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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Luteranos x Reformados

texto retirado da página Tradição Reformada

Uma das principais afirmações dos reformados que sustentam uma ideia de continuidade ou unidade entre os movimentos luterano e reformado é que o Luteranismo seria uma espécie de reforma mal consolidada e só aprimorada dentro da tradição reformada. É injusto dizer que essa posição só é comum entre leigos. Na verdade muitos eruditos reformados são adeptos dessa ideia. Podemos citar vários, mas nos contentemos com a declaração do teólogo holandês, bastante respeitado na tradição reformada, Abraham Kuyper, que diz "em grande parte Calvino inicia a colheita do que o herói de Wittenberg [Lutero] tinha semeado na Alemanha e fora dela". Nesse texto busco mostrar que essa afirmativa não é fiel à história eclesiástica do século XVI.

Na ânsia de recolher "aliados teológicos" além de Calvino e seus principais herdeiros, geralmente alguns reformados tendem a apelar a autores anteriores a Calvino para provar que o movimento reformado não ensinou doutrinas novas. Muitos deles citam teólogos como Santo Agostinho, S. Bernardo de Claraval, S. Tomás de Aquino e por fim Martinho Lutero como calvinistas (reformados) antes de Calvino.

É verdade que o movimento reformado não introduziu doutrinas novas na Igreja. No entanto, nem todo autor que inspirou uma doutrina reformada pode ser considerado de fato um reformado. Sem abordar outros autores porque daria um texto maior. Mas só em citar S. Bernardo de Claraval como um proto-reformado alguém está cometendo um anacronismo grave. É verdade que Claraval negou o dogma mariano da Imaculada Conceição e defendeu uma ideia de justificação idêntica à de Calvino. No entanto, Claraval defendia outras doutrinas mariológicas e uma eclesiologia bastante diferente do que é proposto dentro da tradição reformada.

Claraval não é um reformado antes de existirem reformados, Claraval é um católico romano que PROVAVELMENTE concordaria com reformados em algumas coisas e os reprovaria em outras. O mesmo pode se aplicar a Martinho Lutero. Por qual razão eu digo "provavelmente"? Porque Claraval não foi contemporâneo da ascensão reformista na Igreja Católica, por isso não podemos ter 100% de certeza de como ele se posicionaria diante dela (acho provável que seguisse como um católico romano). Já em relação à Lutero, é bem diferente. Lutero foi contemporâneo de pioneiros reformados como Zwingli, Bucer, Bullinger, Zanchi, Vermigli e Calvino e discordou de maneira veemente de todos citados em questões importantes.

O movimento reformado já nasceu de maneira independente do Luteranismo. Ao tratarmos de Catolicismo Reformado (tratado pejorativamente como Calvinismo) e do Catolicismo Evangélico (tratado pejorativamente como Luteranismo), nunca estaremos falando de uma mesma igreja, um mesmo segmento teológico ou uma mesma filosofia religiosa. Não se trata de uma Igreja que um dia foi una e se separou por meio de cisma, como houve, por exemplo, no cisma de 1054 dentro da Igreja Católica Apostólica que resultou na divisão entre Ocidentais (católicos romanos) e Orientais (católicos ortodoxos). A Igreja Luterana surge por meio do cisma de 1517 dentro da Igreja Católica do Ocidente (já separada da Igreja Oriental), após a excomunhão de Martinho Lutero e a elaboração da Carta de Protesto dos príncipes alemães contra a expulsão deste pelas autoridades da Igreja Papal[2]. A Igreja Luterana não nasce já trazendo em seu "pacote" a Igreja Reformada. Muito pelo contrário. A Igreja Reformada já nasce em outro país, por meio do cisma de 1519 quando reformistas suíços foram excomungados também da Igreja Católica, a exemplo de Lutero. Pode se dizer que Lutero teve influência na reforma que houve na Suíça - no entanto não teológica ou eclesiástica, mas política. Digamos que Lutero deu um impulso de encorajamento apenas e passou confiança para que os reformados não tivessem medo da repressão das autoridades da Sé Romana.

A prova irrefutável de que Igreja Luterana e Igreja Reformada são orientações distintas desde seus respectivos nascimentos é a ocorrência do Colóquio de Marburg no ano de 1529. O Colóquio visava exatamente unificar as duas igrejas e fortalecer a causa protestante contra: países europeus, cantões suíços e regiões do Sacro Império Romano-Germânico que estavam sob domínio papista. No entanto, não houve sucesso na tentativa. Durante a ocasião, o principal representante da Igreja Reformada, Ulrich Zwingli, teve uma discussão grave contra Martinho Lutero, o principal representante da Igreja Luterana. Lutero e Zwingli puseram-se de acordo sobre catorze temas, mas não a respeito do décimo quinto, a Eucaristia[3]. Lutero, irado com a posição memorialista de Zwingli acerca da Eucaristia, desistiu de seguir participando do Colóquio e negou a mão da comunhão aos reformados, ao dizer "Nosso espírito e vosso espírito não estão de acordo"[4] (em alemão: "Unser Geist und euer Geist reimt sich nicht zusammen"), concluindo que não haveria união eclesiástica e teológica entre luteranos e reformados.

Com o tempo em que a ortodoxia luterana foi se desenvolvendo e resumindo suas doutrinas no Livro de Concórdia (um compilado de confissões do Luteranismo) mais diversas outras divergências entre Lutero e os reformados teriam surgido além da questão eucarística. Apesar de não serem as únicas, essas podem ser citadas como algumas das principais:

1. Representações artísticas de Cristo (luteranos foram favoráveis, reformados foram contra).
2. Soteriologia (luteranos foram favoráveis à Expiação Ilimitada e Resistibilidade da Graça, reformados foram contra esses dois pontos e ambos só encontraram consenso em Depravação Total e Eleição Incondicional).
3. Filosofia (luteranos, a exemplo de ortodoxos orientais, seguiram uma visão mais próxima do misticismo, enquanto reformados seguiram a Escolástica e estavam próximos do racionalismo, a exemplo dos católicos romanos).
4. Liturgia (luteranos estavam mais próximos de um Princípio Normativo de Culto - que aciona ao culto livremente aquilo que não é proibido biblicamente, enquanto reformados estavam mais próximos de um Princípio Regulador de Culto - que aciona ao culto somente e tão somente aquilo que tem ordenança ou implicação bíblica e rejeita inclusive o que não é proibido explicitamente).

Por fim, de diversas formas podemos provar que nunca houve unidade em sentido eclesiástico e teológico entre luteranos e reformados. O Luteranismo não é uma reforma incompleta e a Tradição Reformada uma completa, na verdade se tratam de reformas completas em diferentes contextos. São duas vertentes que estão unidas pela fé do Credo Apostólico e pelos Cinco Solas da Reforma Protestante, mas divergentes em todo o resto.

Reformados admiram Lutero, mas não devem permitir que essa benquerença seja convertida em omissão para com os estudos sinceros da história eclesiástica e em uma romantização de um passado que nunca existiu. Lutero era um grande homem, tanto quanto nossas grandes referências reformadas. Mas todos eles reprovariam essa deficiência histórica cada vez mais propagada no meio evangelical e reformado atual.

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[1] KUYPER, Abraham. "Calvinismo", p. 28.
[2] Em 19 de abril de 1529, seis príncipes e representantes de 14 Cidades Livres Imperiais pediram a Dieta Imperial em Speyer contra uma proibição imperial contra Lutero, bem como a proscrição de suas obras e ensinamentos. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Protestation_at_Speyer
[3] Este colóquio aconteceu por iniciativa de Felipe I de Hesse e reuniu as principais figuras do protestantismo. Lutero, Brenz, Osiander e Melanchton opunham-se a Zuinglio e Ecolampadio, enquanto Bucer, Hedio e Capito esforçaram-se para conciliar as duas partes. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Marburg_Colloquy
[4] JACKSON, Samuel M. "Huldreich Zwingli, the Reformer of German Switzerland", 1903.

domingo, 22 de julho de 2018

Lutero, uma carta a seu filho Hans

Graça e paz em cristo, meu querido filhinho:

    Fico muito feliz em saber que você está estudando bastante e fazendo suas orações com fidelidade. Continue assim, querido filho, e quando eu voltar para casa, vou trazer um bonito presente para você.
    Eu conheço um lindo parque onde há muitas crianças. Elas usam casacos de ouro e colhem maçãs das árvores, e peras e cerejas e ameixas amarelas e vermelhas. Elas cantam e saltam e são muito felizes; elas também têm belos pôneis com selas de prata. Fui perguntar ao dono do parque quem eram essas crianças.
    Ele respondeu: “Estas são as crianças que gostavam de orar e estudar, e foram crianças piedosas.”
    E eu disse a ele: “Querido amigo, eu também tenho um filho. O nome dele é Hans Lutero; será que ele poderia vir aqui, comer destas belas frutas, andar nos pôneis tão lindos e brincar com as outras crianças?”
    O homem respondeu: “Se ele gosta de orar, estuda bastante e é um bom menino, ele pode vir ao parque também – Filipe e Jonas também. E quando todos eles chegarem aqui, também receberão flautas e alaúdes e tambores e todos os tipos de instrumentos; e também podem dançar e brincar com pequenos arcos.”
    Ele também me mostrou um lindo gramado no parque, preparado para dançar e com todos os instrumentos dos quais falei, pendurados por tudo que é lugar. Mais ainda era cedo de manhã, e as crianças ainda não haviam tomado café da manhã. Eu estava ansioso por que a dança começasse. Por isso, eu disse ao homem: “Prezado senhor, vou bem ligeiro escrever a respeito de tudo isso ao meu querido filho Hans e vou dizer para ele sempre ser um bom menino, sempre orar muito e estudar bastante, para que possa vir a este parque também. Mas ele tem sua tia Lena que ele vai querer trazer junto”.
    O homem respondeu: “Sim vá e escreva para que tudo isso se realize”.
Portanto, querido Hans, estude muito e sempre faça oração e diga a Filipe e Jonas que não esqueçam de orar e estudar também; então todos vocês poderão vir a este maravilhoso parque.
    Que o Deus todo-poderoso guarde você. Dê lembranças e um beijo á sua tia Lena por mim.

Ano 1530
Seu pai, que o amo muito, 
Martinho Lutero.

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Tem uma versão mais curta da carta, que segue abaixo, mas acredito que a escrita acima seja mais próxima da realidade.

    Graça e Paz em Cristo, meu querido filhinho. Eu me alegro que tu estudas bastante e és aplicado em tuas orações. Faça isto, meu filhinho e, quando eu chegar em casa, eu trarei uma moeda...
    Eu sei de um lindo e divertido jardim, ali entram muitas crianças, elas estão vestidas com roupas douradas e colhem maçãs, peras, cerejas, ameixas e pêssegos, elas cantam e correm e pulam de alegria, e lá tem pequenos cavalos com relhos de ouro e selim de prata.
    Então eu falei: Querido Senhor, eu também tenho um filho, ele se chama Hans Lutero, ele também poderia vir para esse jardim, onde tem essas lindas frutas e ele também poderia montar nesse lindo cavalinho e brincar com essas crianças?
    O homem falou: Ele gosta de orar, de estudar e crê, então ele pode vir para este jardim e seus amigos Felipe e Jonas também podem vir. E quando vierem, eles podem assobiar, tocar bateria, e há também um lugar preparado para dançar, pular e tudo o que eles gostam de fazer.
    Ah! Senhor, eu vou correndo escrever para meu filhinho para ele ser um praticante na oração e perseverante nos estudos e tenha fé... Por isto, meu filhinho Hans, estude, ore e seja abençoado por Deus, e diga também a Felipe e Jonas, para que eles também orem e estudem.
    Seja abençoado por Deus Todo-Poderoso e Ele te guarde. Dê um beijo aos de casa. 
Teu querido pai, 
Martinho Lutero

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

História de Lutero - 7 - Últimos dias

Os últimos dias de Lutero

No dia 23 de janeiro de 1546, a pedido insistente dos príncipes de Mansfeld, Lutero viajou para Eisleben. Como não se sentisse bem de saúde para empreender sozinho a viagem, levou consigo seus filhos Martinho e Paulo, pois o tempo estava mau e as estradas quase intransitáveis. Foram necessários cinco dias para vencer a distância de 120 quilômetros. Lutero decidiu-se a fazer esta viagem, somente por se tratar de uma missão de amor. Havia sido convidado para restabelecer a paz em uma família desunida por uma grande briga. Depois de vinte dias de pacientes admoestações, Lutero conseguiu reconciliar a família. Mas estava completamente exausto. Tinha sido esforço demasiado para sua saúde precária. Na noite do dia 17 de fevereiro, foi levado para seu quarto, a fim de descansar. Junto a sua cama permaneceram seus dois filhos e três amigos íntimos. Lutero sabia que seu fim se aproximava. Em fervorosa oração encomendou sua alma ao Pai celestial. Um dos amigos perguntou-lhe se estava preparado para morrer em nome do Senhor Jesus Cristo, cuja doutrina havia pregado. Lutero respondeu com voz clara: Sim. Em seguida cerrou seus olhos para seu derradeiro sono aqui na terra.
Lutero morreu no dia 18 de fevereiro de 1546. Seu corpo foi levado para Wittenberg. No dia 22 de fevereiro foi sepultado na Igreja do Castelo, bem defronte do púlpito, onde permanece até hoje.
Lutero está morto, mas sua obra permanece. A Reforma da igreja, por ele iniciada, espalhou-se por todas as partes do mundo. Jesus, o Rei da Graça, proclamado por Lutero, vive nos corações de milhões de cristãos. Passados 500 anos, Lutero continua a ser honrado como o grande mestre da Igreja Luterana e de todo Protestantismo.
E hoje, mais do que nunca, precisamos de Lutero e suas palavras para trazer seus herdeiros de volta à pura e clara Palavra de Deus, que não precisa de novos profetas, apóstolos, milagreiros e vendedores de bênçãos e prosperidade. Essa igreja precisa ser, de novo Reformada. E nós luteranos da IELB, queremos continuar trilhando o caminho que já caminhamos faz 500 anos.

domingo, 29 de outubro de 2017

História de Lutero - 6 - No lar e escritos importantes

Lutero no Lar

A 13 de junho de 1525, Lutero casou com Catarina de Bora, uma antiga freira que abandonara o convento por reconhecer o erro da vida enclausurada. A cerimonia de casamento realizou-se no Mosteiro Negro de Wittenberg, há pouco transformado em residência para Lutero.
Deus abençoou este matrimônio com três meninos e três meninas. Lutero amava o lar, e sempre encontrava tempo para brincar com os filhos, tocar música e cantar com eles, e para lhes escrever bonitas cartas quando estava viajando. Interessava-se também pelo jardim e pelos demais problemas do lar.
Lutero recebia muitas visitas. Mesmo não sendo rico, era muito generoso. Sua bondade e liberalidade para com os outros, muitas vezes preocupava sua mulher, especialmente porque Lutero era extremamente hospitaleiro, dando, de bom grado, casa, comida, e até dinheiro aos necessitados.

Lutero escreve o Catecismo Menor e o Hinário

Reconhecendo que a fé cristã se baseia no conhecimento cristão, Lutero fundou e organizou escolas cristãs. Para facilitar aos pastores e professores a instrução cristã das crianças, Lutero escreveu o Catecismo Menor, em l529. Depois da Bíblia, o Catecismo é o livro mais usado na igreja. Lutero escreveu também um bom número de hinos maravilhosos. Em 1524 publicou o primeiro hinário evangélico, e animou outros escritores e compositores hábeis a escreverem bons hinos com bonitas melodias. Ajudou a escrever a Confissão de Augsburgo, publicada em 1530. Completou a tradução do Antigo Testamento em 1534. Embora não gozasse de boa saúde, estava sempre ativo, trabalhando, quer entre o povo, quer em seu gabinete de trabalho. Suas obras ocupam mais de 100 volumes. Continuou a trabalhar incansavelmente até a véspera de sua morte.

sábado, 28 de outubro de 2017

História de Lutero - 5 - Em Worms e no Cstelo de Wartburg

Lutero em Worms

Quando o papa Leão X, em Roma, ouviu falar do que acontecia na Alemanha, ficou furioso e ameaçou Lutero com a excomunhão, caso ele não se retratasse dentro de 60 dias. Lutero, porém, ficou firme em seu ponto de vista, pois tinha a certeza de que havia agido certo, para a glória de Deus. Em 1521 Lutero recebeu a comunicação de que devia comparecer à Dieta (assembleia) de Worms, para ser julgado. Estavam presentes à reunião as mais altas autoridades da Igreja e do país. Novamente Lutero foi intimado a se retratar. Lutero pediu que lhe provassem da Bíblia que ele estava errado. Ninguém pôde provar. Por isso Lutero se recusou a desmentir qualquer cousa do que havia dito ou escrito.

