domingo, 10 de fevereiro de 2019

O Culto Luterano - manual litúrgico 10

Este manual encontra-se completo aquiMas está disponibilizado também nas postagens, com o marcador "manual da comissão de culto". Há outras duas publicações no blog (mais antigas) devem aparecer na busca também, mas estas aqui estão atualizadas.



ESTUDO 5 - A MÚSICA NO CULTO

I- IMPORTÂNCIA:


A música, sem dúvida, é a mais internacional das artes e elemento que identifica os povos e comunica sua cultura. Segundo os gregos, ela é a arte dos deuses e é um mistério divino. Os chineses acreditavam que a música exercia influência moral sobre os costumes e sobre a formação do cidadão. Confúcio dizia: "Quereis saber se um país é bem governado ou nele reinam bons costumes? Ouvi a sua música". Para muitos, a música é a arte que fala a linguagem do coração, a linguagem das emoções.
Quando pensamos na Música Sacra, podemos dizer que ela é a arte que brota da cruz e é levada até a cruz; arte que é dedicada ao serviço de Deus e à edificação da igreja. Ela não é um fim em si mesma, não é uma arte livre ( arte pela arte ), mas está a serviço do reino de Deus, e mais, deixa de ter maior importância, à medida que deixa de cumprir a sua função de meio (de proclamação do evangelho).

I.1- Informações Históricas

Para os povos primitivos, viver era ser artístico. A arte era, até mesmo, uma forma de dar identidade à tribo ou clã, de acrescentar intensidade à vida diária e à sua labuta, à caça, à religião, família ou festividades tribais. Música e Religião tinham tudo em comum, pois as primeiras manifestações musicais estavam intimamente ligadas à religião, ao divino, ao sobrenatural. Os primeiros sons musicais podiam ser tanto uma forma de louvor como um elemento para aplacar a ira dos deuses. Nas religiões pagãs, a superstição, o medo, o culto à natureza estavam presentes. As forças da natureza influenciavam muito na composição musical. A música também era um elemento de alegria, de comunicação, de celebrações e até lamentações. Mesmo que todos os membros da tribo compartilhassem da arte na vida diária, havia especialistas que a compunham e executavam.


