terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Culto Luterano - manual litúrgico 12

Este manual encontra-se completo aquiMas está disponibilizado também nas postagens, com o marcador "manual da comissão de culto". Há outras duas publicações no blog (mais antigas) devem aparecer na busca também, mas estas aqui estão atualizadas.


ESTUDO 7 - OS PARTICIPANTES DO CULTO

Introdução


            “O Culto é o lugar e o momento do encontro entre Deus e o seu povo” (Allmen). Sendo assim, os oficiantes do culto (os que celebram ou dirigem o culto) são Deus e os fiéis. Mas desse encontro participam ainda os anjos que se associam ao louvor e à glorificação do Senhor.
            Deus. “Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”(Mt 18.20), promete Jesus. Deus com sua presença impede que o culto seja uma simples ilusão; com seu amor impede que o culto de torne em simples gozo espiritual e com sua glória nos liberta da cegueira espiritual. “Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, é, por conseguinte, ao mesmo tempo o sujeito e o objeto do culto cristão, aquele que, no culto, serve e, por meio do mesmo culto é servido; o que ordena e recebe a celebração do culto; o que fala e escuta; aquele a quem imploramos e que concede o que pedimos” (Allmenn).
            Os fiéis. Os fiéis, que têm o direito e o dever de celebrarem o culto, são batizados. É claro que os não batizados podem e devem ouvir a palavra de Deus e justamente estes é que a necessitam de uma maneira particular. Mas, o direito a comungar no corpo e sangue de Cristo, está reservado estritamente aos batizados. Também o Novo Testamento nos mostra que, para fazer parte da igreja - e assim poder celebrar o culto - é necessário crer em Jesus Cristo e ter sido batizado em seu nome.
            Vale aqui mencionar a pessoa do pastor no ofício como representante e enviado do Senhor. O que ele faz, fá-lo em nome de seu mestre Jesus e com a autoridade que deste provém.
            Os anjos. No prefácio da Santa Ceia, o ministro entoa entre outras palavras: “Portanto com anjos e arcanjos e com toda companhia celeste louvamos e magnificamos o teu glorioso nome...” Temos diversas passagens na Bíblia, especialmente no Apocalipse, que falam que os anjos louvam e adoram a Deus. Não estamos sozinhos em nosso louvor a Deus. Também no céu existe louvor; e bem que almejamos apressar o dia em que nos pudermos juntar aos anjos no céu no imenso louvor ao Deus Todo-Poderoso. Os anjos são enviados ao mundo por Deus como mensageiros, a fim de vigiarem a igreja contra os ataques de Satanás. E neste sentido eles também estão conosco, sendo co-participantes em nosso culto cristão, nos vigiando e defendendo para desempenharmos com toda a intrepidez a tarefa de cristãos remidos e salvos. (Rev. Raul Blum - ML Janeiro de 1977).