Lutero no Castelo de Wartburg

Lutero foi, então, declarado pessoa fora da lei. Quem o encontrasse, o podia matar, sem medo de sofrer castigo. Embora sua vida corresse grande perigo, Lutero não se intimidou e iniciou sua viagem de volta para Wittenberg. Ao atravessar uma floresta, um bando de homens mascarados o atacou. Fizeram-no prisioneiro e o levaram para um castelo, chamado Wartburg. À meia-noite, a pesada ponte foi baixada, e Lutero desapareceu atrás das enormes muralhas do castelo. Bem poucas pessoas sabiam onde Lutero se encontrava, mas eles souberem guardar segredo. Muitos pensavam que Lutero havia sido morto. O que o povo não sabia, era que seus amigos haviam simulado o rapto para o guardar em segurança contra seus inimigos.
Lutero, disfarçado de cavaleiro, permaneceu durante longo tempo no castelo de Wartburg. Aproveitou essa oportunidade para traduzir o Novo Testamento para a língua alemã, a fim de que todo o povo pudesse ler a palavra de Deus em sua própria língua, e assim compreender a vontade de Deus.
Poucos anos antes, Gutenberg havia aperfeiçoado a imprensa, descobrindo o sistema de letras móveis. Isso possibilitou que se imprimisse o Novo Testamento em muitos milhares de exemplares, podendo assim ser vendido ao povo por preço mais acessível. Antes desse tempo os livros eram escritos a mão. Uma Bíblia, assim escrita, custava uma pequena fortuna, e só os mais ricos a podiam comprar.
Após um ano de retiro forçado no castelo de Wartburg, Lutero voltou para Wittenberg e continuou a pregar na sua igreja. Realizou uma série de oito pregações vigorosas, mostrando os erros em que muitos haviam caído e explicando ao povo de que maneira convém viver para agradar a Deus. Advertiu-os a não fazerem uso da força em sua luta contra o papa e a igreja católica. Deviam combater o erro da igreja apenas com a palavra de Deus.
De Wittenberg Lutero viajou para muitas outras cidades, visitando comunidades e aconselhando o povo a usar a liberdade dada por Deus contra a tirania papal para um único fim: para se tornarem melhores cristãos.
Lutero vivia em constante perigo de ser preso e morto. E ainda que seus amigos temessem por sua vida, nada lhe aconteceu. O fato de Lutero ter ficado vivo naqueles dias, parece ser um verdadeiro milagre. Deus jamais o abandonou.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

História de Lutero - 4 - Do nascimento à Universidade e as 95 teses

As 95 teses

Naqueles dias a igreja entregou-se ao nefasto comércio das indulgências (recibos de perdão dos pecados, comprados com dinheiro). João Tetzel, vendedor dessas indulgências na Alemanha, chegou a Wittenberg. Ali insistia junto ao povo que comprasse perdão para todos os pecados, passados, presentes e futuros. Alguns membros da igreja de Lutero compraram-nas e não se importaram mais em se arrepender dos pecados. Lutero, em consequência disso, lhes negou a Santa Ceia. Disse-lhes que, se não se arrependessem, Deus não lhes perdoaria os pecados, pois as indulgências não tinham nenhum valor diante de Deus.
Muito entristecido com o que estava acontecendo, Lutero pregou nos domingos seguintes com veemência, chamando o povo ao arrependimento. Por fim escreveu 95 teses (proposições) para serem discutidas em público, em que condenava a venda de indulgência.
No dia 31 de outubro de 1517, pregou essas teses na porta da catedral, para que todos as pudessem ler. Numa delas ele afirmava:
Cada cristão que se arrepende de seus pecados, tem perdão dos mesmos, não necessitando das indulgências.
Milhares de pessoas, ricas e pobres, vibraram de alegria, vendo a coragem com que Lutero combatia os erros da Igreja.

Conheça as 95 teses - com breves comentários

1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4. Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.
[Lutero nega que as indulgências possam livrar alguém das penas terrestres.]

5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6. O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.
[5-6: Lutero mostra que o papa não tem nenhuma autoridade além daquela dada por Jesus. É, no mínimo, uma atitude de esclarecer à autoridade (da igreja).]

7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
[7: Deus perdoa por graça. Qualquer coisa. A qualquer pessoa. Assim as indulgências erram a ignorar esta graça. Já se pode perceber diferença do pensamento romano.]

8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.
10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
(“O purgatório, um estado de penitência e purificação entre a morte e o juízo final, é, para a doutrina católico-romana, o local para o pagamento das penas decorrentes dos pecados. Estas penas podem ser parcial ou totalmente eliminadas pelas indulgências. No mundo cristão, a doutrina do purgatório surge primeiro em Orígenes, no século II. Em 1517 Lutero ainda aceita a doutrina do purgatório. Mais tarde irá abandoná-la completamente.)

11. Essa erva daninha de transformar a pena canônicaem pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
[11: Lutero parece não acreditar que as indulgências tenham entrado à igreja com a permissão dos bispos.]

12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
[Lutero está rebatendo a venda de indulgências para livrar do purgatório até mesmo aos que já morreram. Segundo sua concepção (aqui ainda não contra o purgatório) só se pode fazer alguma coisa para livrar-se da condenação aqui na terra.]

13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
[Lutero reafirma que só aos vivos é dada a oportunidade da salvação.]

14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.
15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.
[Claramente se vê que Lutero ainda aceita o purgatório, afinal, esta era uma doutrina oficial da igreja que ele ainda não tinha aprofundado o conhecimento. Mais tarde, por causa da Escritura, Lutero rejeita a existência do purgatório.]

17. Parece necessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.
18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.
[17-19: Lutero começa com “Parece”, ele não afirma. Demonstrando um caráter pacífico.]

20. Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
[Lutero não entra no mérito da autoridade do papa, mas diz claramente que ele só pode entender sobre as penas que ele mesmo impôs, ou seja, não pode ministrar sobre as penas do purgatório.]

Depois de uma introdução de 20 teses, Lutero bate de frente com os vendedores de indulgências.

21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
[Para afirmar sua tese Lutero, acreditando no purgatório, usa este como argumento. O que não for pago em vida será ali pago.]

23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
[Lutero parece aceitar que existam perfeitos. Isso pode ser classificado como uma clara leitura de sua educação romana. Lutero ainda não entende o homem como completamente corrompido e completamente justificado.]

24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
[Acusa as indulgências de serem enganação.]

25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
[O papa não detém o poder das chaves, poder que é usado para assegurar a validade das indulgências. O poder do papa é o mesmo que qualquer cristão: interceder pelos outros. Neste caso, até mesmo pelos mortos que estão no purgatório. Parece contestar a autoridade superior do papa, mas considerando o caráter destes escritos não nos atreveríamos a afirmar isso a essa época. Mas poderíamos argumentar que essa tese leva a entender que cada bispo e cura é um papa em seu território de domínio. A tese não é clara quanto à autoridade do papa e nem é isso que se está discutindo neste documento.]

26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
[Segundo o pesquisador católico Nicolau Paulus, o pregador dominicano João Tetzel realmente anunciou em suas pregações a frase: “Antes que o dinheiro tilinte na caixa, a alma salta do purgatório.”]

28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
[Lutero contrapõe a vontade de Deus à cobiça da Igreja.]

29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.

30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
[Aqui está implícita a luta pela remissão dos pecados que cada um deveria ter na fé católica.]

31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
[Lutero não diz que as indulgências não sejam possíveis, mas que são quase. Uma vez mais não é polêmico e sim pacífico.]

32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
[Demonstração de que não aceita de forma alguma as indulgências e ainda condena que as espalha, atrapalhando as consciências.]

33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.
34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35. Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.
[As confessionalia, “breves confessionais”, eram parte importante das graças relacionadas com a proclamação das indulgências jubilares. Quem comprasse tal privilégio adquiria o direito de escolher um confessor, ao qual haviam sido concedidas autorizações ( faculdades) especiais para a absolvição. Além disso, adquiria uma indulgência plenária para ser usada uma vez na vida e para a hora da morte. Os confessores indicados, quando da venda de uma tal bula extraordinária, tinham a autoridade de conceder dispensa também nos casos reservados ao papa e de transformar promessas especialmente severas em outras de menor peso. Além disso, podiam autorizar a retenção de bens ilegitimamente adquiridos, de matrimônios entre pessoas inabilitadas devido a certos graus de parentesco, etc. - As breves confessionais davam à pessoa a segurança de que na hora da morte poderiam se livrar do castigo eterno ou do purgatório. Ainda poderiam escolher a quem melhor lhes parecia para confessar.]

36. Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.
[Qualquer cristão pode ser salvo, não apenas os que compram indulgências.]

37. Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
[A graça é dada por Deus mediante Cristo.]

38. Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.
[O papa não deve ser ignorado, mas somente porque declara o que Deus já deu.]