I.1.1- Antigo Testamento

Na Escritura ( Gn 4.20-21 ) é mencionado o nome de Jubal, "pai de todos os que tocam harpa e flauta". Muito cedo a Escritura faz referência a esta arte, a qual acompanha toda a vida do povo de Deus. A primeira referência bíblica quanto à experiência musical é um relato de um momento de louvor e ação de graças, dirigido por Moisés e Miriã, quando da libertação do povo de Israel do Egito: " Então entoou Moisés, e os filhos de Israel, este cântico ao Senhor,... A profetisa Miriã, irmã de Arão, tomou um tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças..."(Ex 15.1 e 20 ). Esta apresentação foi tanto instrumental quanto vocal, envolvendo tanto homens como mulheres e foi acompanhada por movimentos expressivos. Momentos como este se encontram por todo o Antigo Testamento, especialmente nos Salmos.
A Segunda tradição musical do Antigo Testamento, a música para o templo, era formal e profissional e foi iniciada por Davi, que era pessoalmente musicista e compositor de hinos: "Disse Davi aos chefes dos levitas que constituíssem a seus irmãos, cantores, para que, com instrumentos musicais, com alaúdes, harpas e címbalos se fizessem ouvir, e levantassem a voz com alegria."(! Cr 15.16)
No tempo em que Israel edificou o templo, para adoração ao Deus Eterno, a organização de um grupo de musicistas já estava bem avançada. Em 1 Cr 15.22, é mencionado o nome de "Quenanias, chefe dos levitas músicos, ( o qual ) tinha o cargo de dirigir o canto porque era entendido nisso". Em 1 Cr 25 são descritas as diversas funções dos músicos do templo. Estes "deviam anunciar as mensagens de Deus, acompanhados por música de harpas, liras e pratos" ( I Cr 25.1 : BLH ). É impressionante o zelo com que executavam as suas funções litúrgicas e também o número de integrantes deste "departamento de música", ou seja, "os músicos treinados para tocar instrumentos e cantar louvores ao Deus Eterno eram duzentos e oitenta e oito ao todo"( 1 Cr 25.7 : BLH ). Estes, por sua vez, foram organizados em grupos, para que todos os atos de culto fossem contemplados por momentos de louvor e adoração através do canto. Como sacerdotes-músicos, esses artistas dedicavam tempo integral ao seu serviço musical, escolhidos pelo seu talento ( 1 Cr 15.22 ) e eram bem treinados durante os cinco anos de aprendizado musical, antes de serem admitidos no coro regular.
Os cânticos e salmos do povo de Israel eram acompanhados por diversos instrumentos musicais, tais como a lira, flauta, harpa, trombetas e címbalos, sendo também associados com danças ( Sl 154.4). Há uma tradição de que na antiga adoração hebraica, as palavras da Escritura nunca eram faladas sem melodia; elas eram cantadas em uma sonora cantilena e acompanhadas por instrumentos. Os judeus tinham muita variedade de instrumentos musicais, divididos em três tipos básicos (e suas variações): 1- cordas (kinnor); 2-sopros (shophar) e 3- percussão (toph ). Eram cuidadosos em não incluir certos instrumentos nos cultos divinos realizados no Templo, devido ao fato de não serem apropriados ou não induzirem à adoração. Estes eram usados em ocasiões festivas ou seculares. De qualquer forma, a ênfase está no fato de insistirem na variedade de instrumentos, possibilitando, assim, a que um grande número de pessoas compartilhasse da parte musical do culto.
Sem dúvida, seus programas instrumentais eram tão bem organizados quanto os programas vocais. Incluíam líderes, professores e virtuosos. Aqueles que tocavam instrumentos eram considerados como inteiramente consagrados e dedicados, assim como o eram os que cantavam ou serviam ao altar. Nada foi poupado para tornar os cultos do Templo belos e significativos.
Cremos que na adoração vetero-testamentária possivelmente a norma era o cântico antifonal, como nos exemplos: S. Seja Deus gracioso para conosco e nos abençoe/ C. E faça resplandecer sobre nós o seu rosto ( Sl 67.1); S. Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom./ C. Porque a sua misericórdia dura para sempre.
Pergunta-se, por vezes, como deveria soar a música dos Salmos e cânticos de Israel. Erik Werner, em seu livro "Jewish Music" aponta para uma possibilidade:

O arquétipo do cantochão era semelhante às melodias gregorianas antigas, o que significa que eles se baseavam em pequenos padrões melódicos de amplitude bastante limitada, não excedendo geralmente uma quarta ou uma quinta. [1]

O livro dos Salmos é considerado como o "hinário do povo de Israel", os quais eram cantados em seqüências regulares, seguindo os sacrifícios matutinos e vespertinos, em dias de semana para tal especificados, e eram acompanhados por instrumentos que ocasionalmente tocavam um interlúdio indicado pela palavra "Selá". Os Salmos apresentam três tipos de expressão de adoração: Louvor ( Louvai ao Senhor ...);
Petição ( Dá ouvidos, ó Pastor de Israel...) e Ação de Graças ( Amo o Senhor, por que ele ouve a minha voz e as minhas súplicas ). Havia também salmos especiais que se associavam a ocasiões festivas: salmos reais para honrar o rei (21, 45, 101), salmos processionais ( 24, 95, 100 ) e salmos penitenciais para períodos de arrependimento nacional ( 130 ). Os Salmos do "Hallel Egípcio" ( 113-118) eram usados na comemoração da Páscoa e outros períodos de penitência. Os salmos messiânicos também tinham grande importância ( 22 ).
Quanto à sua forma de apresentação, podemos identificar quatro tipos: 1- Salmo simples ( 46.1), cantado por uma pessoa sozinha; 2- Salmo responsivo ( 67.1,2 ), em que um coro responde ao solo; 3- Salmo antifônico, com várias linhas começando ou terminando com a mesma frase (103.1,2,20-22), cantado por dois coros alternadamente; 4- Litania ( 80.2,3,6,7,18,19 ), que incluía um refrão repetido.
Além dos Salmos, vários cânticos do Antigo Testamento eram usados regularmente na adoração dos hebreus e, com certeza, também foram usados na adoração do Novo Testamento. Eis alguns: 1- Cântico de vitória sobre Faraó, de Moisés (e Miriã), cf. Êx 15; 2- Oração de Moisés antes da sua morte, cf. Dt 32; 3- Cântico de Ana, cf. 1 Sm 2; 4- Cântico de Habacuque, cf. Hb 2; 5- Cântico dos Anjos em Is 6; 6- Cântico de Isaías (Is 26); Oração de Jonas no ventre do grande peixe ( Jn 2 ) etc.
Temos assim a descrição resumida de como o Povo de Deus valorizava o canto e a música instrumental e o quanto investiam para que esta parte da adoração fosse o mais perfeita possível.


