles que necessitam de ajuda espiritual, como se isto não fosse preocupação deles. Expressões ocasionais de interesse, por conseguinte, têm um som vazio — como, por exemplo, quando um membro tem se ausentado do culto por vários anos e o visitador da igreja então lhe diz: “Estou aqui porque estamos preocupados com você”. Tais tentativas esporádicas parecem indicar que, não importa qual seja o relacionamento que as pessoas tenham com o Senhor, de qualquer maneira elas serão salvas.
      Embora o pastor tenha a responsabilidade primordial de exercer a liderança, todos os membros da congregação são responsáveis diante de Deus por seus irmãos crentes. Recusar cuidado espiritual aos outros é uma ofensa contra Deus, o Criador e o Salvador de todos nós.
      Como um exemplo para o rebanho, o pastor deveria demonstrar uma afeição vigilante para com todos os membros da congregação. Ele deveria liderar dando oportunidades para que os membros desempenhassem o mesmo interesse zeloso mutuamente. (Estas oportunidades, contudo, não incluem permitir que o escritório do pastor sirva como um repositório de fofocas e insinuações. Se um membro vier contando coisas da vida de outros, este membro deveria ser aconselhado a exercer pessoalmente a responsabilidade da admoestação.)

A disciplina Eclesiástica:

Um Ministério da Reconciliação

      Usado adequadamente, o processo de disciplina eclesiástica é positivo é útil; uma oportunidade para ensinar os outros a aplicar a Lei e o Evangelho corretamente (1), e uma maneira para que o Evangelho motive as pessoas a colocarem sua fé em prática (Ef 2.10; Gl 5.24-26; Rm 8.1-17).
      Mateus 18 nunca deveria ser usado como uma maneira rápida para livrar-se de um negligente. A disciplina eclesiástica é um ministério de reconciliação (2Co 5.19). O objetivo é reconciliar a pessoa com Deus, com a congregação em geral e com os membros individualmente (incluindo o pastor). Os pastores exercem uma ótima influência na congregação quando eles, como pacificadores (Mt 5.9), aplicam os princípios de Cristo (Mt 7.1-5; 18.1-15) e São Paulo (2Co 5.11-6.2; Gl 6.1-5) e quando eles treinam seus membros em como realizar a reconciliação.
      A implementação do processo de reconciliação envolve mais do que apenas seguir mecanicamente Mateus 18, passo a passo (2). Os escritos de Paulo oferecem uma boa recomendação prática. A pessoa que quer tentar impedir que um irmão ou uma irmão caia da graça deve estar orientada espiritualmente (Gl 6.1-5), deve estar completamente harmonizada com o que significa a vida no Espírito (Gl 5.13-25) e deve estar consciente de que, ao mesmo tempo, a Escritura aplica a ambas as partes: “Agora já não existe nenhuma condenação para as pessoas que estão unidas com Cristo Jesus.” (Rm 8.1) (3). Isto presume que um membro errante é um filho de Deus até prova em contrário (Mt 13.24-
30).
      Para realizar esta reconciliação, três fatores devem estar claros:

  • Atitude: A mente de Cristo e a consciência de sua presença são fundamentais para a disciplina eclesiástica. Cristo mesmo disse:

— Eu afirmo a vocês que isto é verdade: o que vocês proibirem na terra será proibido no céu, e o que permitirem na terra será permitido no céu.
— Eu afirmo a vocês que isto também é verdade: todas as vezes que dois de vocês que estão na terra pedirem a mesma coisa em oração, isto será feito pelo meu Pai, que está no céu. Porque, onde dois ou três estão juntos me meu nome, eu estou ali com eles. (Mt 18.18-20; cf. Jo 20.21-23).
      Esta passagem exige que tomemos a sério o que significa que Jesus está presente na igreja. Já que Jesus está presente, a igreja se esforçará para demonstrar as mesmas qualidades de paciência, perseverança, amor, perdão e compaixão que Cristo mostrou. A igreja deve expressar preocupação ardente pelo bem-estar eterno da pessoa errante.