39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.
[A indulgência dificulta a interpretação de pecado. As consciências podem sentir-se tranquilas apesar de quaisquer pecados. Não há contrição. Há suborno.]

40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.
[Os que procuram indulgências estão tentando escapar da culpa através de meios não lícitos. Está implícito o pensamento de que se pode pagar pelos pecados cometidos.]

41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.
[Lutero contrapõe as boas obras às indulgências. São preferíveis as obras. Lutero ainda está no pensamento romano de que as obras são necessárias para a salvação.]

42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.
[Lutero afirma que o papa não corrobora com as indulgências. Lutero pensa ter o apoio papal ao discutir estas questões. Na época julga poder usar a opinião papal contra seus adversários. Somente alguns anos mais tarde é que verá que estava enganado.]

43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.
[Uma vez mais Lutero afirma que é melhor fazer  boas obras do que comprar indulgências.]

44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
[As indulgências são fuga da pena.]

45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
[Comprar indulgências traz a ira de Deus, pois é preferível usar o dinheiro para ajudar ao necessitado. Lutero afirma claramente que (segundo o pensamento romano) para livrar-se do purgatório e inferno é necessário que se faça obras, ao invés de tentar fugir do castigo buscando as indulgências.]

46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
[Lutero entende que Deus dá bens às pessoas para que elas possam viver e cuidar dos seus. Não se deveria gastar com indulgências se vai faltar em casa. Isso vai contra o princípio de se comprar a indulgência para livrar-se do castigo eterno.]

47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
[Lutero aceita as indulgências (devemos lembrar que Lutero aceita a autoridade do papa), mas afirma que não devem ser forçadas e sim oferecidas.]

48. Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.

49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
[Lutero é confuso neste argumento. Não define como as indulgências poderiam ser úteis. Mas ele está seguro de que as indulgências representam a tentativa de fuga da ira de Deus.]

50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto — como é seu dever — a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.
[50-51: Nas duas teses acima, mais uma vez Lutero defende o papa. Sugere que este não sabe do que se passa na venda das indulgências. E que se soubesse não permitiria.]

52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53. São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas. O comissário era uma pessoa comissionada pela Igreja com a venda de indulgências.
(Durante o período de sua permanência em uma localidade, o comissário era senhor absoluto sobre a igreja e sobre os sacerdotes. Determinava quando e onde poderia ser pregado. Podia, além disso, suspender as indulgências especiais, proibir a confissão, sob pena de excomunhão, designar confessores de indulgências.)
54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
55. A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
[53-55: Nas teses acima Lutero defende o valor da Palavra de Deus ante as indulgências. Estava se dando muito mais valor às indulgências do que à Palavra de Deus. Já não era a graça de Deus que salvava e livrava do castigo eterno, mas simplesmente a indulgência papal.]

56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
(O tesouro da Igreja é formado pelas obras excedentes de Cristo e dos santos. Estas obras excedentes estão confiadas à administração papal como thesaurus bonorum operum. Cabe ao papa distribuí-las a quem delas necessita. Lutero nega essa concepção na tese 58.)

57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
[Lutero ainda acredita (como a igreja romana) que os santos tenham méritos e que os possam compartilhar.]

59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.
61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.

62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
[Aqui se sente que Lutero valoriza o Evangelho acima de todas as coisas que a Igreja possa oferecer.]

63. Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos.

64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.
[As indulgências servem como fuga da ira divina.]

65. Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.
[65-67: Nas teses acima Lutero afirma que as indulgências servem apenas para arrancar dinheiro das pessoas.]

68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.
[Indulgências não são nada quando comparadas à graça de Deus em Cristo.]

69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
[Lutero enfatiza a hierarquia à essa época. Talvez por isso ele tenha escrito a tese seguinte.]

70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.
[Lutero volta a defender o papa. Admitindo que os comissários é que estariam desvirtuando aquilo que o papa lhes tinha ordenado.]

71. Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.
75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.
(A teologia católica distingue entre pecados veniais e pecados mortais. Os primeiros não são pecados no sentido lato do termo. Os segundos referem-se aos sete pecados capitais. Estes, enquanto não forem perdoados, têm como consequência a morte eterna, devendo, por isso, ser confessados.)
[Lutero aponta para a inutilidade das indulgências.]

77. A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.
78. Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1Co 12.

79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.
[Nada é maior do que a cruz de Cristo, nem mesmo a cruz do papa.]

80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.
[Lutero lembra da responsabilidade de cada bispo frente ao seu rebanho.]

81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.
82. Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas — o que seria a mais justa de todas as causas —, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica — que é uma causa tão insignificante?
83. Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?
84. Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?
85. Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais — de fato e por desuso já há muito revogados e mortos — ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?
86. Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?
87. Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?
88. Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?
89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
[81-89: Nas teses que acima Lutero usa de sarcasmo para contra argumentar às indulgências. Ele é muito perspicaz e não parece temer o papa. Segundo ele pensava não havia o que temer, pois o papa estaria do seu lado. Lutero põe nas teses as perguntas que provavelmente estariam circulando entre as pessoas de sua época. Como na tese 82: se o papa pode tirar as pessoas do purgatório por dinheiro, por que não faz isso por bondade? Com perguntas assim ele mostra que é totalmente contra tais indulgências.]

90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.
[Lutero chama a atenção ao fato de que as pessoas merecem ao menos uma explicação dos abusos que estão acontecendo. Eles não deveriam ser tratados à força.]

91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92. Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: "Paz, paz!" sem que haja paz!
93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz!

94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;
[Os cristãos deveriam confiar que pelas penas estariam nos céus (se percebe a teologia romana) e não por comprarem as indulgências. Estas, ao contrário, geram uma esperança falsa e levam que leva ao inferno.]

95. e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.

[O caminho do céu passa pelas tribulações da terra. O cristão sofre aqui, antes de estar na perfeição com Deus. Isto é claro para Lutero.]

História de Lutero - 3 - Sacerdote, professor e pregador

Lutero se torna sacerdote, professor e pregador

Na primavera de 1507, Lutero, com 23 anos de idade, tornou-se sacerdote. Era tão bem visto por seus superiores que o enviaram como professor para a Universidade de Erfurt e depois para a nova Universidade de Wittenberg. Dentro em pouco tornou-se famoso mestre da Bíblia. Os estudantes não perdiam suas aulas de religião.
Contudo teve de interromper suas preleções porque o seu superior, Dr. Staupitz, lhe pediu que fosse a Roma, onde vivia o papa. Lutero ficou muito contente. Partiu com um companheiro, viajando a pé. Foi uma longa e perigosa viagem. Quando finalmente avistaram Roma, Lutero se ajoelhou e exclamou:
Salve, santa cidade de Roma!
Ficou, porém, muito desapontado quando viu que o povo de Roma levava uma vida pecaminosa, incluindo também os padres.
Depois de cinco meses Lutero estava de volta, continuando a lecionar na Universidade de Wittenberg. Em 1512 recebeu o titulo de Doutor em Teologia, passando também a pregar na bonita catedral de Wittenberg. O povo nunca havia ouvido pregações tão belas e eloquentes. Era cada vez maior o número de pessoas que iam à igreja ouvir Lutero falar. Lutero advertia seus ouvintes a não procurarem se salvar pelas obras, mas somente pela fé em Jesus.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

História de Lutero - 2 - Lutero no Convento

Lutero no Convento

Certa ocasião um grande amigo de Lutero morreu subitamente. Lutero ficou tão abalado que disse a si mesmo:
Que será de mim na eternidade, quando eu morrer?
Noutra ocasião, ao voltar para Erfurt, de uma visita à casa paterna, foi colhido no caminho por uma tempestade. Atemorizado, fez uma promessa a Santa Ana, de que se saísse dali vivo, se tornaria um monge, e foi o que aconteceu. Retornando à Universidade, vendeu seus livros, despediu-se dos amigos e, não dando ouvidos a seus pedidos insistentes, entrou para o convento Agostiniano de Erfurt.
Então dizia:
Agora poderei viver de maneira mais agradável a Deus.
Seu quarto era uma cela pequena de dois ou três metros, em que havia uma mesa, uma cadeira, um colchão de palha e uma janela. Lutero continuou a estudar a Bíblia. Vestindo uma batina preta, cumpria todas as penitências religiosas que lhe eram impostas. Andava também pelas ruas da cidade com um saco às costas, como era costume na época, mendigando pão, manteiga, ovos e tudo que era necessário para o sustento do convento. Além disso tinha que cuidar da limpeza da capela e dos quartos, e bater o sino. No quarto, estudava religião e filosofia e orava aos santos, querendo merecer o céu por meio de suas boas obras. Mais do que nunca buscava a paz de espírito, mas não a podia encontrar. Pensava sempre:
Sou pecador, e Deus está zangado comigo.
Um dia descobriu uma coisa maravilhosa na Bíblia: Que a salvação é dom gratuito de Deus por intermédio de seu Filho Jesus Cristo, nosso Salvador.