I.1.2- Novo Testamento

O Novo Testamento não nos oferece uma forma detalhada de adoração e uso da música no culto. O que se supõe é que os mesmos costumes do Antigo Testamento continuavam sendo usados pelos judeus. Contudo, mesmo não havendo maiores detalhes quanto à adoração e à música, há algumas referências sobre cânticos, salmos, hinos e pessoas que fizeram uso dos mesmos.
Não é mera coincidência que o nascimento de Jesus tenha sido anunciado por uma explosão de júbilo com o cântico dos anjos. Dessa época em diante a fé cristã tem sido anunciada com música alegre sem correspondente em qualquer outra religião ou época. Os quatro cânticos registrados por Lucas têm o estilo dos Salmos e são conhecidos tradicionalmente por suas iniciais em latim: Magnificat, ou o Cântico de Maria (Lc 1.46-55), Benedictus, ou o Cântico de Zacarias ( Lc 1.67-79), Gloria in Excelsis Deo, o Cântico dos anjos por ocasião do nascimento de Jesus (Lc 2.13 e 14), Nunc Dimitis, ou Cântico de Simeão (Lc 2.28-32). O Cântico de Maria, o de Zacarias, o Cântico dos Anjos e o Cântico de Simeão têm sido usados mais na adoração cristã histórica do que quaisquer outras passagens bíblicas, sem contar os salmos. Em Mc 14.26 menciona-se o fato de que o próprio Cristo tenha cantado com os seus discípulos na Quinta-feira de endoenças: "Tendo cantado um hino, saíram para o Monte das Oliveiras". Sem dúvida o que eles cantavam era um Salmo do Hallel Egípcio (113-118).
O apóstolo Paulo menciona em Cl 3.16, "...louvando a Deus, com salmos, hinos e cânticos espirituais, com gratidão em vossos corações", isto é, três gêneros diferentes de música para a adoração, mencionando-os em duas diferentes cartas àquelas novas igrejas (Ef 5.19). Havia nestes gêneros de música, possivelmente, contrastes quanto à origem, assunto e forma de execução. Egon Wellesz, grande estudioso da adoração bíblica, assim se pronuncia:

São Paulo certamente estava se referindo a um costume bem familiar ao povo para quem escreveu. Portanto, podemos presumir que, de fato, três tipos diferentes de cantochão eram usados entre eles, e podemos formar uma idéia a respeito das suas características, a partir das evidências oferecidas pela música judaica, e, mais tarde, pelo tipo de cantochão cristão: 1- Salmos: o cântico dos salmos judaicos e dos cantos e doxologias modelados segundo aqueles. 2- Hinos: cânticos de louvor do tipo silábico, isto é, cada sílaba é cantada com uma ou duas notas da melodia. 3- Cânticos espirituais: Aleluias e outros cânticos de caráter jubiloso ou de êxtase, ricamente ornamentados. [2]

Salmos, sem dúvida, eram todos os salmos e cânticos comuns na adoração judaica, no Tabernáculo, no templo e na sinagoga. Hinos poderiam ser expressões novas em cântico, especialmente com ênfase cristológica. Eis alguns exemplos, citados no Novo Testamento: 1 Tm 3.16 poderia ser um destes hinos:

"Aquele que foi manifestado na carne,
Foi justificado em espírito,
Contemplado por anjos,
Pregado entre os gentios,
Crido no mundo,
Recebido na glória". [3]

Outros hinos do Novo Testamento poderiam estar registrados em Fp 2.6-11, Cl 1.15-20 e Hb 1.3. [4]
Pode não haver uma fórmula de adoração específica no Novo Testamento, mas há grande incentivo e exemplos de que a adoração acontecia e que faziam uso constante da música para expressar a sua fé e sua gratidão.