Privilégios e responsabilidades do sacerdócio geral


            De acordo com o Novo Testamento (Ap 1.5,6; I Pe 1.18,19; 2.4,5,9) o sacerdócio não é prerrogativa de uma ordem particular de homens, mas pertence igualmente a todos os cristãos, desde o batismo, estando divinamente investidos de uma série de privilégios e responsabilidades corporativas.
            David Chytraeus (1531-1600), enumera seis atividades do sacerdócio cristão, esperadas de todos os cristãos, leigos ou não:
1)      oferecer sacrifícios a Deus (Rm 12.1; I Pe 2.5; Hb 13.15,16);
2)      orar e interceder por si e pelos outros (Ef 3.12; Lc 11.9,10,13; 1Tm 2.1,1; Hb 4.16);
3)      pregar e propagar o evangelho (Cl 3.16; I Pe 2.9; I Co 11.26);
4)      examinar todas as doutrinas e provar os espíritos, aprovar doutrina correta, reconhecer e rejeitar falsos dogmas e seus propagadores (1Jo 4.1; 1Ts 5.20,21);
5)      reter e perdoar pecados (Ofício das Chaves, cf. Mt 18.15-18);
6)      o privilégio de receber e administrar os sacramentos do Batismo e da Santa Ceia. Esse privilégio, se aplica a todos os membros da igreja, e não apenas a sacerdotes que foram ungidos e receberam a tonsura.
            “... em casos de necessidade, até mesmo mulheres podem batizar, administrar a vivificadora palavra de Deus, pela qual o homem é regenerado e libertado do pecado, da morte e poder do diabo. E, quanto à Santa Ceia, Cristo diz a todos os cristãos: “Fazei isto em memória de mim” (CHYTRAEUS, D., On sacrifice: A Reformator Treatise in Biblical Theology, CPH, St. Louis, 1962, p.97, citado por V. Scholz, in: Lar Cristão, 1989, pág. 39).
            Considerações: Será que com isso o ministério pastoral se torna supérfluo? - Será esse um temor que conduz a um clericalismo fechado no culto e demais áreas da vida congregacional?
            - Não será a passividade e inépcia de nossos congregados em exercerem seu sacerdócio proclamador no mundo, uma conseqüência da passividade deles no exercício do sacerdócio no culto congregacional?
            - E qual a causa dessa passividade? (Temor do pastor?, falta de confiança na capacidade dos congregados?, falta de oportunidade e treinamento dos congregados?).
            - Sendo o culto congregacional o grande agape com Cristo e os irmãos, que nos prepara, motiva e impulsiona ao culto diário no mundo, não seria sensato que já no culto, exercitássemos e desempenhássemos nossa ação sacerdotal?
            Afinal, de acordo com o prof. Dr. V. Scholz (in: Lar Cristão, 1989, pág. 40), é “... no culto, no batismo, (que) os sacerdotes são “ordenados”. O Culto é o local onde muitas das funções são desempenhadas: é quando se ora, se prega, são perdoados, os sacramentos são administrados...” “... o culto é algo participativo e não um “show” de um artista só... Seria escandaloso demais sugerir que de vez em quando um leigo disposto, apto e bem preparado pudesse fazer o sermão? (além de fazer leituras bíblicas, orar e distribuir os elementos da Santa Ceia?).


O ministério pastoral


            “O ministério da pregação não consiste num estado especial, mais santo, formando contraste com o cristianismo comum, como o sacerdócio levítico, mas num ofício de serviço”.
            “O ministério da pregação é o ofício supremo na igreja do qual decorrem todos os demais ofícios” (WALTER, CFW., Church and Ministry, CPH, St. Louis, 1987, Teses 4 e 8). - Junto com o ofício da palavra são conferidos o poder para batizar, abençoar, absolver ou reter pecados, ministrar a Ceia do Senhor, orar e julgar.
            O ministério pastoral foi instituído por Deus para prover que a palavra divina e os santos sacramentos sejam administrados publicamente, em nome e para a congregação cristã, com ordem e decência. Este ministério tem caráter funcional, foi instituído em função da congregação dos sacerdotes, com vistas ao preparo destes sacerdotes para o exercício de suas funções ( e não para tomar o lugar dos sacerdotes ou para eles se verem livres, dispensados de suas funções) (Ef 4.11,12).
            O ofício pastoral, portanto, foi instituído por Deus, a fim de equipar o batalhão de cristãos de tal maneira que estes possam cumprir suas funções sacerdotais no culto(para sua própria edificação)e no mundo.(Zimmer, R. Dr., in: Rv. Vox Concordiana, no.1, 1988, p.10).
            A igreja tem o poder e o direito de escolher um ou alguns dentre os sacerdotes para exercer o ministério, que nele devem servir e oferecer a Palavra, o Batismo, a Ceia do Senhor, o perdão. E só através do chamado da igreja (comunidade cristã) alguém pode ocupar esse cargo. E esta tem o direito de não admitir que no ministério da pregação se intrometa um estranho(alguém por ela não chamado), ou que um leigo, sem autorização, se atreva a pregar na sua comunidade.