História de Lutero - 1 - Do nascimento à Universidade

Nesta semana que se comemora os 500 anos da Reforma Luterana, veja algumas informações históricas sobre o Reformador que reconduziu a Igreja à verdade bíblica de que a "salvação é somente pela fé em Cristo Jesus".

Nascimento

Martinho Lutero nasceu na cidade de Eisleben, na Alemanha, no dia 10 de novembro de 1483. E foi batizado no dia seguinte, que era o Dia de São Martinho, por isso recebeu seu nome em homenagem ao santo do dia. Seu pai era camponês e, mais tarde tornou-se mineiro. Trabalhava da manhã à noite nas sombrias minas de carvão. Chamava-se João Lutero. Sua mãe chamava-se Margarida Lutero. Os pais de Martinho oravam com todo fervor aos santos, ensinando a seus filhos a fazer o mesmo. Amavam muito a seus filhos, mas eram também muito severos quando estes lhes desobedeciam.

Lutero na Escola

Com a idade de 5 anos, Martinho começou a frequentar a escola na cidade de Mansfeld, para onde seus pais se haviam mudado. Nessa escola Lutero aprendeu os Dez Mandamentos, o Credo, o Pai Nosso, música sacra e também um pouco de Latim e Aritmética. Entretanto muito pouco aprendeu do amor de Deus. Ensinavam-lhe que Jesus era um Juiz severo e não um Amigo dos pecadores. E, assim, em vez de ele amar a Jesus, tinha-lhe medo. Martinho aprendeu depressa, pois era um bom aluno, muito aplicado e inteligente. Aos 14 anos matriculou-se na Escola Superior de Latim, em Magdeburgo, distante uns 90 quilômetros de onde morava. Foi aí que Lutero encontrou pela primeira vez uma Bíblia. No ano seguinte seu pai o transferiu para uma escola em Eisenach. Para se sustentar, Lutero e seus colegas tinham de cantar pelas ruas, angariando dessa forma o suficiente para viver. Numa dessas ocasiões, cantando em frente à casa de uma senhora de nome Úrsula Cotta, esta se interessou por ele e o recebeu em sua casa, dando-lhe desde então casa e comida de graça. Lutero aceitou com alegria e gratidão a oferta. Agora tinha mais tempo para se dedicar aos estudos. A família Cotta era muito culta e apreciava as artes, principalmente a música. Foi assim que Lutero passou a se dedicar à música. Mais tarde fez uso desse dom, compondo muitos hinos, que hoje são cantados na Igreja Luterana em todo o mundo. O principal desses hinos é Castelo Forte.

Lutero na Universidade

Afinal Lutero ingressou na Universidade. Nessa época seu pai já prosperara o suficiente para poder custear seus estudos universitários. Reconhecendo os dons de seu filho, desejava que se formasse advogado. Foi por isso que o mandou para a Universidade, em Erfurt. Lutero continuou a estudar com afinco, e principalmente era diligente nas orações a Deus. Aos 21 anos recebeu o título de Bacharel em Artes, estando habilitado a lecionar. Para agradar a seu pai, Lutero continuou a estudar Direito, mas logo perdeu o interesse pela matéria. Cada vez mais se dedicava ao estudo de religião, sentindo o peso dos seus pecados. Mas, por mais que quisesse agradar a Deus com a sua vida, não pôde achar a desejada paz de espírito.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O Catecismo Menor

Aqui, texto extraído da seguinte página: http://celcre.tripod.com/catecism.htm

Prefácio:
Martinho Lutero, a todos os pastores e pregadores fiéis e piedosos. Graça, misericórdia e paz em Jesus Cristo, nosso Senhor.
A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que me obrigou e impulsou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino. Não obstante, todos pretendem o nome cristãos, estão batizados e fazem uso dos santos sacramentos. Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos. Vão vivendo como os brutos e os irracionais suínos. E agora que veio o evangelho, é que aprenderam bem a abusar magistralmente de toda liberdade. Ó bispos, como havereis de responder perante Cristo pelo fato de haverdes negligenciado tão vergonhosamente o povo e por não haverdes jamais cumprido por um momento o vosso ofício? Que não vos alcance a desgraça! Proibis uma das espécies e insistís em vossas leis humanas, mas entrementes não vos tomais de nenhum cuidado sobre se conhecem o Pai-Nosso, o Credo, os Dez Mandamentos ou qualquer palavra de Deus. Ai de vós eternamente!
Por isso rogo a todos vós, pelo amor de Deus, meus queridos senhores e irmãos que sois pastores ou pregadores, que vos devoteis de coração ao vosso ofício, vos apiedeis do povo confiado a vós e nos ajudeis a inculcar o catecismo às pessoas, tomem estes livrinhos e formas e leiam-nos, palavra por palavra, ao povo, fazendo que esse repita as palavras da maneira seguinte:
Em primeiro lugar, tenha o pregador acima de tudo o cuidado de evitar textos e formas diversos ou divergentes dos Dez Mandamentos, do Pai-Nosso, do Credo, dos Sacramentos, etc. Tome, ao contrário, uma única forma e a ela se atenha e a incuta sempre, ano após ano. Porque pessoa jovens e simples devem ser ensinadas com um texto uniforme e fixo, pois de outro modo facilmente ficam embaralhadas, se hoje se ensina de um jeito e no ano seguinte de outro, como se a gente quisesse emendar o texto. Perde-se com isso todo o esforço e trabalho. Bem viram isso também os queridos Pais, que, todos, empregaram a mesma forma do Pai-Nosso, do Credo, dos Dez Mandamentos. Por isso também devemos ensinar essas partes às pessoas jovens e simples de maneira tal, que não desloquemos nem uma sílaba ou apresentemos ou repitamos o texto diferentemente de um ano a outro. Escolhe, por isso, a forma que queres e fica com ela. Agora, quando pregas aos doutos e inteligentes, aí então podes mostrar a tua erudição, tornando essas partes tão multiformes e dando-lhes torneios tão magistrais quanto alcance o teu engenho. Com as pessoas jovens, entretanto, atém-te a uma forma e maneira permanente e fixa, e ensina-lhes primeiro que tudo, estas partes: os Dez Mandamentos, o Credo, etc., segundo o texto, palavra por palavra, de forma que também o possam repetir assim e decorar.
Mas àqueles que não o querem aprender, diga-se lhes como negam a Cristo e que não são cristãos. Também não devem ser admitidos ao sacramento, não devem ser admitidos como padrinhos em batismos, nem fazer uso de qualquer parte da liberdade cristão, senão que devem ser entregues ao papa e a seus oficiais, e além disso ao próprio diabo. Ademais, devem negar-lhes comida e bebida os pais e os amos e comunicar-lhes que tal gente rude o príncipe expulsará de sua terra, etc.
Pois, ainda que a ninguém se pode nem se deve obrigar à fé, todavia importa insistir e urgir com o povo para que saiba o que é justo e injusto entre aqueles com quem querem morar, alimentar-se e viver. Pois quem quer morar em uma cidade tem a obrigação de conhecer e observar suas leis, cuja proteção deseja gozar, qualquer que seja o seu caso: quer creia, quer seja, no coração, em particular, um malvado ou patife.
Segundo. Quando já conhecem bem o texto, ensina-lhes também o sentido, para que saibam o que significa, e toma de novo a explanação deste livrinho, ou alguma outra exposição breve e fixa a teu critério, e permanece nela, não lhe modificando nem uma sílaba, tal como se acabou de dizer quanto ao texto. E toma tempo para isso. Pois não é preciso que trates todas as partes de uma tirada, mas uma após outra. Depois de entenderem bem o primeiro mandamento, toma o segundo, e assim por diante. Em caso contrário, ficarão abarrotados, de sorte que não vão reter bem a nenhum.
Terceiro. Quando lhes tiveres ensinado este breve catecismo, toma o catecismo maior e dá-lhes também conhecimento mais rico e mais amplo. Aqui expõe cada mandamento, petição e parte, com suas diversas obras, proveitos, benefícios, perigos e danos, como encontras tudo isso ricamente em tantos livrinhos escritos a respeito. E martela especialmente no mandamento e parte em que haja maior negligência entre o teu povo. Por exemplo, o sétimo mandamento, do furtar, deve ser enfaticamente repisado entre artesãos e comerciantes, como também entre camponeses e servos. Porque entre tal gente há grande cópia de toda espécie de infidelidade e furto. Da mesma forma deves enfatizar o quarto mandamento entre as crianças e pessoas comuns, para que sejam ordeiras, fiéis, obedientes, pacíficas, e importa que sempre aduzas muitos exemplos da Escritura onde se mostre que Deus castigou e abençoou tais pessoas.
Aqui também deves insistir particularmente com as autoridades e os pais, para que governem bem e levem os filhos à escola, mostrando-lhes porque é sua obrigação fazê-lo e que pecado maldito cometem se não of azem. Pois com isso derrubam e assolam tanto o reino de Deus como o reino do mundo, como os piores inimigos de Deus e dos homens. E frisa bem que horrível dano causam, se não cooperam na educação de crianças para serem pastores, pregadores, notários, etc., de sorte há de infligir medonho castigo. Pois é necessário pregar sobre essas coisas. Os pais e governantes pecam nisso agora de maneira indizível. O diabo também leva de mira algo de cruel com isso.
Finalmente, como a tirania do papa está removida agora, não mais querem is ao sacramento e o desprezam. Aqui de novo é preciso martelar, entendido, porém, que a ninguém devemos coagir a fé ou ao sacramento, nem determinar lei, tempo ou lugar. Cumpre, isto sim, que preguemos de tal maneira que eles mesmos, sem lei nossa, se impulsionem e como que obriguem a nós pastores a que administremos o sacramento. A maneira de fazer isso é dizer-lhes: Quem não procura nem deseja o sacramento pelo menos umas quatro vezes ao ano, deve temer-se que tal despreza o sacramento e que não é cristão da mesma forma como não é cristão aquele que não crê ou não ouve o evangelho. Pois Cristo não dize: deixai isto, ou desprezai isto, porém: fazei isto, todas as vezes que o beberdes, etc. Ele quer, na verdade, que se faça isto, não que seja inteiramente negligenciado e desprezado. FAZEI isto, diz ele.
Mas, quando alguém não tem o sacramento em alta estima, isto é sinal que essa pessoa não tem pecado, carne, diabo, mundo, morte, perigo, inferno, isto é, não acredita em nada disso, ainda que está metido nisso até às orelhas e é dobradamente do diabo. Por outro lado, também não precisa de nenhuma graça, vida, paraíso, reino dos céus, Cristo, Deus, nem de bem algum. Pois se cresse que tinha tanto mal e necessitava de tanto bem, não deixaria dessa maneira o sacramento, no qual se remedeia esse mal e tantos bens são dados. Nem seria necessário coagi-lo ao sacramento com qualquer lei; ao contrário, ele viria por si mesmo, apertando o passo e às carreiras, obrigaria a si mesmo e urgiria contigo que lhe deveria administrar o sacramento.
Por conseguinte, ao contrário do que faz o papa, nenhuma lei deves fazer nesse assunto. Limita-te a apresentar bem a utilidade e o dano, a necessidade e os benefícios, o perigo e a bênção ligados a esse sacramento, e então de si mesmos virão, sem coação de tua parte. Se, entretanto, não vierem, deixa-os ir e dize-lhes que são do diabo os que não consideram nem sentem sua grande necessidade e a graciosa ajuda de Deus. Se, porém, não o inculcas, ou se transforma isso em lei e veneno, nesse caso é tua a culpa pelo fato de desprezarem o sacramento. Como não haveriam de ser desmazelados, se tu dormes e calas? Portanto, atentai nisso, pastores e pregadores. Nosso ofício agora se tornou coisa diversa da que foi sob o papa. Agora tornou-se sério e salutar. Razão por que agora envolve muita fadiga e trabalho, perigo e tentação, e, além disso, pouca retribuição e gratidão no mundo. Mas o próprio Cristo quer ser nossa recompensa, se trabalharmos com fidelidade. Que no-lo conceda o Pai de todas as graças, a quem seja louvor e gratidão eternamente, por Cristo, Senhor nosso. Amém.

