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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Culto Luterano - O culto litúrgico 2

B. Conhecendo a História
É praticamente impossível compreender o culto luterano sem conhecer a história do culto litúrgico. A Igreja Luterana, por natureza, é conservadora teológica e liturgicamente. As igrejas reformadas do século XVI sustentavam que somente práticas ordenadas pelas Escrituras deveriam ser mantidas no culto público. Os reformadores luteranos adotaram um princípio mais conservador. Os luteranos estavam convencidos de que somente o que fosse proibido pela Escritura deveria ser abolido. Dessa forma, a Igreja Luterana não promoveu uma ruptura radical com a Igreja da pré-reforma, e sim, uma continuidade com tudo que aconteceu nos primeiros 1500 anos. Mais, os reformadores luteranos entenderam-se como herdeiros das práticas de culto do AT.
As igrejas reformadas acreditavam ser possível retornar aos dias da simplicidade primitiva dos apóstolos. Os luteranos entendiam que isto era impossível, pois havia uma interveniência de 1500 anos de história. Os luteranos se reconheciam mais ricos por causa desses 1500 anos e quiseram reter essas riquezas da história do cristianismo. A liturgia e a riqueza das práticas de culto faziam parte dessa história.
A igreja apostólica, sem dúvida, era uma igreja litúrgica — ela possuía uma ordem de culto, ela cumpria a ordem do Senhor de pregar, de batizar e de celebrar a Santa Ceia. Em Atos 2.42 está registrado que a Igreja Apostólica, imediatamente após o Pentecostes, “perseverava na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” Além disso, o NT está cheio de cânticos litúrgicos, no Evangelho de Lucas (Lc 1.46-56; 1.67-80; 2.25-32), nas cartas do apóstolo Paulo (Fp 2.6-11) e no Apocalipse (Ap 7.9-12, 14.1-5). As leituras (Cl 4.16; 1Ts 5.27; 1Tm 4.13, Ap 1.3), as exposições, as orações e cânticos e salmos, próprios da liturgia das sinagogas, foram assumidos pela igreja do NT e encontraram espaço em nossa liturgia contemporânea.
Os apóstolos seguiram a ordem que o Senhor lhes dera com relação à celebração da última Ceia, realizando regularmente esta Ceia que era feita dentro do ritual judaico. Um importante ponto de encontro dessa Ceia é a bênção após as refeições e o “cálice da bênção”. Essa Ceia judaica e a bênção influenciaram a liturgia do Sacramento na forma como a temos hoje. Vejamos: no início da Ceia era feita a saudação “o Senhor seja convosco”. A resposta, genuinamente hebraica, era “e com o teu espírito”. Da mesma forma a resposta prevista para as orações permaneceu e permanece até hoje sem tradução: “Amém”. Acredita-se que as palavras “é verdadeiramente digno, justo e do nosso dever...” foram adaptadas por uma congregação primitiva de uma tradição mais antiga. Tudo indica que até mesmo a primeira frase do nosso “Sanctus” provém daquela época. É evidente que a Ceia não era uma Ceia comum, mas um banquete sagrado. Ceias ordinárias nutrem para a existência humana, mas essa Ceia oferece nutrimento para a vida com Deus.
Em sua primeira Apologia, Justino o Mártir (150 A.D.) oferece um relato da celebração eucarística cristã. Lendo esse relato, o cristão de hoje é confrontado por duas coisas: A primeira é a grande ênfase que Justino coloca em coisas aparentemente sem importância, como o Amém da congregação, o qual indica que é a comunidade que celebra o Sacramento. Na comunhão, a comunidade inteira estava unida. A segunda é a importância da ação de graças.
A Ordem de Culto da Igreja Egípcia, frequentemente atribuída ao presbítero romano Hipólito, foi provavelmente completada antes de 215 A.D. Quando os presbíteros e bispos tomavam o pão e o vinho, iniciavam com a conhecida fórmula: “O Senhor seja convosco. E com teu espírito. Levantai os vossos corações. Levantemo-los ao Senhor. Demos graças ao Senhor nosso Deus. Assim fazê-lo é digno e justo.” O que deve ser observado é que isso era uma descrição e não uma prescrição. Até então ainda não havia uma fórmula completamente fixa, mas somente uma estrutura. Hipólito, em seu texto, está apenas nos dando uma sugestão. As orações litúrgicas do terceiro século permaneceram ainda elásticas, e continuamente foram objetos de mudança e novas influências. Havia, porém, uma ordem unificada, um conjunto de regras flexíveis que tinham o selo da autoridade do costume. Todavia, não podemos em sentido amplo, falar de uma liturgia unificada do primeiro século.
Os dois mais importantes testemunhos do quarto século vêm de Alexandria no Egito, o Eucológio (livro de orações e liturgia) do Bispo Serapion e a Constituição Apostólica de Antioquia, Síria. As constituições Apostólicas são também conhecidas como a liturgia de Clemente. O esboço externo (ideias gerais) dos usos litúrgicos no Oriente são claramente percebidos na liturgia de Clemente. As prescrições daquela liturgia estavam destinadas a ser ampliadas e estabelecidas pelo grande pregador de Antioquia, São João Crisóstomo. Ainda que o quarto século fosse um período de vivo desenvolvimento, o antigo esboço litúrgico se manteve intacto. No Oriente, as celebrações assumiram um esplendor gradativamente maior, os clérigos apareciam em vestimentas esplêndidas, foram introduzidas luzes e incenso nos cultos e também se desenvolveu, a partir de então, a cerimônia externa da genuflexão. Muito do esplendor da corte bizantina foi adotado pela igreja.
A influência do Oriente deve ser olhada com seriedade, mas a nossa liturgia é de origem latina. As liturgias do Ocidente podem ser divididas em duas grandes famílias, a Afro-Romana e a Gálica. Essas liturgias eram importantes não porque continuaram em uso, mas por causa da influência que ambas exerceram sobre a liturgia romana. Enquanto que a Gálica era mais florida e pomposa, a Afro-Romana era mais austera. A elaboração posterior da liturgia romana é uma influência direta da tradição gálica. O que sabemos a respeito da missa do século VI veio a nós por intermédio dos escribas Francônios dos séculos VIII e IX. Tudo indica que o conteúdo do Cânon Romano ao qual Lutero rebateu tão veementemente durante o período da Reforma já vinha daquele período. Especialmente, a forte ênfase do sacrifício da missa que transparece nas orações.
A moldura da Missa Romana deve ter sido essencialmente determinada no V século. Depois da era de Gregório o Grande (590 A.D.) encontraremos algumas pequenas modificações. As Missas do século VII, adotadas pelas sete igrejas de Roma, têm um grande significado para os desenvolvimentos litúrgicos posteriores. O culto atingiu um momento de estabilidade quando todos os elementos que o compõe foram colocados por escrito. Possuindo uma forma definida e determinada, o culto solene pode ser transmitido com facilidade aos outros territórios.[1]
Em 754 o Rei Pepino, pai de Carlos Magno e, posteriormente, o próprio Carlos Magno, buscando uma padronização que servisse à unidade do império, decretou a aceitação da Liturgia Romana em territórios Franco-Germânicos.[2] A Liturgia Romana adquiriu um novo lar. Por 200 anos seu desenvolvimento foi em solo Franco-Germânico, em cuja forma retornou à Roma e se tornou o modelo até o período anterior a Reforma.
Nos territórios Franco-Germânicos a missa se tornou cada vez mais clericalizada, as pessoas comuns não entendiam o latim. Um novo tipo de disciplina do secreto se desenvolveu: a separação das coisas sagradas, não dos não cristãos (dos de fora da igreja) e sim, do próprio povo da igreja. O conceito de igreja como corpo de Cristo tornou-se cada vez mais estranho, a igreja tornou-se uma estrutura hierárquica entre clérigos e leigos. A divisa entre o altar e o povo, entre os clérigos e leigos, entre aqueles que tinham o dever de oficiar a ação sacramental e aqueles que formavam a congregação celebrante, aumentou cada vez mais.