I.1.3- Igreja Primitiva

Também da Igreja Primitiva não temos muitos registros das formas detalhadas de adoração. O que temos são algumas referências de cartas ou relatos de historiadores. Em uma carta à Igreja de Corinto (96 A.D.), Clemente de Roma incluiu uma oração longa e solene, que se relaciona intimamente com as orações eucarísticas dos séculos posteriores; faz também referência ao Sanctus ( Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos), que era característica comum da adoração judaica. Mais ou menos ao mesmo tempo, o historiador pagão Plínio (governador da Bitínia em 111-113), em uma carta a Trajano, imperador de Roma, fazendo referência aos cristãos disse que "eles se reúnem em um dia fixo, antes do romper do dia, e recitam responsivamente um hino a Cristo como Deus..." [5]
No Segundo Século há uma ordem definida de adoração citada na Apologia de Justino Mártir, destinada ao Imperador Antonimus ( aprox. 150 A.D.) em que ele descreve um culto de adoração, o qual compunha-se de Culto da Palavra ( Leituras dos Profetas, e memórias dos apóstolo - Epístolas e Evangelhos, um sermão - instrução e admoestação, orações comuns) e Culto da Ceia do Senhor ( ósculo da paz, ofertório, oração de ação de graças seguida de um amém, e Comunhão ).[6] A música não é mencionada, mas não há razões para se crer que o culto da época fosse desprovido do canto e da música, tanto salmos, como hinos e cânticos espirituais.
Do Terceiro Século temos um relatório de Hipólito de Roma ( + 236 A.D.), em um documento chamado de Tradição Apostólica, onde ele descreve uma ordem de culto, na qual, além dos ítens relacionados no Século II, ele menciona o uso do Sursum Corda ( Elevai os Corações ) e da Oração Eucarística já bem desenvolvida. É possível que, após o Sursum Corda fosse cantado o Sanctus.
No Quarto Século já é descrito algo bem familiar em termos de liturgia e adoração: Leituras Bíblicas, Salmos, Sermão ( Culto da Palavra ), e Orações dos fiéis, saudação e responso, ósculo da paz, ofertório, oração eucarística, a qual compunha-se do Sursum Corda, Sanctus, Palavras da Instituição ( Anamnésis), Epíclesis ( Fazei em memória...) Oração Dominical, Doxologia e amém do Povo, Conclamação à Comunhão, Gloria in Excelsis, Hosana e Benedictus, Comunhão ( com o Salmo 34 ), ação de graças, Bênção e despedida. A Adoração Cristã a partir de então podia ser mais desenvolvida, pois o cristianismo já não era mais religião proibida pelo império, e estava livre para praticar abertamente os seus atos de adoração.
Logo depois do reconhecimento do cristianismo, nos primeiros anos, cada local desenvolveu a sua própria liturgia e seus costumes dentro da esfera da sua influência cultural. Cada liturgia era cantada com as suas próprias tradições e melodias, de forma
que temos registros históricos do desenvolvimento de cantochão antioquiano, cóptico, mozarábico, ambrosiano ( Milão), etc. Todas as igrejas primitivas usavam a língua grega na adoração, até mesmo a igreja de Roma. O Latim começou a ser usado no século IV, e mais tarde desbancou o grego das igrejas ocidentais.
Depois de 400 A.D., o Império Romano foi dividido em impérios oriental e ocidental. No oriente, Bizâncio exerceu liderança em questões doutrinárias e litúrgicas. No ocidente, Roma exerceu a liderança eclesiástica, e o rito Romano - Gregoriano - tornou-se posteriormente a liturgia universal.
O Papa Gelasius I ( 492-496) e o Papa Gregório, o Grande (590-604), fizeram importantes revisões na liturgia. Gregório também fundou a Schola Cantorum, que padronizou o cantochão ocidental. Também fizeram modificações o Imperador Carlos Magno ( 742-814) e seu associado Alcuíno (735-804). Mesmo assim, havia diferenças nos costumes de lugar para lugar durante toda a Idade Média, até que o Concílio de Trento (1562) estabeleceu a uniformidade litúrgica com o Missale Romanum (1570).
Até por volta de 1500, as seguintes partes da liturgia eram cantadas ( pelo coro ): Na Liturgia da Palavra, cantava-se o Intróito, Kyrie Eleison (nove vezes), Gloria in Excelsis, Gradual (salmodiar), Espaço ou Seqüência ( durante o qual são feitas orações, preparação para a Saudação do Evangelho...) e o Credo (de Nicéia ); na Liturgia do Cenáculo cantava-se o Ofertório, o Sanctus, o Benedictus, o Agnus Dei e o Hino de Comunhão ( que normalmente era um Salmo ). [7]
Durante a Idade Média a maior parte da arte era dirigida a Deus e planejada para beneficiar a todas as pessoas, quer fossem jovens ou velhos, servos ou nobres. Há evidências, durante este longo período da história ocidental, de que a expressão artística existiu em dois níveis: profissional e amador. No fim da Idade Média, canções folclóricas, hinos macarrônicos (que combinam a língua vernácula e o latim) e hinos falsificados ( paródias de formas seculares ) eram comuns no ambiente religioso; cantos corais germânicos e salmos métricos franceses baseavam-se freqüentemente em poesia secular e melodias folclóricas. Com o início da Renascença, o surgimento do humanismo voltou a atenção do artista para o povo comum.