Relação entre Sacerdócio Geral e Ministério


            (Cf. Lutero, apud. BOUMAN, HJA., A doutrina do Ministério segundo Lutero e as Confissões, p.12-14)
            Como sacerdote, cada cristão tem, certamente, a competência de fazer tudo o que se relaciona com a Palavra de Deus e, em caso de necessidade, tem também o direito de fazê-lo, mas no meio de uma congregação cristã, ele não possui, sem mais nem menos, a vocação para exercer o sacerdócio publicamente, até que para isso seja chamado para exercer o cargo em lugar de todos nós. ...
            “O ofício da Palavra de Deus pertence a todos os cristãos em comum... o ofício(de ministrar a Ceia do Senhor) é igualmente comum a todos os cristãos, assim como o sacerdócio.... nós todos, quantos formos cristãos possuímos o ofício das chaves em comum. Isso, porém, exige o direito da Comunidade que, um, ou quantos lhe aprouver, sejam eleitos e empossados para em lugar e nome de todos aqueles que têm o mesmo direito, exercerem publicamente esses cargos”.
            O ofício do santo ministério está em harmonia com o sacerdócio real dos crentes, pois, de um lado, os ministros da Palavra chamados, procedem do sacerdócio(1 Tm 3.27) e, de outro lado, administram publicamente, isto, em nome dos crentes que o chamaram, realizam as funções ministeriais de guiar, ensinar, alimentar e equipar, que lhes foram confiadas pelo corpo de sacerdotes, em nome de Cristo. Não se trata de transferir os direitos do sacerdócio real à pessoa do ministro da Palavra, como se a tarefa da pregação do Evangelho, dada por Deus à igreja, fosse repassada, por meio do chamado, à pessoa do pastor.



A Santa Ceia Administrada por Leigos


OS REFORMADORES declararam que a verdadeira natureza da Palavra de Deus(mensagem a ser proclamada), e os sacramentos(atos a serem efetuados), demandam pregadores, mestres, ministrantes devidamente chamados e ordenados.
            Isto, com respeito a Santa Ceia, significa que, na teoria um leigo poderia administrar o sacramento sem de modo algum diminuir sua validade ou eficácia. Na prática, porém, isto era excepcional. Por causa da boa ordem os leigos administravam apenas quando ministros formalmente ordenados não estavam disponíveis. Em tal situação de emergência, quem administrava a Santa Ceia, era “chamado a fazê-lo através do consentimento do povo que participava, e isso evidenciava a posição protestante de que o ministério é o exercício de uma função que pertence a igreja e não meramente a uma classe ou ordem especial de homens(TAPPERT, T.G., The Lord’s Supper, p.38).
            Mais recentemente, nossa igreja, nos EE.UU, na obra “The Pastor at Work”,(p173), considera que em situações extremas, em tempo de guerra, epidemias, perseguições, ou quando, por longo período de tempo não se pode ter pastor, então os cristãos presentes podem indicar um de seus pares para administrar o Sacramento.

Conclusão


            O culto cristão é o sacerdócio geral em ação. Não é assim que o pastor é o sujeito do culto e os leigos são o elemento passivo. É preciso que a congregação crie oportunidades para esta ação do sacerdócio e organize estes serviços em seu meio.
            Tendo a Congregação como objetivo primordial e último a divulgação ou proclamação pública de todos os desígnios de Deus, com o fim de edificar espiritualmente os santos para o serviço de Deus, e para reconduzir a Deus, em Cristo, os que vivem na incredulidade e perdição, e tendo ela autoridade e poder para eleger(chamar) ministros para dar cumprimento desta missão, achamos que é injustificável, perante o Senhor, que passe uma semana sem o culto público(com Palavra e Ceia do Senhor), por falta, ausência ou impossibilidade do pastor.
            E, considerando ainda que, o valor e eficácia da Santa Ceia não depende em si da formação teológica, ou sucessão apostólica, do ministrante, achamos que a congregação tem o direito e dever de eleger, providenciar instrução adequada, ordenar e instalar, ministros auxiliares, para realizar os cultos (com Palavra e Ceia do Senhor), regularmente quando da vacância de pastores, ou por ocasião de viagens prolongadas, férias, enfermidade, ou qualquer outro impedimento do pastor titular.
            Desta forma, podemos evitar os improvisados ministros, os improvisados “cultos de leitura”, e o sentimento de impotência e frustração dos sacerdotes reais que ficam sem ação e inúteis, quando poderiam estar dinamicamente oficiando o culto a seu Deus e Senhor”( Rev. João Carlos Tomm).