Essa situação inclusive manifestou-se na arquitetura. O altar foi fixado na parede dos fundos. A antiga forma de reunir o povo ao redor do altar para a celebração da Santa Ceia, foi trocada, tendo o sacerdote parado de costas para a congregação e celebrando a missa numa linguagem desconhecida. Enquanto a congregação dos fiéis permanecia muda, testemunhando o espetáculo. Cada vez mais a missa se tornou um mistério de Deus vindo ao homem, um mistério que deveria ser contemplado e adorado à distância. E foi esse reducionismo da missa que passou a ganhar aceitação generalizada em torno do ano 1000 A.D., ao retornar para Roma.
O período Gótico viu não somente uma grande ornamentação das igrejas, mas também da liturgia. A missa se tornou um drama sagrado, uma teatralização diante dos olhos dos participantes. O cerimonial se tornou elaborado, havendo uma multiplicação do sinal da cruz. Foi também neste período que as cores litúrgicas foram fixadas assim como as conhecemos até hoje.
A missa não só se tornou um teatro, mas também um meio de se fazer dinheiro. A missa podia ser comprada pelos seus bons efeitos sobre os vivos e os mortos. Pela compra das missas, os méritos do Cristo sofredor, comemorado na missa, eram disponibilizados. Os fiéis agora viam o sacerdote representando o drama do caminho da cruz de nosso Senhor, carregado de mistério, mediante o qual, os efeitos da morte de Jesus na cruz eram concedidos e atribuídos conforme solicitado. Esta forma produziu uma nova cerimônia em torno do Século XII — a elevação da hóstia e do cálice. Ver e testemunhar esse ato tornou-se o ponto alto da missa, ao invés de participar do corpo e do sangue na Ceia familiar de ação de graças.
Este mesmo período Gótico viu a descomunal multiplicação de missas, bem como um descomunal crescimento dos clérigos, os quais se mantinham só com a compra e a venda de missas. Comentaristas católicos desse período estão dispostos a admitir que Lutero corretamente criticava essa visão imprópria da missa.
Já em 1516, Lutero, ao pregar sobre o terceiro mandamento, enfatizava a necessidade de “ouvir a Palavra de Deus” em contraposição a “ouvir a missa”. Em 1520, Lutero advogava a comunhão sob as duas espécies, pelo bem da integralidade do sinal, em objeção à prática de se recitar em secreto as Palavras da Instituição. Em 1523 Lutero preparou um folheto de oito páginas, distribuído no período de Pentecostes, intitulado “Von Ordnung Gottesdiensts in der Gemeinde”. Esta foi a primeira tentativa de Lutero para estabelecer princípios para a ordem do culto, pois em dezembro de 1523, ele elaboraria a sua Formula missae et communionis.
Nesta ordem Lutero aprova os Introitos para os domingos e dias de festa, o Kyrie, o Gloria in Excelsis, a Coleta, a Epístola, o Gradual, o Evangelho (com suas cerimônias usuais), o Credo Niceno, o Sermão (nesse momento ou antes do introito), o Prefácio, as Palavras da Instituição (cantadas audivelmente), o Sanctus, o Hosana, a Elevação, a Oração do Senhor, a Pax, a Administração, o Agnus Dei ou Hino da Comunhão, a Coleta, o Benedicamus e a Bênção Arônica (Aarônica). Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os antecedentes desta forma se encontram na missa celebrada em Wittenberg antes da Reforma.
Em 1526, Lutero finalmente deixou convencer-se com relação a uma liturgia no vernáculo, elaborando a Deutsche Messe. Mesmo tendo seguido o esboço da liturgia Franco-Romana da Idade Média, ele a simplificou, substituindo partes da liturgia por hinos no vernáculo bem conhecidos.[3]8
Lutero também promoveu reformas na ordem do Batismo em 1523 e 1526, na ordem para o casamento, na ordem para a Ordenação em 1525, na Litania em latim e alemão, em coletas e em 38 hinos. O seu alvo era promover a participação ativa da Congregação no culto. Como um teólogo da Bíblia, Lutero tinha plena consciência da importância do culto para toda a família de Deus.
A Reforma em terras germânicas e países escandinavos foi amplamente supervisionada por Príncipes, Duques e Reis. Quando o Bispo não assumia a liderança das reformas em terras germânicas era necessário tornar o Príncipe em “Bispo emergencial”. E, mesmo em países escandinavos, sempre que os bispos não cooperavam, a Reforma adquiria um sentido nacionalista, onde as reformas se produziam de nação em nação.
Em territórios alemães as visitações aconteciam sob os auspícios do Príncipe ou do Duque. Os resultados e a regulamentação dessas visitas podem ser observados nas ordens eclesiásticas (Kirchenordnungen) que foram produzidas. Tais ordens tinham força de lei e estabeleciam os métodos da reforma do culto. Mormente, as reformas da liturgia seguiam dois caminhos principais: os mais conservadores seguiam como seu modelo a Formula Missae de 1523, enquanto outros adotavam a Deutsche Messe de 1526. Apesar da diferença, havia concordância substancial nas ordens, pois ambas estavam casadas com a histórica tradição litúrgica da igreja. A Reforma Luterana não foi uma revolução radical. Não existia a intenção de separar-se da igreja histórica. Mesmo que não se buscasse uma uniformidade rígida, havia uma preocupação respeitosa com a vida de culto tradicional da igreja.[4]
No que concerne à Igreja Evangélica Luterana, quando o período da Reforma terminou em torno do século XVI, ela também viveu o fim de seu desenvolvimento litúrgico. Os séculos subsequentes testemunharam o declínio da vida e do culto na igreja.
Um dos fatores mais destrutivos foi a Guerra dos Trinta anos (1618-1648). A vida na igreja, na maior parte da Alemanha Luterana, chegou a uma estagnação. A igreja na Alemanha ficou reduzida a uma pobreza penalizante, não somente em termos materiais, mas também no que se refere à preocupação com a espiritualidade e a sua cultura litúrgica e musical. Estima-se que a população foi reduzida de 16 para 6 milhões de habitantes em consequência de conflitos armados, fome, doença e imigração.
Outro agente corrosivo na vida litúrgica foi o surgimento do Pietismo. O Pietismo produziu um tipo desequilibrado de cristianismo que superenfatizava a experiência pessoal, a vida e a conduta. Por sua forte oposição aos “prazeres do mundo” encorajava um novo tipo de ascetismo que conduziu ao legalismo e ao criticismo dos ainda “não reavivados”. Na medida em que o cristianismo pessoal era supervalorizado, a objetividade dos Meios da Graça era cada vez mais desvalorizada. A liturgia histórica da igreja deu lugar a expressões de emoções e ideias individuais. O Pietismo, com suas limitações intensamente pessoais, não mais entendeu, nem usou o que permaneceu das formas ricas e polidas do sistema litúrgico-histórico da igreja.
O Pietismo, carecendo de força intelectual, rapidamente se esgotou e foi substituído pelo Racionalismo ou Iluminismo. O Pietismo, pelo menos, podia ser reconhecido como um movimento cristão. O Iluminismo, no entanto, superou até aquilo que é considerado superstição de origem cristã, substituindo o plano divino da redenção por um ideal de felicidade. Interesses práticos ao invés de doutrinas ou alta espiritualidade, eram abordados nos púlpitos. A Escritura foi minimizada e os milagres, explicados como causas naturais. Dentro da esfera do culto, o Racionalismo foi totalmente destrutivo. O culto foi mutilado de tal forma, que não podia ser reconhecido como tal. O templo se tornou um mero lugar de reunião, o púlpito uma plataforma de preleções, da qual o ministro oferecia instruções morais. O Sacramento do Altar foi reduzido a uma forma vazia e já não era mais celebrado a cada domingo e dias santos, mas observado à feição dos reformados, quatro vezes ao ano.[5]
No início do século XIX houve uma conscientização por parte de alguns, de que a vida da igreja estava em decadência. Em 1817, durante a celebração do tricentésimo aniversário da Reforma, Claus Harms editou um novo conjunto de 95 teses, onde conclamava a igreja a retornar a sua base teológica. Foi em boa hora que isso ocorreu. Nuremberg, partes da Saxonia, Mecklenburg, e alguns outros poucos lugares, mantiveram muito do culto histórico com as vestimentas antigas e costumes e ainda muito das músicas antigas eram cantadas em latim. O espírito do culto havia desaparecido, e as igrejas estavam vazias. Em outros lugares as ricas formas litúrgicas há muito haviam desaparecido, dando lugar a uma ordem vazia, conduzida somente pelo ministro.