  • Propósito: O propósito último que perpassa todos os procedimentos da disciplina eclesiástica é, por meio de arrependimento e absolvição, restaurar a pessoa à comunhão completa com a igreja. Portanto, a igreja não pode estabelecer um limite de tempo para cada um dos passos de Mateus 18. A igreja tem a obrigação sagrada de fazer todo possível para trazer a pessoa de volta ao relacionamento vital e salvífico com o Senhor Jesus Cristo. Uma pessoa que se torna membro de uma congregação cristã, de fato, requer tal preocupação vigilante; e a congregação, ao receber um membro, promete proporcionar isto.
  • Meios: A Palavra, corretamente dividida em Lei e Evangelho, fornece os únicos meios para intimar o errante ao arrependimento e para oferecer a certeza do perdão. Apelos a expedientes, a auto-vantagens ou a expressões variadas de lealdade falham em tomar o risco espiritual no qual a pessoa está envolvida a sério e vão de encontro ao propósito último de recuperar o perdido.

A Proibição Menor

      Como primeiro ato oficial da aplicação da Lei ao impenitente, o pastor pode exercer sua responsabilidade pelo bem-estar espiritual de uma pessoa vedando-lhe a Ceia do Senhor. Isto é chamado de “proibição menor”. O pastor pode recorrer a isto quando uma pessoa manifestar um espírito impenitente ao guardar rancor contra alguém, a recusar o perdão ou ao viver em pecado insistente — i.e., ao comprometer-se com o pecado, recusando a graça de Deus. O pastor lida com a pessoa em nível pessoal enquanto o problema não tiver sido resolvido, orando
para que, deste modo, os passos subsequentes em direção à excomunhão não venham a ser necessários. “Ainda não há nem absolvição em uma mão e nem excomunhão na outra” (4).

Excomunhão

Causa e Definição

      De acordo com Mateus 18, quando uma pessoa permanecer inexoravelmente
impenitente, a igreja não tem outra escolha a não ser seguir os passos rumo a declarar que a pessoa é um “pagão ou como um cobrador de impostos” (Mt 18.17). A excomunhão significa que a pessoa cortou a si mesma da graça de Deus e que foi declarada fora de um relacionamento salvífico com Jesus Cristo. A pessoa que morresse neste estado de impenitência estaria perdida eternamente.
      Realmente, o pecado em si mesmo não exige a excomunhão ou a separação da igreja cristã. Cada um peca diariamente e precisa do perdão que Deus dá livremente por causa de Cristo. Ao invés de excomunhão ou separação, a falha em reconhecer nossa pecaminosidade e ser persistentemente impenitente já nos separa de Deus e impede que o perdão e a restauração aconteçam — buscando ou não a igreja a disciplina eclesiástica.

Consequências

      A excomunhão declara que a pessoa impenitente está fora do âmbito da igreja (ainda que possa adorar com ela). A pessoa excomungada não pode mais receber o Sacramento do Altar e nem ser um padrinho de Batismo. Todos os direitos e privilégios de membro da congregação estão suspensos e a pessoa é transferida da listra de membros para a lista de prospectos para ser buscada para Cristo. Não deve ser concedido um sepultamento cristão a qualquer pessoa que venha a falecer neste estado de impenitência.
      A pessoa que se afasta da congregação antes que a excomunhão aconteça, obviamente não pode ser excomungada. Porém, de modo algum, isto exime a congregação da responsabilidade de admoestar a pessoa com relação à impenitência persistente ou ressaltar-lhe as conseqüências eternas disto.
Pelo fato de uma congregação cristã excomungar em nome da igreja cristã inteira, idealmente a ação deveria ser confirmada por toda a igreja cristã na terra, independente da afiliação congregacional (Isto mostra o quanto é importante que e excomunhão venha a ocorrer por uma razão válida).

Separação X Excomunhão

      Às vezes, a separação da congregação, ao invés da excomunhão, é mais viável. Por exemplo, diferenças sobre uma doutrina não fundamental (i.e., uma doutrina que não seja essencial à fé salvadora) pode romper a harmonia confessional que une os membros da congregação. Caso a instrução continuada sobre a doutrina verdadeira não prove convincentemente, a pessoa dissidente deveria ser incentivada a tornar-se membro de uma tradição que esteja em maior harmonia com sua postura confessional.

A Responsabilidade Pastoral com Relação à Excomunhão

      O pastor não deveria aceitar o papel de policial, de oficial de justiça, de perseguidor, de juiz e nem de jurado. O veredicto de excomunhão deve ser promulgado pela congregação. Não parece que uma votação unânime seja uma exigência bíblica, embora isto possa frear uma acusação impetuosa (5). E, caso nenhuma pessoa possa confirmar uma acusação levantada, a pessoa que a fez pode estar precisando ser aconselhada no entendimento bíblico.
      Quando o processo de excomunhão alcança seus estágios finais, a responsabilidade do pastor envolve três procedimentos:

  1. O pastor deve certificar-se de que tudo foi feito de acordo com as Escrituras.
  2. O pastor deveria fazer tudo o que ele pode para trazer a pessoa ao arrependimento e para evitar a excomunhão.
  3. Em nome da congregação, o pastor anuncia a excomunhão e, quando a pessoa arrepender-se e for novamente recebida na comunhão da congregação, o pastor anuncia a reintegração.