I.1.4- A Missa Romana

Com a padronização da liturgia estabelecida por Gregório, o Grande, muitos costumes regionais tiveram que ser desconsiderados. Se por um lado houve um enriquecimento nos padrões litúrgicos, por outro houve um empobrecimento, pois o aspecto cultural foi completamente desconsiderado. Perdeu-se quase que completamente a participação efetiva da congregação, pois tornaram-se meros espectadores de uma língua da qual muito pouco entendiam. Depois do Século IV, com o crescimento rápido do cristianismo, a adoração tornou-se quase exclusivamente sacerdotal, os cânticos foram confiados a um coro de sacerdotes, e a voz da congregação foi silenciada quase por mil anos.
Durante o período da Idade Média, além de excluir a congregação das melhores partes da adoração, muitos problemas doutrinários começaram a surgir, especialmente porque a Liturgia da Palavra tinha pouco significado, as leituras da Escritura eram muitas vezes omitidas, sendo substituídas por leituras da história da vida dos santos. A Ceia do Senhor deixou de ser um ato jubiloso, sendo usada como meio de amedrontar os fiéis, o que limitava a sua participação em uma ou duas vezes ao ano. A Ceia passou a ser administrada sob Una Specie, o reconhecimento da Ceia como sacramento foi esquecida, dando lugar à idéia de sacrifício, e a idéia de "transubstanciação" substituiu a doutrina da "consubstanciação". Toda a ênfase da Missa estava sobre a morte de Cristo, esquecendo-se da sua ressurreição.


I.1.5- A Reforma Luterana

Martinho Lutero, ao afixar as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, marcou oficialmente a Reforma. Além da sua luta contra os abusos das indulgências e contra os graves problemas doutrinários de sua igreja, Lutero preocupou-se em devolver a Bíblia ao povo, e mais, na sua própria língua. Este período foi marcado por grandes transformações, não quanto à estrutura da liturgia, pois esta em grande parte foi mantida, mas na essência, no conteúdo da mesma. As leituras bíblicas ( na língua vernácula ) e o sermão voltaram a ter o seu destaque. Erros doutrinários foram "varridos" para fora das orações, o sacramento voltou a ser administrado sob as duas espécies... Mudança radical aconteceu na participação da congregação, pois Lutero e seus colaboradores preocuparam-se desde cedo a traduzir, adaptar e compor hinos para o culto, para que a congregação efetivamente participasse da adoração.