Em 1822, Frederico Guilherme III da Prússia, o qual julgava-se um entendido de liturgia, publicou uma agenda para uso em todas as igrejas evangélicas de seu reino, ambas, Luteranas e Reformadas. Essa foi uma tentativa de se reconduzir o culto cristão à sua fundamentação histórica e de se recuperar um entendimento da liturgia. Mas essa tentativa encontrou resistência, principalmente porque o mesmo fazia parte de um movimento que tentava unir Luteranos e Reformados em uma única igreja. A essa altura, é importante é importante observar que esse foi o fator precipitante que levou Martin Stephan, pastor da Igreja “São João” em Dresden, a liderar um grupo de pessoas da Alemanha para a América (Perry County, Mo). A objeção não era tanto aos abusos nos cultos, e sim, à frouxidão doutrinária que acompanhava as tentativas de forçar Luteranos e Reformados a se tornarem uma única igreja. Na verdade, o maior interesse dos Luteranos Saxões de Perry County estava em restaurar as normas que eram próprias do Culto Luterano, ou seja, voltar às origens.
Um dos mais qualificados proponentes desse retorno ao culto histórico litúrgico e sacramental era Wilhelm Loehe, pastor na vila de Neuendettelsau, na Bavária. Loehe era um homem da teologia confessional. E foi essa teologia que o levou a ter uma mente aberta para missões, preocupar-se com o bem estar social, e o determinou a restaurar o culto como o centro da vida da igreja. Várias agendas foram lançadas por Loehe, retornando às normas estabelecidas pelos Reformadores Luteranos. Uma dessas agendas foi escrita especialmente para o Sínodo de Missouri e foi amplamente usada no sínodo.
O século XIX viu um reavivamento da Teologia Confessional, tanto na Alemanha, como nos Estados Unidos. Sínodos confessionais foram organizados, e juntamente com esse reavivamento da Teologia Confessional, veio um reavivamento do culto litúrgico e sacramental.
Os luteranos de fala inglesa estavam usando material de culto e ordens litúrgicas que estavam muito próximas das usadas por seus vizinhos protestantes. À medida em que a Teologia Confessional não estava sendo levada a sério, esses materiais de culto pareciam ser adequados. Mas quando a Teologia Confessional foi novamente levada a sério, a adequação de tais materiais foi questionada. Em 1860, um Concílio Geral lançou o Manual da Igreja, o qual, sem dúvida, apresentava a melhor liturgia em inglês até então, produzida pelos luteranos. Esse livro antecipou os princípios que foram mais especificamente levados a efeito na preparação do Culto Comum, 20 anos mais tarde.
Em 1888, o Sínodo Geral, o Sínodo Unido do Sul e o Concílio Geral, lançaram juntos uma versão da liturgia comum, o Culto Comum, o qual estava baseado nas ordens da igreja do século XVI, usando como modelo a Formula Missae de Lutero.
Enquanto a reforma litúrgica estava acontecendo em inglês, uma convocação estava sendo feita aos Germânicos do Sínodo de Missouri, no sentido de valorizarem sua rica herança litúrgica. O único defensor, que clamava ao Sínodo, para que esse levasse a sério o seu culto, era Friedrich Lochner, pastor em Springfield, Ill. Seu livro, Der Hauptgottesdienst (O Culto Divino Principal), chamou o Sínodo de volta à sua norma Confessional, de que, a cada domingo e dias santos, o Sacramento do Altar deveria ser celebrado como o principal culto paroquial.
Em 1912, o Sínodo de Missouri lançou seu primeiro hinário em inglês. O mesmo continha uma variante do Culto Comum, herdado do Sínodo de Missouri Inglês, o qual havia se juntado ao Sínodo de Missouri Germânico, em 1911. Foi esse hinário que se tornou a base para o The Lutheran Hymnal de 1941. E é nessa linha direta de desenvolvimento que o Lutheran Worship agora se firma.[6]
Quando em 28 de abril de 1899, a Convenção da LCMS o “Deutsche Evangelische Lutherische Synode von Missouri, Ohio und Andern Staaten”, decidiu começar o trabalho no Brasil, na verdade, não se estava abrindo uma missão externa, e sim, fazendo uma extensão do trabalho entre alemães que provinham de um país cristianizado.
A igreja em solo brasileiro, sendo herdeira da cultura alemã, bem como da prática litúrgica alemã, não precisou preocupar-se com grandes adaptações quanto a métodos e formas. Assim, a nossa prática litúrgica na fase inicial não passou de uma mera transferência geográfica, ainda que, segundo o Dr. Paulo W. Buss, os alemães do Brasil não aceitaram pacificamente todas as práticas litúrgicas que lhes eram propostas. Sendo natural que as congregações organizadas antes da vinda dos pastores missourianos oferecessem as maiores resistências. Essas, não estavam acostumadas a inscrição da Santa Ceia, ao sinal da cruz, uma frequência mais regular nos cultos e na Santa Ceia, uso modificado da confissão auricular, a uma forma mais democrática de administração (era praxe pastor e congregação acatarem decisões tomadas exclusivamente pela diretoria).
O Dr. Buss ainda lembra, que a situação econômica das primeiras congregações no Brasil, influenciou fortemente o desenvolvimento litúrgico na IELB: igrejas (capelas) simples e sem sinos, bancos sem genuflexórios, cruzes de madeira simples em vez de crucifixos mais requintados, batinas pretas ao invés de vestes litúrgicas completas.
Paralelamente, em 1917, com o rompimento diplomático com a Alemanha e a consequente proibição do uso da língua alemã no Brasil as igrejas tiveram dificuldades em dar continuidade ao trabalho, pois nem membros e pastores falavam e entendiam o vernáculo. Inicia-se assim o processo de indigenização na IELB: os primeiros hinos, partes da liturgia e orações são traduzidas para o português; começam as primeiras pregações em português nas reuniões sinodais; inicia-se a missão entre luso-brasileiros (1918 - Lagoa Vermelha, RS) e negros (1920 - Solidez, Canguçu, RS). Infelizmente, porém, com o término da guerra, o processo foi radicalmente interrompido. Por volta de 1938 apenas 16% dos cultos tinham pregação em português e apenas 40 dos 90 pastores e professores sinodais eram brasileiros natos.
Com o advento do estado novo, em 1941, o governo obrigou as igrejas a pregarem apenas em língua nacional. Um sermão em língua estrangeira poderia seguir o português nas áreas onde o mesmo não fosse entendido. Mas em 1942, a língua alemã foi totalmente proibida, transformando o distrito brasileiro da LCMS, finalmente e até certo ponto, numa igreja brasileira. Suspensa a proibição, em muitos lugares o alemão voltou a ser usado com certa regularidade.
Independente disso, a Igreja Brasileira já havia incumbido o Dr. Rodopho Hasse a confeccionar um Hinário em língua portuguesa, editado em 1938, conforme a ata da 24a Convenção Nacional, de 1940. O mesmo continha uma ordem de culto simplificada sem Santa Ceia e uma ordem de culto com Santa Ceia, o qual continha 217 hinos e uma seção com orações. Nesse mesmo ano, este hinário foi reeditado e ampliado para 314 hinos. Em 1949 foi ampliado para 340 hinos. Em 1974 recebeu um apêndice de 112 hinos.[7] Essa realidade permaneceu até 1986, quando foi lançado o atual Hinário Luterano, com linhas melódicas e 573 hinos. Sobre esse novo hinário convém ressaltar o seguinte:
1.    Foi ampliado, levando em conta a originalidade das músicas e das letras.
2.    Para acentuar a origem confessional da IELB, foram acrescentados o Catecismo Menor de Lutero (1529) e a Confissão de Augsburgo (1530), bem como a inclusão de duas ordens litúrgicas com celebração da Santa Ceia.
3.    Foi mantida a antiga ordem litúrgica (tradicional com Santa Ceia) e acrescida uma nova ordem de culto, procurando resgatar alguns elementos históricos: a Confissão e Absolvição como parte preparatória ao culto propriamente dito; o Credo posposto ao sermão, como a proclamação de fé diante da palavra ouvida e a relocação do Ofertório ao seu lugar original, como preparação à Santa Ceia.
4.    Foram acrescentadas as informações sobre os Domingos e Festas Maiores e Menores para mostrar as diferenças existentes entre o Ano Eclesiástico Tradicional e o Reformulado, em acordo com a renovação litúrgica a partir do Vaticano II (1962-1965).