Pastor e Leigos Juntos no Ofício do Culto Público Corporativo

            Cada um dos cultos é um acontecimento da maior importância. Para alguns de seus participantes poderá ser o primeiro e único contato com a Igreja Luterana e seus tesouros; para outros, poderá ser o último contato, pois poderão morrer no intervalo de um ao outro culto.
            Por isso cada culto precisa ser o melhor possível quanto à preparação, envolvimento, conteúdo, beleza e dinamismo. Para tanto muitos dons são necessários. Fazer depender todo o culto dos poucos dons de um homem só (pastor) é empobrecê-lo.
            É perfeitamente viável pastor e leigos trabalharem lado a lado no ofício do culto, para seu enriquecimento e dinamismo, sem ferir a boa ordem e decência estabelecidas pela Escritura e Confissões, mediante a formação permanente de uma COMISSÃO DE CULTO, possibilitando a realização de cultos semanais(com Pregação da Palavra e Sacramentos) em todas as congregações com ou sem a presença de pastor.

Sugestão de Procedimentos para Formação de Comissão de Culto

I.                    Instrução da congregação com respeito ao Culto - sua necessidade, importância, centralidade da Santa Ceia, sacerdócio geral e ministerial, diversidade de dons.
II.                 Autorização da Assembléia Geral de Membros para a formação de Comissão de Culto, com o propósito de treinar leigos(homens e mulheres), sob a orientação, responsabilidade e supervisão do pastor, para servirem como oficiantes auxiliares e substitutos no ofício do culto(Palavra e Sacramentos).
III.              Escolha de candidatos - Testes vocacionais, voluntários ou convidados pelo pastor ou diretoria.
IV.              Qualificação mínima dos candidatos: 1. 1 Tm 3.8-13. 2. a)Freqüência assídua aos cultos; b) participação assídua na Santa Ceia; c) participação ativa nos estudos bíblicos; d) ofertante generoso e pontual; e. participação assídua nas Assembléias.
V.                 Aprovação dos candidatos pela Assembléia Geral de Membros da Congregação.
VI.              Período preparatório de estudo e treinamento: A. Estudo: Liturgias(Culto Principal I e II, Ordens(Matinas e Vésperas); Ano Eclesiástico; Doutrina(Sumário da Doutrina Cristã e Livro de Concórdia). B. Oficinas: 1. Aprender a escrever: Confissão de pecados, coletas, orações, alocuções(preparação para confissão de pecados e participação Santa Ceia) e mensagens. 2. Ensaiar o canto da liturgia, leituras, distribuição Ceia, processional de entrada e saída, gestos e posturas. 3. Programar cultos especiais(grupos menores) para treinamento.
VII.           Rito de instalação: Consentimento da Congregação para auxiliar e substituir pastor no ofício do culto.
VIII.         Adotar vestes litúrgicas: Estola (somente usada pelo pastor ordenado) diferencia pastor ordenado dos demais oficiantes auxiliares.
IX.              Escalas periódicas para determinar a tarefa de cada integrante no culto com antecedência (três meses) para possibilitar preparo adequado.
X.                 Revisão teológica: Pastor recebe por escrito, com antecedência(véspera), confissão de pecados, orações, alocuções e mensagens para eventuais correções.
XI.              São liberados da revisão aqueles que demonstrarem por determinado período capacidade e firmeza doutrinária.
XII.           Realizar sempre ensaios na véspera dos cultos com todos os oficiantes.
XIII.        Integrar, periodicamente, novos membros na Comissão.
XIV.         Avaliação periódica do desempenho de cada integrante pelo pastor e diretoria ou conselho eleito pela Assembléia.
XV.           Avaliação pela Assembléia de Membros da atuação da Comissão.