Os cantos luteranos contribuíram em muito para a difusão da Reforma, pois com eles o povo participava com entusiasmo do "novo culto" e em público anunciava a mensagem da Reforma. A grande reverberação do canto da Reforma pode ser avaliada no desabafo de um dos adversários da Reforma: "Os hinos de Lutero", assim constatava, "levaram à perdição mais almas do que todos os seus livros e sermões". [8]

Em 1523, na Ordem do Culto Divino na Congregação, enfatizou que todo o culto deveria incluir leitura e proclamação da Palavra e oração. Em 1524 começou compor hinos para o culto. Era necessário adequá-los à notação musical e acentuação da língua alemã. Em 1524 e 1525, a fim de produzir uma ordem litúrgica totalmente em alemão, Lutero recebeu a ajuda de dois compositores da época, Johann Walter e Konrad Rupff, e, no Natal do mesmo ano era oficialmente implantada. Cabe destacar que a epístola e o evangelho também foram providos de uma notação musical. A Deutsche Messe foi muito bem recebida pelo povo alemão, pois todos agora podiam participar efetivamente da adoração.
Lutero preocupou-se em trazer a ordem do culto para a língua vernácula, para que as pessoas mais simples pudessem entender e participar. Nas universidades, porém, continuou insistindo que o Latim não deveria ser abandonado. A Formula Missae tornou-se norma para catedrais e igrejas universitárias, e a Deutsche Messe para as igrejas das pequenas cidades e áreas rurais. Na Formula Missae, o coro cantava os tradicionais salmos, cânticos e orações em latim, no cantochão gregoriano ou em acompanhamentos musicais polifônicos.
Na Missa Alemã houve maiores modificações, pois muitos dos cânticos históricos em latim foram substituídos por versões desses hinos em alemão, usando inclusive melodias folclóricas alemãs. O seguinte esquema resume o que era feito na Deutsche Messe: Hino ou Salmo em Alemão (Intróito), Kyrie (em grego, cantado com a melodia de um salmo), Coleta (curta oração introdutória), Epístola (cantada), Hino Alemão (hino alemão "Ao Santo Espírito com fervor", substituindo o gradual, aleluia), Evangelho (cantado), O Credo (no hino alemão "Nós cremos todos num só Deus), Sermão , Oração Dominical (uma paráfrase do Pai Nosso), Exortação aos participantes da Ceia do Senhor, Consagração dos Elementos( Palavras da Instituição), Celebração (durante a qual podiam ser cantados as formas alemãs do Sanctus e o Agnus Dei, e/ou outros hinos em alemão), Coleta (ação de graças) e a Bênção Aarônica.
Com algumas alterações, a Missa de Lutero continua em uso na igreja luterana até hoje.


II- HINÁRIO:

 O hinário do povo de Israel era o livro dos Salmos e uma seleção de cânticos. Grandes hinos registrados na Escritura formaram a liturgia do culto. Lutero, a partir de 1523, começou a compor, traduzir ou adaptar hinos para o povo de Deus. Uma coisa fundamental, à qual Lutero muito bem observou, foi a de produzir material acessível ao povo e que fizesse parte de seu contexto cultural.
 A Igreja Luterana, desde que se estabeleceu no Brasil, tem seguido uma cultura musical importada, a qual , na maior parte dos casos, já ultrapassa alguns séculos. Não queremos, de forma alguma, dizer que tais hinos devessem ser abolidos do uso congregacional, pois assim estaríamos jogando fora uma riqueza teológica e poética. O que queremos enfatizar é que mais hinos em estilo e ritmo brasileiro sejam usados em nossos cultos de adoração, buscando assim uma maior identificação com a cultura brasileira.
Grandes passos nesse sentido já foram dados. São muitos os talentos musicais espalhados por este Brasil. Muita beleza musical tem aparecido, especialmente entre os jovens. Cabe aos pastores, aos teólogos da Igreja, estar ao lado destes talentos, para que, além da riqueza artística, seja preservada a pureza e riqueza doutrinária. Também nós podemos ter à nossa disposição salmos, hinos e cânticos espirituais, incentivar mais o uso do hinário e cancioneiro em nossos cultos, reuniões, estudos e, especialmente, na vida devocional doméstica.

III- CORAL:

Desde os tempos do Antigo Testamento, o coral tem exercido função indispensável no culto a Deus ( 1 Cr 6 ). Já mencionamos a seriedade com que este trabalho era desenvolvido e o tempo dispensado para o mesmo. O nascimento de Cristo foi aclamado com um belíssimo coro de anjos; a própria descrição do céu também não esquece do coro ( Ap 5 12 ).
É verdade que houve períodos na história em que o coral ocupou o lugar que cabia à congregação ( corais de monges ). Mas, apesar destes desvios de suas funções, não há dúvidas de que o mesmo deve ocupar o seu espaço no contexto litúrgico.