      C. F. W. Walther, em sua tese acerca do ministério “The Voice of Our Church on the Question Concerning the Church and the Ministry” (A Voz de Nossa Igreja sobre a Questão Concernente à Igreja e ao Ministério), diz:
É certo que o ofício das chaves num sentido mais restrito, a saber, o poder para desligar e ligar publicamente, também está confiado aos que estão incumbidos do ministério da Palavra... Aqui, ele [o pastor] não lida meramente com uma doutrina clara da Palavra divina, mas com o julgamento da condição espiritual de uma pessoa (Seelenzustand). E este julgamento é de tal natureza que o mesmo fecha o céu à pessoa em questão e lhe proíbe a comunhão fraternal com os cristãos, e vice-versa. Portanto, embora a execução pública da excomunhão pertença aos que estejam incumbidos do ministério da Palavra e deva permanecer com eles, de acordo com o mandamento do Senhor e com a instituição sagrada, todavia, deve ser exercida de acordo com o mandamento e a ordem expressa do Senhor apenas depois que a congregação como um todo(isto é, o ministro e os ouvintes) tiverem ponderado e tomado a decisão judicial final sobre o assunto... Por esta razão, até mesmo Paulo não desejou excomungar a pessoa incestuosa que estava em Corinto sem a congregação, mas ele lhes escreveu que, ainda que ele mesmo considerasse que o pecador merecesse a excomunhão, a própria congregação (“vocês se reunirem”) deveria excluir de seu meio aquela pessoa ímpia (1Co 5.4,13). (6)

Conclusão

      A prática da admoestação cristã e da disciplina eclesiástica é uma responsabilidade difícil e sensível; ela também mede o quanto os cristãos tomam a sério o interesse pleno de uns pelos outros. A disciplina cristã será largamente não praticada, mal usada ou ignorada quando uma congregação cristã (e/ou o pastor como líder no exercício do Ofício das Chaves, Jo 20) falhar em tomar a sério as tentativas de desenvolver uma comunidade genuinamente cristã e vigilante. Quando os membros assumirem a responsabilidade pelo bem-estar espiritual mútuo, Mateus 18 irá auxiliá-los a demonstrar tal interesse.

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Notas

  1. Por exemplo, em Mt 19.16-24, Jesus aplica a Lei. Em At 16.25-34, Paulo aplica o Evangelho. Pastores (e os líderes da congregação) deveriam sempre de novo estudar a obra The Proper Distinction Betwenn Law and Gospel, de C. F. W. Walther (St. Louis: Concordia, 14th printing, 1986, © 1929,1986. Deveria ser feito, como leitura adicional, o estudo da obra Church Discipline in the Christian Congregation (November, 1985). The Commission on Theology and Church Relations (The Lutheran Church — Missour Synod).
  2. Tanto John H. C. Fritz (Pastoral Theology [St. Louis: Concordia, 1932, 1945, Heritage Edition, 1977], p. 232-256), quanto George H. Gerberding (The Lutheran Pastor [Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1902], p. 260-270) sugerem excelentes procedimentos para o exercício de Mateus 18.
  3. O pastor necessita estar bem versado naquilo que é ensinado em Rm 7.7-8.17 a respeito de como proceder com o processo de reconciliação.
  4. Church Discipline in the Cristian Congregation. p. 21.
  5. Não parece que a unanimidade seja uma exigência bíblica. Quando a evidência do pecado e da impenitência são indiscutíveis, a congregação não está obrigada à rubrica tradicional. Idem, ibidem. p. 22.
  6. C. F. W. Walter, “The Voice of Our Church on the Question of Church and Ministry”, Walther and the Church, William Dallmann. W. H. T. Dau, e Theodore Engelder, ed. (St. Louis: Concórdia, 1938), p. 83.

Aqui um documento maior, citado acima, da LCMS

Este documento é uma tradução que fiz a quase 20 anos, de material de nossa igreja irmão nos Estados Unidos, a LC-MS, mas não anotei, à época a referência, então não consigo citar a fonte original, vou continuar procurando.

Tradução: Jarbas Hoffimann

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