Como o chefe de família deve ensiná-los com simplicidade a sua casa:
PRIMEIRO MANDAMENTONão terás outros deuses.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima de todas as coisas.
SEGUNDO MANDAMENTONão tomarás em vão o nome de teu Deus.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneira que em seu nome não amaldiçoemos, juremos, pratiquemos a feitiçaria, mintamos ou enganemos, porém o invoquemos em todas as necessidades, oremos, louvemos e agradeçamos.
TERCEIRO MANDAMENTOSantificarás o dia do descanso.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneira que não desprezemos a pregação e a sua palavra, porém a consideremos santa, gostemos de a ouvir e estudar.
QUARTO MANDAMENTOHonrarás a teu pai e a tua mãe.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneira que não desprezemos nem irritemos nossos pais e superiores, porém os honremos, sirvamos, lhes obedeçamos, os amemos e lhes queiramos bem.
QUINTO MANDAMENTONão matarás.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneira que não causemos dano ou mal algum ao nosso próximo em sua vida, porém lhe ajudemos e o favoreçamos em todas as necessidades da vida.
SEXTO MANDAMENTONão adulterarás.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneira que vivamos vida casta e decente em palavras e ações, e cada qual ame e honre seu consorte.
SÉTIMO MANDAMENTONão furtarás.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneira que não tiremos ao nosso próximo o dinheiro ou os bens, nem nos apoderemos deles por meio de mercadorias falsificadas ou negócios fraudulentos, porém os ajudemos a melhorar e conservar os seus bens e o seu ganho.
OITAVO MANDAMENTONão dirás falso testemunho contra próximo.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneira que não mintamos com falsidade ao nosso próximo, não o traiamos, caluniemos ou difamemos, porém devemos desculpá-lo, falar bem dele e interpretar tudo da melhor maneira.
NONO MANDAMENTONão cobiçarás a casa do teu próximo.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneira que não procuremos adquirir, com astúcia, a herança ou casa do próximo, nem nos apoderemos dela sob aparência de direito, etc., porém lhe sejamos de auxílio e serviço para conservá-la.
DÉCIMO MANDAMENTONão cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu empregado, nem a sua empregada, nem o seu gado, nem coisa alguma que lhe pertença.
Que significa isso? Devemos temer e amar a Deus, de maneia que não desviemos astutamente, arrebatemos ou alienemos a mulher do próximo, os seus empregados ou o seu gado, porém instemos com eles para que fiquem e cumpram o seu dever.
CONCLUSÃO DOS MANDAMENTOSQue diz Deus de todos esses mandamentos? Ele diz: Eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem. Mas faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam meus mandamentos.
Que significa isso? Deus ameaça castigar todos os que transgridem estes mandamentos; por isso devemos temer a sua ira e não transgredi-los. Mas ele promete graça e todo o bem a quantos os guardam. Por isso também devemos amar a ele, confiar nele e de boa vontade agir de acordo com os seus mandamentos.

O Credo:
Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade a sua casa.
PRIMEIRO ARTIGOCreio em Deus, o Pai todo-poderoso, CRIADOR do céu e da terra.
Que significa isso? Creio que Deus me criou a mim e a todas as criaturas; e me deu corpo e alma, olhos, ouvidos e todos os membros, razão e todos os sentidos, e ainda os conserva; além disso me dá vestes, calçado, comida e bebida, casa e lar, esposa e filhos, campos, gado e todos os bens. Supre-me abundante e diariamente de todo o necessário para o corpo e a vida; protege-me contra todos os perigos e me guarda e preserva de todo o mal. E tudo isso faz unicamente por sua paterna e divina bondade e misericórdia, sem nenhum mérito ou dignidade de minha parte. Por tudo isso devo dar-lhe faças e louvor, servi-lo e obedecer-lhe. Isto é certissimamamente verdade.
SEGUNDO ARTIGOE em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso SENHOR, o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu, está sentado à direita de Deus, o Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Que significa isso? Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, nascido do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro homem, nascido da Virgem Maria, é meu Senhor, que me remiu a mim, homem perdido e condenado, me resgatou e salvou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo; não com ouro ou prata, mas com seu santo e precioso sangue e sua inocente paixão e morte, para que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino, e o sirva em eterna justiça e bem-aventurança, assim como ele ressuscitou da morte, vive e reina eternamente. Isto é certissimamente verdade.
TERCEIRO ARTIGOCreio no Espírito Santo, uma santa igreja cristã, a congregação dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna. Amém.
Que significa isso? Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim como chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na fé verdadeira e única. Nesta cristandade perdoa a mim e a todos os crentes diária e abundantemente todos os pecados, e no dia derradeiro me ressuscitará a mim e a todos os mortos, e em Cristo me dará a mim e a todos os crentes a vida eterna. Isto é certissimamente verdade.

Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade a sua casa.
Pai nosso, que estás nos céus.
Que significa isso? Deus quer atrair-nos carinhosamente com estas palavras, para crermos que ele é o nosso verdadeiro Pai e nós, os seus verdadeiros filhos, a fim de que lhe roguemos sem temor, com toda a confiança, como filhos amados ao querido pai.
PRIMEIRA PETIÇÃOSantificado seja o teu nome
Que significa isso? O nome de Deus, na verdade, é santo por si mesmo. Mas suplicamos nesta petição que também se torne santo entre nós.
Como sucede isso? Quando a palavra de Deus é ensinada genuína e puramente, e nós, como filhos de Deus, também vivemos uma vida santa, em conformidade com ela; para isso nos ajuda, querido Pai do céu. Aquele, porém, que ensina e vive de modo diverso do que ensina a palavra de Deus, profana o nome de Deus entre nós; guarda-nos disso, ó Pai celeste!
SEGUNDA PETIÇÃOVenha o teu reino.
Que significa isso? O reino de Deus vem, na verdade, por si mesmo, sem a nossa prece; mas suplicamos nesta petição que venha também a nós.
Como sucede isso? Quando o Pai celeste nos dá o seu Espírito Santo, para crermos, por sua graça, em sua santa palavra e vivermos vida piedosa, neste mundo e na eternidade.
TERCEIRA PETIÇÃOFaça-se a tua vontade, assim na terra, como no céu.
Que significa isso? A boa e misericordiosa vontade de Deus, em verdade, é feita sem a nossa prece; mas suplicamos nesta petição que seja feita também entre nós.
Quando sucede isso? Quando Deus desfaz e impede todo mau intento e vontade que nãonos querem deixar santificar o seu nome, nem permitir que venha o seu reino, tais como a vontade do diabo, do mundo e da nossa carne; e quando, por outro lado, nos fortalece e preserva firmes na sua palavra e na fé, até o nosso fim. Essa é a sua graciosa boa vontade.
QUARTA PETIÇÃOO pão nosso de cada dia nos dá hoje.
Que significa isso? Deus, na verdade, também dá o pão de cada dia sem a nossa prece, a todos os homens maus. Suplicamos, porém, nesta petição que nos faça reconhecê-lo e receber com agradecimento o pão nosso de cada dia.
Quando sucede isso? Tudo o que pertence ao sustento e às necessidades da vida, como: comida, bebida, vestes, calçado, casa, lar, campos, gado, dinheiro, bens, consorte piedosa, filhos piedosos, empregados bons, superiores piedosos e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, leais amigos, vizinhos fiéis e coisas semelhantes.
QUINTA PETIÇÃOE perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
Que significa isso? Suplicamos nesta petição que o Pai celeste não observe os nossos pecados, nem por causa deles recuse as nossas preces; pois somos indignos de toda as coisas que pedimos, nem as merecemos; mas no-las conceda todas por graça, visto pecarmos muito diariamente nada merecermos senão castigo. Assim nós, na verdade, queremos de nossa parte perdoar também de coração, e de boa vontade fazer o bem aos que pecam contra nós.
SEXTA PETIÇÃOE não nos deixes cair em tentação.
Que significa isso? Deus, em verdade, não tenta ninguém; mas suplicamos nesta petição que nos guarde e preserve, para que o diabo, o mundo e a nossa carne não nos enganem, nem nos seduzam a crenças falsas, desespero e outras grandes infâmias e vícios; e ainda que tentados, vençamos afinal e retenhamos a vitória.
SÉTIMA PETIÇÃOMas livra-nos do mal.
Que significa isso? Suplicamos, em resumo, nesta petição que o Pai celeste nos livre de todos os males que afetam o corpo e a alma, os bens e a honra, e, finalmente, quando vier a nossa hora derradeira, nos conceda um fim bem-aventurado e nos leve, por graça, deste vale de lágrimas para junto de si no céu.
Amém.
Que significa isso? e estas petições são agradáveis ao Pai celeste e ouvidas por ele; pois ele mesmo nos ordenou orar desta maneira e prometeu atender-nos. Amém, Amém, isto significa: Sim, sim, assim seja.

Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade a sua casa.
PRIMEIROQue é o Batismo? O Batismo não é apenas água simples, mas é a água compreendida no mandamento divino e ligada à palavra de Deus.
Qual é esta palavra de Deus? É a que Cristo Senhor nosso diz no último capítulo de Mateus: Ide por todo o mundo, ensinai a todos os gentios e batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
SEGUNDOQue dá ou aproveita o Batismo? Opera a remissão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá a salvação eterna a quantos crêem, conforme rezam as palavras e promessas de Deus.
quais são estas palavras e promessas de Deus? São as que Cristo Senhor nosso diz no último capítulo de Marcos: Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer, será condenado.
TERCEIROComo pode a água fazer coisas tão grandes? A água, em verdade, não as faz, mas a palavra de Deus que está unida à água, e a fé que confia nesta palavra de Deus unida com a água. Pois sem a palavra de Deus, a água é simplesmente água e não batismo. Mas com a palavra de Deus a água é Batismo, isto é, água de vida, cheia de graça, e um lavar de renascimento no Espírito Santo, como diz Paulo na Carta a Timóteo, no capítulo terceiro: Mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por sua graça, sejamos herdeiros da vida eterna, segundo a esperança. Isto é certissimamente verdade.
QUARTOQue significa esta imersão em água? Significa que o velho homem em nós, por contrição e arrependimento diários, deve ser afogado e morrer com todos os pecados e maus desejos, e, por sua vez, sair e ressurgir diariamente novo homem, que viva em justiça e pureza diante de Deus eternamente.
Onde está escrito isso? Paulo diz em Romanos, capítulo sexto: Fomos sepultados com Cristo na morte, pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.

Que é a confissão? A confissão compreende duas partes: primeiro, que confessemos os pecados; segundo, que se receba a absolvição ou remissão do confessor como de Deus mesmo, sem duvidar de modo algum, mas crendo firmemente que por ela os pecados são perdoados perante Deus no céu.
Que pecados devemos confessar? Perante Deus devemos confessar-nos culpados de todos os pecados, também dos que ignoramos, como fazemos no Pai-Nosso. Mas perante o confessor devemos confessar somente os pecados que conhecemos e sentimos no coração.
Quais são esses? Considera aqui o teu estado à luz dos Dez Mandamentos, se és pai, mãe, filho, filha, patrão, patroa, empregado; se foste desobediente, infiel, indolente, irado, insolente, contencioso; se fizeste mal a alguém com palavras ou ações; se furtaste, foste omisso, negligenciaste, cometeste dano.
Por favor, dá-me uma breve forma de confessar. Falarás ao confessor assim: Venerável e caro senhor, rogo-vos ouvir missa confissão e declarar-me o perdão de Deus. Eu, pobre pecador, confesso-me perante Deus de todos os pecados. Particularmente, confesso diante de vós que sou empregado, empregada, etc., mas, lamentavelmente, sirvo infielmente ao meu senhor, pois aqui e acolá não fiz o que ordenaram, encolerizei-os e os movi a maldizerem, fui omisso e permiti que ocorressem danos. Também fui impudico em palavras e atos, tenho rixado com os meus iguais, tenho murmurado e praguejado contra aminha patroa, etc. Tudo isto eu deploro e peço mercê. Quero emendar-me.      Um patrão ou patroa dia assim: Particularmente confesso perante vós que não eduquei fielmente para a glória de Deus os meus filhos, empregados, mulher. Praguejei, dei maus exemplos com palavras e atos indecorosos, fiz dano ao meu vizinho, falei mal dele, vendi caro demais, dei mercadoria falsificada e não em medida íntegra. E o mais que houver praticado contra os mandamentos de Deus e o seu estado, etc.
       Mas se alguém não se sente carregado com tais pecados ou outros, maiores, esse não se deve preocupar ou procurar ou inventar pecados, fazendo com isso da confissão um martírio, porém mencionar um ou dois de que tenha consciência. Desta maneira: Confesso, especialmente, ter-me acontecido que praguejei. Da mesma forma: Certa vez usei palavras grosseiras, fui desleixado nisso ou naquilo, etc. E considere isto como suficiente.
       Se, porém, não tens consciência de nenhum pecado (o que decerto não deve ser possível), neste caso não menciones nenhum em particular, mas recebe o perdão com a confissão geral que fazes perante Deus na presença do confessor.
Então dirá o confessor: Deus seja misericordioso para contigo e fortaleça a tua fé. Amém. Dize: Crês que o meu perdão é o perdão de Deus? (o que confessa dirá sim!) Como crês, assim seja contigo. E eu, por ordem de nosso SENHOR Jesus Cristo, perdôo-te os teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Vai em paz.
Saberá o confessor consolar e estimular a fé, com mais passagens, aqueles que sentem grande peso na consciência ou então aflitos e atribulados. Isto aí apenas quer ser um modo comum de confissão para pessoas singelas.