III.1- Unidade

A unidade do culto é salutar para um melhor aproveitamento e retenção da mensagem por parte da congregação. Por isso o coral sempre deveria estar inserido dentro desta unidade, os textos de suas músicas deveriam estar relacionados com a mensagem central. Seria interessante para os corais providenciarem para o seu repertório material litúrgicos, os quais poderiam ser utilizados, eventualmente, em lugar de uma ou outra parte da liturgia. Por exemplo, existem variadas composições que usam o texto do Kyrie, outros trabalham o Gloria Patri, Pai Nosso, etc. Por que não aproveitar o momento e enriquecer o brilho da liturgia ?!


III.2- Funções:

A função principal do coral não é a de fazer apresentações ou shows, mas exerce importante papel na condução dos hinos cantados pela congregação, ter participações na liturgia, cantando partes da mesma com outros arranjos ou enfatizando o tema do dia. O coral pode muito bem ser aproveitado para o ensino de novos hinos à congregação. Heinz Werner Zimmermann comenta que "o coral é o suporte e enriquecimento do cantar dos hinos pela congregação e da sua liturgia.
Traz riqueza e variedade ao culto ao cantar partes da liturgia e ao cantar hinos apropriados para cada Domingo do ano eclesiástico."[9]
Oportunidades de participações em festivais de corais não devem ser desperdiçadas. O coral da congregação, mesmo participando de programações fora do âmbito da igreja, sempre terá uma mensagem a transmitir. Participar de festivais missionários, cantar em casamentos, funerais, hospitais (quando possível), são algumas das maneiras do coral ser útil para a congregação, cumprindo com o seu maior papel, o de proclamar o evangelho da salvação e embelezar os momentos de adoração.
James F. White, em seu livro "Introdução ao Culto Cristão", assim define as funções do coral:

Se a principal função do Coral é concebida como um compartilhar do ministério da Palavra - Canto para a congregação - isto pode requerer uma localização de frente para a congregação. Se um coral é considerado necessário para embelezar - cantar pela congregação - uma localização menos conspícua também serviria bem. Cada vez mais as pessoas se dão conta de que as principais funções do coral consiste em liderar o canto congregacional - canto com a congregação . De qualquer maneira, o coral deveria ficar tão próximo da congregação quanto possível, talvez até misturado com ela. [10]


 III.3- Responsabilidade com a Teologia Luterana

O coral de uma congregação luterana tem o compromisso de difundir a correta pregação da Palavra de Deus. Por isso, não basta o hino ser bonito e agradável ao ouvido para ser imediatamente colocado no repertório. O cuidado com a pureza doutrinária é fundamental, pois através do cantar o Evangelho deve ser anunciado. Cuidado com os famosos hinos de apelo à fé, ou que meramente descrevem experiências particulares, ou ainda, que confundem Lei e Evangelho. O regente, caso não seja o próprio pastor, sempre deveria buscar orientação de seu pastor em assuntos teológicos e também trabalhar dentro de um planejamento, baseado no ano eclesiástico.


III.4- Qualidade

O melhor que nós tivermos a oferecer, ainda é pouco. Para Deus queremos dedicar o máximo dos dons, as melhores vozes e um bom investimento também nesta área. Os corais poderiam optar por um repertório leve, vibrante e, sempre que possível, trabalhar material atual, dentro da nossa realidade brasileira.



IV- INSTRUMENTOS:

 Já mencionamos que na Escritura não aparece qualquer restrição ao uso de instrumentos variados para executar a música na igreja, antes pelo contrário, há somente incentivos e demonstração de que esta área era levada a sério. Todos as categorias de instrumentos musicais, percussão, cordas e sopros faziam parte da adoração.
A tradição luterana tem sido a de que o órgão é o instrumento ideal para a igreja. Outros instrumentos, por longos anos eram simplesmente considerados inapropriados para o uso na igreja. Onde está escrito isto ? É verdade que o órgão é um bom instrumento, mas, pergunta-se, em campos avançados de missão seria o órgão a melhor escolha ?
Quando pensamos na realidade brasileira, não queremos descartar o uso do órgão ou teclado, mas, num país onde o ritmo é uma das coisas mais marcantes, não seria interessante usar mais instrumentos de percussão, cordas ( violão, cavaquinho, bandolim ) e outros variados instrumentos ?
Desafiamos as congregações a pensarem na possibilidade de formar conjuntos instrumentais, pequenas orquestras para acompanhar a música na adoração.