Testemunho:
            “Muitas vezes desejava participar mais diretamente do culto, como por exemplo dirigir a oração geral em nome de toda a congregação. A princípio imaginava que isto seria impossível. Mas, ao ser transferido para a Congregação Cristo de Santa Maria, RS, recebi diversas instruções ministradas pelo pastor e, depois, devidamente autorizado pela congregação em Assembléia Geral, foi-me concedida a oportunidade de fazer parte da Comissão de Culto. Na primeira oportunidade dediquei várias horas por dia, durante uma semana inteira, na elaboração da oração geral, refletindo sobre o tema do culto, agradecimentos e súplicas a fazer. Graças ao amor de Deus, às instruções do pastor, grandes bênçãos ocorreram”(Rubem Saul - militar - Mensageiro Luterano - Abril-93).

A PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS NO CULTO


            “Culto é o que cristãos fazem quando se reúnem ao redor da palavra e dos santos sacramentos... é um fazer da fé”.
            A igreja é o corpo de Cristo que inclui todos os batizados. A igreja local é a igreja de Cristo num lugar determinado onde cristãos se reúnem para evangelizar, educar e crescer. Na igreja local há cristãos grandes e pequenos, novos e velhos que se reúnem para se encorajarem, crescerem na comunhão e serem orientados e fortalecidos pela palavra de Cristo. Tudo o que a igreja faz reforça sua corporatividade (congregação - ela se reúne para agir).
            Crianças por virtude do batismo foram incorporadas nessa comunidade cristã. Elas pertencem ao grupo e, portanto, é seu direito e dever não só serem espectadoras mas, como PARTICIPANTES ATIVOS, que se sintam BEM-VINDOS. Culto é a primeira resposta da fé e quando crianças não participam dele a igreja se encontra fragmentada e fraturada! Por outro lado as tentativas até aqui, de envolver crianças - escola dominical durante o culto - têm sido:
            - sermões para crianças no culto
            - histórias com material concreto e visual
            - tirar as crianças antes do sermão
            - programar cultos especiais para crianças
            - fazer materiais de colorir para ocupá-las durante o culto
            - ensaiar cantos e jograis para crianças e jovens “entreterem” adultos...
            Ainda que visassem tornar o culto mais significativo, no processo podem ter ensinado às crianças que elas não tem verdadeiramente lugar no culto corporativo. Em algum lugar e de alguma forma isto apenas mostrou que tais coisas não são consistentes com a teologia e nem com a nossa prática em torno do batismo e o lugar da criança no culto público. Conseqüentemente, por causa da lição mais profunda que nossas crianças estão aprendendo disso, podemos afirmar que a nossa falta de criatividade no envolvimento da criança no culto trouxe prejuízos educacionais e formativos”(Mensageiro Luterano - Julho 84 - Rev. Oscar Lehenbauer).
            Será que só a nossa falta de criatividade no envolvimento da criança no culto trouxe prejuízos?
            Não deveríamos, a partir do momento em que a Santa Ceia foi recolocada no seu devido lugar (centro do culto), iniciar toda e qualquer discussão em torno da participação ou não das crianças na parte principal do culto?
            Como subsídio para o debate segue a conclusão da monografia do Rev. Gilberto Silva sob o título “A Prática de Participação na Santa Ceia antes do Rito de Confirmação”:
            “A partir da pesquisa feita, podemos concluir que (1) era prática generalizada na Igreja Primitiva a admissão de crianças à Eucaristia, em estreita ligação com o batismo, vistos os dois como necessários para as crianças. (2) A Igreja medieval manteve este costume, até um certo período, abandonando-o posteriormente por causa de sua teologia escolástica. A igreja oriental manteve a prática e a conserva até aos dias de hoje. (3) Os reformadores reinstalaram a distribuição completa do sacramento, sob as duas espécies, e incentivaram a instrução do povo sobre o mesmo, devido à ignorância que grassava na época com relação às doutrinas da igreja. Não se encontra, entretanto, em Lutero, qualquer condenação à prática da igreja primitiva de distribuir o sacramento também às crianças. Muito pelo contrário, ele cita o fato - especialmente a prática de Cipriano - para evocar a necessidade da distribuição correta do sacramento (sob as duas espécies).