Apesar desse novo Hinário Luterano ter tido como objetivo contemplar as diversas necessidades da igreja (atendendo a grupos mais tradicionais e as missões), a realidade mais uma vez está demonstrando que isso não aconteceu. O que aconteceu ao longo da história (1968, 1974 e 1977) com a elaboração de vários hinários para missão e ocasiões especiais, também aconteceu após a elaboração do novo Hinário Luterano, sendo elaborando um novo hinário (Louvai ao Senhor, 1988) visando atender mais especificamente as necessidades da missão, exclusivamente com relação ao canto e à música.
Com relação aos dois volumes da Liturgia Luterana, ainda em uso na IELB, desconhece-se qualquer explicação quanto à sua origem, impressão, tradução e autoria. Sabe-se apenas que ambos são uma “publicação autorizada pela Igreja Evangélica Luterana do Brasil”.[8] Por volta da década de 70, a Comissão de Culto e Liturgia recebeu a incumbência de fazer uma revisão destes dois volumes. Mas em 1980, com a adoção do sistema Trienal de leituras, a IELB também adotou o novo calendário litúrgico, obrigando-se a promover uma reformulação mais profunda, que começou com o lançamento do Preciso Falar Vol. VI em 1986, adequando os Introitos, as Orações do Dia (Coletas) e Graduais dos Domingos e Festas Maiores e Menores ao calendário reformulado. Desde então, a Comissão de Culto e Liturgia tem trabalhado na reformulação integral dos referidos volumes. Enquanto isso, a referida comissão, em conjunto com a Concórdia Editora, decidiu publicar num único volume a Liturgia Luterana, observando as adaptações ao novo calendário litúrgico e a Série Trienal.[9]
No período pós-guerra, principalmente de 1945 a 1960, ainda não se dava muita atenção às questões litúrgicas. O Ano da Igreja frequentemente era substituído por leituras que atendessem o ano civil, os sermões em geral seguiam temas livres, não respeitando as leituras e os temas designados para a ocasião, as orações fugiam do tema do sermão e do Domingo. Mesmo que a IELB tivesse uma proposta de ordens litúrgicas no hinário, as inovações e alterações eram muito comuns. A passagem do uso da liturgia chamada “antiga” para a “nova” ordem litúrgica (que é a Liturgia II do HL e, na verdade, era mais tradicional e, portanto, mais antiga), foi lenta e gradativa.[10] A questão da conscientização litúrgica na IELB é um processo recente, pertencente basicamente às últimas duas décadas, o que pode ser demonstrado por várias maneiras:
1.       Estudos e palestras em Convenções e Congressos;
2.       Moções em Convenções: sobre reformulação do Hinário, manuais e vestes litúrgicas.
3.       Publicação de Manuais e literatura sobre culto e liturgia.
4.       Publicação de artigos em revistas teológicas e no Mensageiro Luterano.
5.       Publicação do Vivendo em Cristo (1987), contendo uma unidade exclusivamente tratando do culto (O Culto Cristão, pp.188-223).
6.       Além do currículo normal, foram oferecidas disciplinas optativas sobre litúrgica nos seminários.
7.       A Comissão de Culto e Liturgia oferecendo novos materiais de culto.
8.       O incentivo às celebrações dominicais da Santa Ceia e cultos regulares e dominicais em todas as congregações (Projeto Portas Abertas).
9.       Provisão dentro do lema da IELB para a última década, com uma ênfase específica ligada à questão do culto na igreja — Adorando como Filhos de Deus (1998).
10.   O uso generalizado de paramentos em acordo com as cores litúrgicas.