V- MUTIRÃO DA MÚSICA NA IELB:

O "Mutirão pela Música na IELB" tem sido uma tentativa ( bem sucedida ) de sensibilizar as congregações para a música sacra. O objetivo é alcançar todas as congregações da IELB, para que todos possam desenvolver os seus cultos de maneira alegre e com uma beleza estética muito maior, pois queremos oferecer o melhor dos nossos dons e investimentos para o louvor e adoração a Deus. A idéia do Mutirão é regionalizar cursos intensivos de aprendizagem musical: órgão (teclado), violão, flauta, teoria musical, canto e noções de regência coral. O lamentável é que poucas congregações estão realmente investindo em seus talentos, pois ainda grande parte dos participantes dos cursos têm vindo com recursos próprios.
Não seria momento de desafiarmos as nossas congregações a "colocar a música logo abaixo da teologia", como Lutero enfatizou? Não deveríamos com maior ênfase adorar a Deus com tudo o que somos e temos? e este "temos" não deveria incluir o dom da Música, que sem dúvida está presente na congregação.
Quanto retorno para o reino de Deus não se poderia obter se maior investimento, tempo e recursos humanos fossem dependidos para a formação de um "departamento de música na igreja"! Sem dúvida, nossos cultos em grande parte seriam menos monótonos e muito mais atrativos, não somente para os que já pertencem à igreja, mas também aos que ainda não fazem parte dela. Sabemos que não podemos nem mesmo ajudar na obra do Espírito Santo, mas, se não dermos uma maior importância à forma exterior de nosso culto, poderemos estar atrapalhando a obra do Espírito Santo, por causa de nosso descaso, falta de criatividade e falta de investimento.
Fica o nosso incentivo às congregações a que descubram em seu meio jovens, adultos ou crianças que expressam vontade e inclinação à aprendizagem musical, que separem um pouco do seu orçamento para investir em um futuro musicista para a congregação, que se preocupe em ter alguém com dedicação de tempo parcial ( talvez sendo pago pelo seu serviço) ou, quando possível, ter alguém de tempo integral. Cabe lembrar que, se esperarmos sobrar verba, então este trabalho nunca será realizado.


VI- CONCLUSÃO:

Temos da parte da Escritura tanto a aprovação, como recomendação do uso variado de instrumentos e estilos musicais na adoração. Numerosas são as referências, tanto do Antigo Testamento, como do Novo testamento, revelam que o culto com muita música sempre foi do agrado de Deus. O Senhor Jesus, durante todo o seu ministério, jamais repudiou os cultos no Templo e sua bela música, antes adotou o hábito regular de freqüentar e participar de tais cultos.[11]
A eficiência do departamento de música de uma congregação sempre trará alegrias e, com o som dos instrumentos e a voz de canto, estará cumprindo com a missão de fazer discípulos, de pregar o evangelho, de anunciar as boas novas da salvação. Queira Deus abençoar toda a iniciativa das congregações, pastores ou cristãos individualmente, na busca de aperfeiçoamento nesta arte que é um Dom de Deus.


VII- BIBLIOGRAFIA


ALLMEN, J.J. Von. O Culto Cristão. São Paulo, ASTE, 1968.
CULLMANN, Oscar. Early Christian Worship. Chicago, Henry Regnery Company, 1953.
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GARRET, T.S. Christian Worship. London, Oxford U. Press, 1961.
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 Rev. Prof. Paulo Gerhard Pietzsch
São Leopoldo, RS




[1] WERNER, Eric. Jewish Music. p. 623.
[2] WELLESZ, Egon. Early Christian Music. p. 2.
[3] MARTIN, Ralph. p. 57
[4] Ibid. p. 58-59.
[5] GARRET, T.S. Christian Worship. p. 47.
[6] MAXWELL, William. p. 11.
[7] HUSTAD, Donald. p. 109.
[8] LUTERO, Martinho. p. 215.
[9] ZIMMERMANN. The Music of the Choir, p.5.
[10] WHITE, James F. p. 87.
[11] Dicionário de Instrumentos Musicais.

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