Que é o Sacramento do Altar? É o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, sob o pão e o vinho, dado a nós cristãos, para comer e beber, instituído pelo próprio Cristo.
Onde está escrito isso? Assim escrevem os santos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e São Paulo: Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomou o pão, e, tendo dado graças, o partiu e o deu aos seus discípulos dizendo: Tomais, comei, isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Da mesma forma, depois de cear, tomou também o cálice e, tendo dado graças, deu-lho, dizendo: Tomai e bebei deles todos. Este cálice é o novo testamento no meu sangue, derramado em favor de vós para remissão dos pecados; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.
Que proveito há nesse comer e beber? Isso nos indicam as palavras: Dado em favor de vós e derramado para remissão dos pecados, a saber, que por essas palavras nos são dadas no sacramento remissão dos pecados, vida e salvação. Pois onde há remissão dos pecados, há também vida e salvação.
Como pode o ato físico do comer e beber efetuar tão grandes coisas? O comer e o beber, em verdade, não as podem efetuar, mas sim as palavras: Dado em favor de vós ederramado para remissão dos pecados. Essas palavras, juntamente com o comer e o beber físico, são a coisa mais importante no sacramento. E o que crê nessas palavras, tem o que elas dizem e expressam, a saber, remissão dos pecados.
Quem recebe dignamente esse sacramento? Jejuar e preparar-se corporalmente é, sem dúvida, boa disciplina externa. Mas verdadeiramente digno e bem preparado é aquele que tem fé nestas palavras: Dado em favor de vós e derramado para remissão dos pecados.Aquele, porém, que não crê nessas palavras ou delas duvida, é indigno e não está preparado, pois as palavras por vós exigem coração verdadeiramente crentes.

Como o chefe de família deve ensinar a sua casa a orar de manhã e de noite.
BÊNÇÃO DA MANHà    De manhã, quando te levantas, benzer-te-ás, dizendo: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
     Então, de joelhos ou de pé, dize o Credo e o Pai-Nosso. Se quiseres, podes dizer mais esta pequena oração:
     Meu Pai celeste, graças te dou, por Jesus Cristo, teu amado Filho, por me haveres defendido de todo o dano e de todos os perigos da noite passada, e peço-te que me preserves também neste dia do pecado e de todo o mal, para que todas as minhas ações e a minha vida te agradem. Nas tuas mãos me entrego, de corpo e alma, bem como todas as coisas. Esteja contigo o teu santo anjo, para que o inimigo maligno não tenha poder algum sobre mim. Amém.
     Feito isto, começa o teu trabalho alegremente, cantando um hino, como por exemplo sobre os Dez Mandamentos ou sobre qualquer coisa que a tua devoção te sugerir.
BÊNÇÃO DA NOITE     À noite, quando te recolhes, benzer-te-ás, dizendo: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
     Então, de joelhos ou de pé, dize o Credo e o Pai-Nosso. Se quiseres, podes dizer mais esta pequena oração:
     Meu Pai celeste, graças te dou, por Jesus Cristo, teu amado Filho, por me haveres protegido bondosamente neste dia, e peço-te que me perdoes todos os pecados e o mal que fiz e me protejas por tua graça nesta noite. Nas tuas mãos me entrego, de corpo e alma, bem como todas as coisas. Esteja comigo o teu santo anjo, para que o inimigo maligno não tenha poder algum sobre mim. Amém.
     Feito isto, dorme sem demora e de coração alegre.
ORAÇÕES DA MESA
Antes das Refeições:
     
Os filhos e os empregados achegar-se-ão à mesa com as mãos juntas e reverentemente, e dirão:
     Os olhos de todos esperam em ti, Senhor, e tu lhes dás o seu mantimento a seu tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de todos os viventes.
     Depois se dirá o Pai-Nosso e a oração seguinte:
     Senhor Deus, Pai celeste, abençoa-nos a nós e a estes teus dons que de tua bondade recebemos, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.
Após as Refeições:     Igualmente, depois da refeição, dirão, reverentemente e com as mãos juntas:
     Louvai ao Senhor, porque ele é bom, e a sua benignidade é para sempre. É o que dá mantimento a toda a carne, o que dá aos animais o seu sustento, e aos filhos dos corvos, quando clamam. Não se deleita na força do cavalo nem se compraz nas pernas do varão. O Senhor se agrada dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia.
     Depois o Pai-Nosso e a oração seguinte:
     Graças te damos, Senhor Deus Pai, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, por todos os teus benefícios, tu, que vives e reinas para sempre. Amém.

Alguns versículos da Escritura Sagrada para as várias situações e estados da vida dos cristãos pelos quais o mesmo deve ser admoestado a respeito dos seus deveres.
AOS PASTORES
     
É necessário que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; e que governe bem a sua própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo respeito; não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça, e incorra na condenação do diabo; para que tenha poder, assim para exortar pelo reto ensino como para convencer os que contradizem. (1 Timóteo 3.2,3,4,6; Tito 1.9)
O QUE OS OUVINTES DEVEM AOS SEUS PASTORES     Comei e bebei do que eles tiverem; porque digno é o trabalhador do seu salário (Lucas 10.7).
     Ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho, que vivam do evangelho (1 Coríntios 9.14).
     Aquele que está sendo instruído na palavra faça participante de todas as coisas boas aquele que o instrui. Não vos enganeis: de Deus não se zomba (Gálatas 6.6-7).
     Devem ser considerados merecedores de dobrada honra os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o grão. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário (1 Timóteo 5.17-18).
     Rogamos, irmãos, que acateis com apreço os que trabalham entre vós, os que vos presidem no Senhor e vos admoestam; e que os tenhais com amor em máxima consideração, por causa do trabalho que realizam. Vivei em paz uns com os outros (1 Tessalonicensses 5.12-13).
     Obedecei aos vossos guias, e sede submissos para com eles; pois velam por vossas almas, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros (Hebreus 13.17).
DO GOVERNO     Todo homem esteja sujeito às autoridade superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus. De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador para castigar o que pratica o mal (Romanos 13.1-2,4).
AOS CIDADÃOS     Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Mateus 22.21).
     É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo também pagais tributos: porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem honra, honra (Romanos 13.5-7).
     Antes de tudo exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, par que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus nosso Salvador (1 Timóteo 2.1-3).
     Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades; que sejam obedientes (Tito 3.1).
     Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor; quer seja ao rei, como soberano; quer às autoridades como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores, como para louvor dos que praticam o bem (1 Pedro 2.13-14).
AOS MARIDOS
     
Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, por isso que sois juntamente herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam vossas orações. (1 Pedro 3.7)
     E não as trateis com amargura (Colossenses 3.19).
ÀS ESPOSAS
     
Vós, mulheres, sede submissas a vossos próprios maridos, como ao Senhor, como fazia Sara, que obedeceu a Abraão, chamando-lhe senhor, da qual vós vos tornastes filhas, praticando o bem e não temendo perturbação alguma (Efésios 5.22; 1 Pedro 3.6).
AOS PAIS     Vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor (Efésios 6.4; Colossenses 3.2).
AOS FILHOS     Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra (Efésios 6.1-3).
AOS EMPREGADOS E TRABALHADORES     Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor, e não como a homens, certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre (Efésios 6.5-8).
AOS PATRÕES     Vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus, e que para com ele não há acepção de pessoas (Efésios 6.9)
À MOCIDADE EM GERAL     Vós, jovens, sede submissos aos que são mais velhos; outrossim no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede a sua graça. Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte (1 Pedro 5.5-6)
ÀS VIÚVAS     Aquela que é verdadeiramente viúva, e não tem amparo, espera em Deus e preserva em súplica e orações, noite e dia; entretanto a que se entrega aos prazeres, mesmo viva, está morta (1 Timóteo 5.5-6).
A TODOS EM GERAL     Amarás ao teu próximo como a ti mesmo (Romanos 13.9).
     Exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens (1 Timóteo 2.1).
Aprendam todos a lição.
     E em tudo em casa bem irão.

Leitura Bíblica para a Quaresma 2026

Você sabe o que é a Quaresma? Muita gente acha que é o tempo de sofrimento e privação (jejum etc...) que começa depois do carnaval. Infelizm...