Apesar de todo esse esforço, empreendido na valorização das nossas raízes históricas de sermos uma igreja litúrgica, nos ressentimos de não termos alcançado uma indigenização que levasse em conta a cultura e as características peculiares do povo brasileiro.




[1] Com a invenção da imprensa a possibilidade da padronização litúrgica foi ampliada. No início do séc. 16 havia cerca de 200 variedades de missais em uso. Tanto católicos como não católicos se convenceram que a uniformidade litúrgica representava um avanço. Hoje, a variedade de ministérios em várias culturas exige uma abordagem mais pluralista da liturgia. James F. WHITE, op. cit., p.. 32.
[2] Id. Ibid., p.186.
[3] Id. Ibid., pp.118 e 188.
[4] Nelson KIRST, Liturgia. In.: Teologia Prática no contexto da América Latina. São Leopoldo, Sinodal e São Paulo, Aste, 1998, p.125.
[5] James F. WHITE, op. cit., pp.118-119. Nelson KIRST ainda lembra que “foi Zwínglio - e não Lutero nem Calvino - que transformou um culto especial de pregação, chamado pronaus, no culto dominical, eliminando com isso a Eucaristia.” op. cit., p.124.
[6] Fonte: “Guide to Introducing Lutheran Worship” CPH, St. Louis, 1981. Reprinted in Worship Toward 2000 - Resource Packet, Commission on Worship, LCMS, 1992, pp.2-8.
[7] Paulo W. BUSS, In: Uma Proposta Litúrgica para a IELB - Estudo apresentado à 50a CN da IELB, em São Leopoldo, de 21-26 de janeiro de 1986, pela Congregação de Professores da EST-IC de São Paulo, pp.10-12. Contatos com diversos pastores mais antigos, nos levaram a concluir que entre os anos 40 e 60 o Prof. Paul W. Shelp produziu diversas edições de agendas para o culto. Os volumes I e II da agenda litúrgica para pastores surgiu no final da década de 60, tendo o Rev. Rodolpho Hasse como seu principal tradutor.
[8] Id. Ibid., p.12.
[9] No meio do caminho as trienais mudaram novamente, e decidiu-se por fazer 2 volumes das liturgias.
[10] Id. Ibid, pp.12-13.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Culto Luterano - O culto litúrgico 1