            As teses de Lothar Hoch, apresentadas resumidamente, apesar de terem sido escritas no ambiente eclesial da IECLB, refletem também a realidade do Sacramento do Altar em nossa Igreja (IELB). Vemos uma extrema racionalização do sacramento, que perde o seu sentido primeiro de veículo da graça perdoadora e de Eucaristia (ação de graças e, portanto, celebração) para tornar-se muito mais uma espécie de prêmio para os bons cristãos. Quer dizer, somente podem participar aqueles que são fortes na fé. Sem dúvida, as duas colocações de peso são quanto (1) à incongruência em se batizar crianças e se lhes negar a participação na Ceia; (2) e quanto à prática distorcida que admite que a criança entenda o Evangelho à sua maneira (e aqui não podemos duvidar do Espírito Santo) mas não admite que a criança também possa entender o sacramento à sua maneira.
            De alegre festa de perdão, a Santa Ceia tem sido encarada como um momento fúnebre, onde se enfatiza o pecado pessoal e não a graça de Deus, que justamente perdoa este pecado. No fundo, ela está mais centrada no ser humano que em Deus. Esta é uma visão totalmente falsa do sacramento. Crianças também são pecadoras desde o seu nascimento - exatamente por isto são batizadas! Logo, nada mais justo do que lhes oferecer também o perdão por meio do Sacramento do Altar. Elas não participarão indignamente, pois, se crermos, diferentemente dos calvinistas, que o batismo não somente simboliza a entrada na comunhão dos santos, mas efetivamente cria a fé necessária para se participar desta comunhão; as crianças batizadas terão a única dignidade necessária para participar: A FÉ.
            Psicopedagogicamente comprova-se que a criança pode entender certos conceitos à sua maneira, especialmente se estes conceitos lhe forem transmitidos de maneira concreta. Piaget comprovou que a criança até mais ou menos os 12 anos de idade pensa somente de maneira concreta. Deste modo, valendo-se de uma didática adequada à idade, pode-se transmitir à criança as explicações necessárias a respeito do sacramento, de modo que ela possa: (1) perceber que o corpo E sangue do Senhor são recebidos na Ceia (discernir); (2) compreender que é pecadora diante de Deus e que precisa arrepender-se de seus pecados - a criança certamente não perceberá o conceito abstrato do pecado, mas as suas conseqüências concretas estão ao seu alcance; (3) desejar o perdão, revelado concretamente na Ceia e (4) dispor-se a melhorar a sua vida. Tudo isto precisa ser visto e encarado dentro do ponto de vista, da “Weltanschaung” da criança, e não a partir de nossas racionalizações e abstrações adultas.
            Se permitirmos que as crianças participem do sacramento do altar, estamos também permitindo que elas tomem parte nas bênçãos oferecidas pelo mesmo, a saber, todos os frutos produzidos pela obra de Jesus na cruz: a união mística com Cristo; a unidade da Igreja (verdadeira união, não somente de adultos); perdão dos pecados; vida eterna; fortalecimento da fé pessoal; crescimento no amor de Deus; crescimento no amor ao próximo e alegria. Já que é difícil atingir a criança por meio da palavra falada (pregação), temos mais um motivo para administrar-lhe a Ceia pois é mais um meio de proporcionar-lhe crescimento na fé e desfrute de todas as bênçãos.
            Entretanto, em vista de ser prática histórica na IELB a vinculação da primeira participação na Ceia ao rito confirmatório, é necessário que qualquer mudança seja amplamente debatida nas congregações, para que porventura ninguém se escandalize. Parece ser bastante equilibrada a posição adotada pelo Sínodo de Missouri: deixar a decisão por conta das congregações, dentro de sua liberdade cristã, apenas recomendando que se vise sempre a edificação e o crescimento na fé e vida cristãs”.
            Obs.: Na Congregação Cristo em Santa Maria as crianças, com o consentimento dos pais e/ou padrinhos, participam da Santa Ceia durante o ensino confirmatório. Pais também participam de aulas e palestras que tratam da Santa Ceia.