II - O Culto Litúrgico - História e Teologia

A. Definindo Termos
Não é fácil falar e definir um assunto que é tão amplo como a história do próprio homem. Mas, precisamos fazê-lo de alguma forma, pois é importante entender o que estamos fazendo quando nos reunimos. James F. White nos serve de auxílio nessa grandiosa empreitada, mostrando como diferentes pensadores protestantes, católicos e luteranos usam o termo.
Escrevendo a partir da tradição metodista, o professor Paul W. Hoon define a vida cristã como sendo uma vida litúrgica. O culto para ele está vinculado diretamente aos eventos da história da salvação. Para ele, o núcleo do culto é “Deus agindo para dar a sua vida ao ser humano e para levar o ser humano a participar dessa vida”. As palavras-chave na compreensão de Hoon sobre culto parecem ser “revelação” e “resposta”. Trata-se, portanto, de uma relação recíproca em que Deus toma a iniciativa em relação ao homem por meio de Jesus Cristo e nós, por meio de Jesus Cristo, respondemos usando uma variedade de emoções, palavras e ações.
Jean-Jaques von Allmen, escrevendo dentro da tradição reformada, defende vigorosamente o culto cristão como sendo a recapitulação daquilo que Deus já fez. Para ele o culto “resume e confirma sempre de novo a história da salvação, cujo ponto culminante se encontra na intervenção encarnada do Cristo”. Von Allmen ainda descreve o culto como sendo a “epifania da igreja”, visto que, ao resumir a história da salvação, capacita a igreja a tornar-se ela mesma, tomar consciência de si mesma e se confessar entidade específica. Finalmente, ele acrescenta que culto é ao mesmo tempo ameaça de juízo e promessa de esperança para o próprio mundo. O culto, portanto, para von Allmen tem três dimensões-chave: recapitulação, epifania e juízo.
Na Igreja Católica Romana é comum descrever o culto como “a glorificação de Deus e a santificação da humanidade”. A origem dessa definição é do papa Pio X, que em ao falar sobre música na igreja em 1903, disse que o culto deve ser para “a glória de Deus e a santificação e edificação dos fiéis”. A mesma definição se repete com Pio XII e aparece com frequência na Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II em 1963, porém, invertendo essa ordem, ou seja, fala primeiro da santificação do ser humano e então da glorificação de Deus. Felizmente mais tarde, se chegou à conclusão que glorificação e santificação formam uma unidade. Tanto a glorificação de Deus quanto a santificação das pessoas caracterizam o culto cristão.
Peter Brunner, representando o pensamento luterano, se vale do termo cunhado por Lutero — Gottesdienst, que tem tanto a conotação de serviço de Deus aos seres humanos quanto a de serviço dos seres humanos a Deus. Com respeito ao culto, Brunner cita palavras do próprio Lutero, “que nele [culto] nenhuma outra coisa aconteça exceto que nosso amado Senhor ele próprio fale a nós por meio de sua santa palavra e que nós, por outro lado, falemos com ele por meio de oração e canto de louvor”[1].
Para os luteranos, o culto é mais do que uma via de mão dupla; ele pressupõe a ação anterior de Deus e, a partir disso, provoca a resposta do homem. Por isso, entre os luteranos, se afirma que o culto é teocêntrico (centralizado em Deus), é cristocêntrico (centralizado naquilo que Deus fez por nós em Cristo) e espiritocêntrico (centralizado na ação do Espírito Santo pelos meios da graça).[2]
O termo liturgia, apesar de clássico e consagrado, é recente. O termo é pouco encontrado em documentos oficiais da igreja, ante do século XX, ganhando popularidade somente no século XXI. Muitas definições, mesmo que tendo sido elaboradas por grandes nomes, mereceram reparos.
Do início do movimento litúrgico (1909) até o Concílio Vaticano II (1962-1965), a maioria dos autores tentou chegar a uma definição de liturgia que englobasse tanto sua natureza quanto suas características essenciais. A dificuldade de fazê-lo residia no fato de a liturgia ser “uma realidade ao mesmo tempo viva e rica. Só participando dela é que pode ser compreendida. Ela não permite ver-se encerrada em conceitos”.[3]
De acordo com Arthur A. Just, uma das melhores definições é a que entende o termo leitourgia como sendo um serviço, um dever de estar na presença do Deus vivo, devido ao que Jesus é — o Ungido de Deus que veio para realizar a salvação do mundo, e devido ao que nós somos — os ungidos de Deus que carregam em seus corpos a plenitude da salvação. E nesse sentido, cristãos se reúnem para fazer liturgia, não para divertir-se — pois talvez até nem gostem da mesma, não para fazer algo que seja bom para eles, ainda que fato seja, mas eles se reúnem para fazer algo que é bom para o mundo.
Portanto, nosso foco litúrgico não é para dentro, e sim, para fora. Primeiro ele se dirige a Deus em Cristo por meio do Espírito Santo, depois se dirige para o mundo ao qual Cristo foi enviado pelo Pai no Espírito para redimir e restaurar o mundo ao seu Criador.[4]




[1] James F. WHITE, Introdução ao Culto Cristão. São Leopoldo, IEPG e Sinodal, 1997., pp.14-18.
[2] William J. SCHMELDER, Por esta Causa me Ponho de Joelhos - Manual do Líder. Porto Alegre, Concórdia, pp.14 e 15.
[3] Aimé G. MARTIMORT, A Igreja em Oração - Introdução à Liturgia. Vol. I. Petrópolis, Vozes, 1988, pp.31-33.
[4] Arthur A. JUST, Liturgy as Pastoral Care. (ensaio não publicado), 1985, pp.3 e 4.

domingo, 3 de janeiro de 2016

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Coroa de Advento

Tomo a liberdade de publicar um texto do pastor Horst Kuchenbecker sobre o Advento. Muito importante, especialmente no caso deste tempo em que vivemos (não o Advento), mas a nossa atualidade, quando a Igreja (ou melhor, as igrejas) perdeu o sentido de liturgia, ano litúrgico, e mesmo culto. Outro dia, vi um vídeo do Youtuber Franklin Medrado, no qual ele lembrava que "antigamente" o culto tinha início, meio e fim... E hoje vai "na liberdade do Espírito" (aqui palavras minhas)... O problema é que esta liberdade do Espírito normalmente não tem nada a ver com o Espírito Santo, pois o Espírito Santo de Deus sempre traz as coisas com ordem e decência e o que vemos são cultos onde não se sabe o que vem depois e nem por que vem...
Então, viva o Advento, nesta ordem que existe, sabendo que, mesmo nesta ordem, o Advento do Menino Jesus já passou e hoje vivemos o segundo Advento (que dura, na verdade, o tempo em que este mundo durar, mas o lembramos mais neste período de cada ano)...

Eis o texto do pastor Horst:


Advento é tempo de júbilo e de alegria para a cristandade. A razão do júbilo é Cristo. Pois Advento significa vinda, chegada. Os quatro domingos de Advento lembram os quatro mil anos, nos quais o povo de Deus esperou pelo nascimento do Salvador Jesus. A primeira promessa da vinda de um salvador foi dada por Deus a Adão e Eva, logo após a queda destes em pecado (Gn 3.15). A promessa foi repetida muitas vezes aos patriarcas e profetas (Hb 1.1-3). Desde Adão e Eva, muitos fiéis esperaram ansiosamente pelo cumprimento desta promessa de Deus, até que finalmente, “o tempo se cumpriu” (Gl 4.4), e o Salvador Jesus nasceu em Belém da Judéia (Lc 2.4-7).
Hoje, olhamos para trás e observamos como o povo de Deus do passado aguardava a vinda de Jesus. Eles meditavam nas misteriosas profecias, buscando nelas consolo, orientação e forças para a caminhada esperançosa. Deles queremos aprender a confiar na Palavra de Deus, a lutar e esperar, pois também nós vivemos em tempo de espera. Esperamos a segunda vinda de Cristo. Em breve Jesus voltará, não mais humilde, mas em grande glória e poder, com todos os santos anjos, para julgar vivos e mortos (At l1.11;17.31). Então criará novo céu e nova terra (Ap 21.1), para habitar com os fiéis eternamente.
No tempo de advento, muitas igrejas estão enfeitadas com a coroa de advento. Este símbolo ainda não tem muita história na Igreja cristã. Ele se firmou como símbolo de Advento na Europa, após a primeira guerra mundial. Mas, sua simbologia é muito significativa. Vejamos.
    
A COROA
A coroa simboliza vitória e poder. Coroas são usadas para festejar vitórias. Soldados e atletas vencedores são homenageados com coroas. Os cristãos passaram a usar coroas também em seus atos fúnebres, para declarar: Nossos irmãos falecidos são vencedores, pela graça de Cristo. As coroas expressam a esperança e certeza da ressurreição.
A coroa de Advento quer anunciar a vitória de Cristo sobre: pecado, morte e Satanás. Seus ramos verdes falam da nova esperança, da vida e da alegria que aguarda os fiéis na eternidade, pois cremos na “remissão dos pecados, ressurreição da carne e na vida eterna.”
A fita vermelha simboliza o sangue de Cristo que nos purifica de todos os pecados (1 Jo 1.7). Esta fita envolve a coroa, assim o sangue de Cristo envolve toda a vida cristã e dá certeza do perdão, concede paz e firma na esperança da vida eterna.
A coroa de advento tem o formato de um anel, que lembra a aliança de amor. Uma aliança que envolve os que nela participam. A coroa de Advento fala do amor de Deus em Cristo, da nova aliança de amor com aqueles que nele crêem. Este amor penetra os corações e concede vida nova. Pela fé em Cristo, somos novas criaturas. Isto se revela no dia a dia e perpassa a vida familiar, profissional, social, nossas alegrias e tristezas, a tal ponto que também a coroa de espinhos, que Jesus carregou e pela qual santificou nossos sofrimentos. Sabemos “que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que temem e amam a Deus” (Rm 8.28).

AS VELAS
A coroa de Advento é enfeitada com quatro velas vermelhas e algumas colocam uma vela branca no centro da coroa. As quatro velas lembram os quatro mil anos em que o povo de Deus esperou pelo nascimento do Salvador Jesus. Cada vela quer simbolizar e anunciar um conteúdo bem específico. Jesus a luz do mundo: que veio para libertar, trazer a paz e voltará para julgar vivos e mortos. Ele enche nossa alma de alegria, paz e esperança.