OS VISITANTES NO CULTO


            Resumo de carta de um visitante no culto remetida à Congregação Cristo de Santa Maria:
            “À IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL SANTA MARIA - RS
            EM TESTEMUNHO DA FÉ, e a constatação de um trabalho magnífico realizado pela IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL - CONGREGAÇÃO CRISTO em Santa Maria, neste Estado.
            O EFEITO TRANSFORMADOR de vosso trabalho, atingiu o coração de um ser humano frágil, de pouca crença na palavra de DEUS, e com todos os defeitos possíveis e imagináveis aos olhos do SALVADOR, porém, ao ser convidado a participar do ato religioso pela família H... naquele domingo maravilhoso....A LUZ PENETROU EM MINHA ALMA, e esta luminosidade teve um efeito fantástico em minha vida. Quero transmitir... que a partir do dia em que entrei em vosso templo sagrado, a minha vida modificou-se, jamais serei o mesmo, prometendo-lhes de coração que divulgarei pelo resto dos meus dias o trabalho que assisti naquele domingo. ... Quero transmitir um agradecimento especial ao vosso pastor e pessoas que participaram daquele ato. Agradecer ao R... por ter me convidado a participar de tão solene ato.... Todos estes fatos, e acontecimentos especiais, tem a luminosidade daquele CULTO. Jamais poderia dirigir-me assim a vocês... se não me fosse dada esta abertura fantástica para a VIDA. Ao pastor devo confessar, trazendo o meu testemunho pessoal, de que o seu trabalho materializou-se através da presença de DEUS em minha vida, parte de vossa missão cumpriu-se naquele instante e DEUS fez-se LUZ e esta luz está numa cidade distante que é Osório, e agora começa a outra parte da missão que vós recebeis, que é manter um canal aberto a todo aquele que queira adentrar em vosso templo, independentemente do CREDO ou RELIGIÃO. Agradeço pelo presente, o mais útil da minha vida, CASTELO FORTE ano de 1997 - pelo qual tenho orientado meus procedimentos diários e o lido com respeito e atenção e sempre que o leio, lembro-me do ato em que participamos em vossa casa. Ao R... devo dizer que o que vi, ouvi e assisti em Santa Maria, foram os atos e fatos mais próximos a Deus de toda a minha vida. A religiosidade, o respeito ao CULTO, a convicção de seus atos, a segurança...deram-me a certeza absoluta que precisamos urgentemente da RELIGIÃO que é pregada por vossa congregação... Em dias tão conturbados, violentos e contraditórios, precisamos de uma LUZ, uma orientação... teríamos muito a escrever, e isto eu enfrentei com muita dificuldade, pela falta de cultura, pelos erros de português que cometo sistematicamente, porém, achei-me no direito e dever de fazer este agradecimento... pelo bem que me fizeram”. Osório, 19 de agosto de 1997. R.K.
            Christian A. Schwarz, autor de O DESENVOLVIMENTO NATURAL DA IGREJA, apresenta oito marcas de qualidade encontradas em igrejas que crescem sem receitas mirabolantes de crescimento. Uma dessas marcas o autor denomina de CULTO INSPIRADOR conclui afirmando que “há cristãos que estão convictos de que o culto voltado essencialmente para o visitante não cristão seja um princípio de crescimento da igreja. Em nossa pesquisa constatamos que por trás de um culto evangelístico não existe um princípio de crescimento de igreja. Podemos direcionar os nossos cultos totalmente para cristãos, ou totalmente para não cristãos; podemos celebrá-los de forma litúrgica ou de forma livre, mas tudo isso não é essencial para o desenvolvimento da igreja. Decisivo é um outro fator: Será que a participação do culto é uma “experiência inspiradora para o visitante? A conclusão unânime dos presentes em encontros assim é que o culto é “gostoso”!
            A oposição a esta marca de qualidade, virá de cristãos que entendem que o Culto é, em primeiro lugar, o cumprimento de um dever cristão. De acordo com esse modelo, as pessoas não vão ao culto porque esperam ter uma experiência agradável e inspiradora, mas para fazer um favor ao pastor ou a Deus. Às vezes à esta idéia se acrescenta de que Deus abençoará a fidelidade de ir ao culto e suportar uma experiência desagradável. Quem pensa de acordo com esse modelo sempre vai usar de pressão para motivar os cristãos a participarem do culto. Nas igrejas em que os cultos são celebrados de forma inspiradora, podemos observar que eles “por si mesmos” atraem as pessoas.”( p.30,31).
            Segundo os idealizadores do Evangelismo Explosivo, os incrédulos estarão mais preparados para a visita de apresentação do plano de salvação em Cristo(Evangelho) quando:
            a. Tiveram participado de uma igreja em que os cultos tenham sido significativos.
            b. O povo da igreja tenha sido amigável, receptivo(Notas de Clínica, p.22).





Como tornar o culto significativo para o visitante

            01. Planejar e oficiar o culto cuidadosamente em equipe, considerando os dons([1]Ensino, administração, oração, hospitalidade, canto, música,ministério, exortação, sabedoria, conhecimento, evangelista, pastor...).
            02. Zelar pela pontualidade(iniciar culto e concluí-lo no horário divulgado), boa apresentação dos oficiantes( higiene, vestes, fisionomia), sonorização adequada ao espaço físico, uso recursos audiovisuais.
            03. Instruir a Congregação para que todos recebam amigavelmente os visitantes, dispensando-lhes toda atenção.
04. Treinar pessoas e escalá-las para se aproximarem dos visitantes, se possível sentar com eles para orientá-los quanto ao uso da ordem de culto, hinos, bíblia.
            05. Adotar livro de registro de presenças para facilitar a identificação de visitantes. Consultá-los se podem ser apresentados à congregação durante o culto.
            06. Consultá-los sobre eventuais agradecimentos ou súplicas especiais que gostariam ver incluídos na oração geral.
            07. Presenteá-los com literatura da igreja ao final do culto.
            08. Pastor (ou na sua ausência outro oficiante)cumprimentar todos à saída do culto.
            09. Convidá-los para participarem, após o culto, do cafezinho de congraçamento junto com a congregação.
            10. Visitá-los na semana imediatamente após sua participação no culto ou enviar carta manifestando gratidão e alegria pela presença, renovando convite para participar novamente.

Os Visitantes e a Santa Ceia


“Convidamos agora a participarem da Santa Ceia os membros da IELB que foram confirmados e se inscreveram previamente com o pastor. Lembro: Somente membros da Igreja Luterana, membros desta congregação e confirmados, poderão participar da Santa Ceia. Membros de outras congregações da IELB, poderão participar somente se trouxeram autorização de seus respectivos pastores”.
Será que colocações como estas são uma “experiência gostosa” para os visitantes em nossos cultos?
            Deixaríamos de praticar a comunhão fechada se, por exemplo, o convite à Ceia fosse nestes termos: “Estão convidados a participar da Santa Ceia todos os batizados que se arrependem de seus pecados e crêem que Jesus Cristo morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos para pagar a pena por todos os seus pecados, e, agora, está presente com seu corpo e sangue juntamente com o pão e o vinho para fortalecimento da fé.
             Estes estão convidados a receberem as bênçãos prometidas nesta Ceia, a saber, remissão dos pecados, vida e salvação” ?

Rev. Elmar Regauer


Santa Maria - RS 

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