1ª VELA – Jesus, a luz do mundo
A primeira vela, acesa no primeiro domingo de Advento, anuncia que Jesus é o verdadeiro Filho de Deus, a luz do mundo, nosso Salvador, conforme a promessa dada a Adão e Eva: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). O que dizem estas palavras? Adão e Eva pecaram. O pecado os separou de Deus e os tornou réus da eterna condenação. Agora, corrompidos pelo pecado, eram espiritualmente mortos e escravos de Satanás. Tudo estava perdido. Não podiam libertar-se. Trêmulos estavam diante de Deus. Eles esperavam a sentença condenatória. Mas quando Deus começou a falar, que surpresa. Deus se colocou ao lado deles e disse: Vou salvar vocês. A guerra que vocês perderam eu vou retomar e lutar em vosso lugar. Vou salvar-vos pelo descendente da mulher que é Jesus, meu próprio e unigênito Filho. Jesus esmagará a cabeça da serpente, que é Satanás, e trará à humanidade plena e completa salvação. E todo aquele que confiar nesta promessa, nesta salvação que Deus prometeu, será salvo. Que maravilha. Ao longo da história, Deus foi explicando esta salvação e iluminando esta tão preciosa promessa com detalhes. Confira algumas das promessas: Gn 9.13,27; Gn 12.1-3; Gn 49.10; Dt 18.15; 2 Sm 7.11-16; Is 4.2-4; Mq 4.1-4; Jr 30.21,22; Zc 9.9; Jr 23.5,6; Ez 34.23,24; Jr 28.16; Zc 6.l2,13).
Finalmente, “vindo a plenitude do tempo (Gl 4.4), o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos sua glória, glória como do unigênito de Pai” (Jo 1.14). Jesus veio em profunda pobreza e humildade. A grande maioria, infelizmente, não o reconheceu. Não o reconheceram, porque não deram atenção às profecias. Sonhavam com um libertador dos sofrimentos terrenos. Após três anos de ministério, tendo ressuscitado de Lázaro, o povo de Jerusalém recebeu a Jesus cantando: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!” (Mt 21.9), mas isto foi só um momento de entusiasmo. Pouco depois, vendo-se frustrados em suas esperanças materiais, eles levantaram seus punhos contra Jesus e gritaram: “Crucifica-o, crucifica-o! Não queremos que este reine sobre nós!” (Mc 15.13; Lc 19.14). O evangelista João, escreve no seu evangelho: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1.11). Hoje, não somos melhores do que o povo no tempo de Jesus. Mesmo tendo diante de nós as profecias cumpridas, questionamos a Palavra de Deus e duvidamos do amor de Deus para com a humanidade. Quantas vezes  nos afastamos dos caminhos de Deus e não queremos que Jesus governe sobre nós? Precisamos reconhecer nossa incredulidade e nos arrepender. Suplicar a Jesus por perdão, apegar-nos e confiar em sua promessa de perdão. E então, como filhos de Deus pela fé na graça, renunciar ao diabo e ser fiel a Cristo na fé, nas palavras e nas obras até ao fim.  
Que consolo! Jesus veio salvar a humanidade e livrá-la do pecado, da morte e do poder de Satanás. E todos os que confiam em sua palavra têm o que as palavras lhe oferecem, dão e selam: perdão dos pecados, vida e eterna salvação. O que crê, recebe a adoção de filho de Deus e herdeiro da vida eterna. Ao acendermos a vela diante do altar e ou ao contemplarmos a vela acesa, queremos renunciar ao diabo, entregar-nos a Deus e pedir que ele nos firme nesta fé, para lhe sermos fiéis até ao fim.  

2ª VELA – Jesus, o Libertador
A segunda vela, acesa no segundo domingo de Advento, lembra a grande libertação que Jesus trouxe. Jesus veio para libertar. Ele disse aos judeus: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). Os judeus responderam a Jesus, como muitos hoje: “Jamais fomos escravos de alguém”, e não se aperceberam de quanto eram escravos do pecado, da morte e de Satanás; incapazes de libertarem-se por próprias forças, e de que precisavam de um salvador.
“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36), disse Jesus. Esta libertação é a libertação de nossos verdadeiros inimigos. O inimigo número um está dentro de nós, e é o pecado original, nossa natureza egoísta e corrompida pelo pecado, inclinada para todo o mal e sujeita à condenação (Ef 2.3). Cristo nos libertou da dívida, do castigo e do domínio do pecado. O inimigo número dois é a morte. A morte não é algo natural, mas um intromissor. Deus disse: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23.) Jesus venceu a morte. Ele disse: “Eu sou ressurreição e a vida. Quem crer em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11.25). Cristo nos libertou do poder da morte. Não preciso mais temer a morte corporal, porque a morte eterna não tem mais poder sobre nós. O terceiro inimigo é Satanás. “Cristo veio para destruir as obras do maligno” (1 Jo 3.8). Jesus venceu o diabo e nos trouxe perfeita libertação. Cristo nos libertou do poder de Satanás. Ele não pode mais nos acusar diante do trono de Deus e nos podemos resistir-lhe vitoriosamente. Esta vitória de Cristo, esta libertação nos é oferecida pela Palavra de Deus e pelos sacramentos, batismo e santa ceia. Por estes meios o Espírito Santo abre nossos olhos para a realidade e nos conduz ao arrependimento. Por estes meios ele nos leva ao reconhecimento de que Jesus é o verdadeiro filho de Deus, nosso irmão na carne que nos salvou e nos leva a confiar na graça de Cristo. Por esta fé, a salvação de Cristo se torna nossa. Fomos libertados e feitos filhos de Deus, membros do seu reino e herdeiros do céu. Não queremos permitir que alguém nos roube esta salvação. Podem nos colocar em cadeias, ou martirizar, “podem matar o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10.28). “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36). Que maravilhosa libertação. “Grato sou por tanto amor, meus bendito Redentor.”

3ª VELA – Jesus, o Príncipe da Paz
A terceira vela, acesa no terceiro domingo de Advento, lembra que Jesus veio como príncipe da paz. - O culto está por começar. As pessoas estão chegando. Aproximo-me do altar para acender a terceira vela. Lembro o Príncipe da Paz. Viro-me e olho para a congregação. Vejo pessoas entrando. Penso nelas. Diversas recordações me vêm à mente. Quanta indisposição, ressentimentos, antipatias ainda existem mesmo numa congregação cristã. E, nem preciso pensar neles. Olho para o meu próprio coração. Lá dentro não é diferente. Quanta luta. Como é difícil conservar a paz na família, nas reuniões, na congregação e com os vizinhos. Quantas guerras estão em andamento nas cidades, nos países e no mundo? Estamos num mundo mergulhado em trevas, egoísmos e ódios. Enquanto o mundo enaltece o ser humano, suas qualidades seu amor, sua busca e seus esforços pela paz, o apóstolo Paulo exclama, à luz da palavra de Deus e em profundo arrependimento: “Porque eu sei que em mim isto é, na minha carne não habita bem nenhum ... Desventurado homem que sou! quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus, por Jesus Cristo” (Rm 7.19, 24-25). Sim, graças a Deus por Jesus Cristo, o Príncipe da Paz (Is 9.6). Ele nos reconciliou com Deus (2 Co 5.19). Nele temos perdão dos pecados, e pelo perdão, paz com Deus. Jesus disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). Por esta paz temos a vida e eterna salvação (Jo 3.16). O perdão de Jesus nos move a amarmos o nosso próximo e até os nossos inimigos e esforçar-nos pela paz (Lc 6.27; 2 Jo 5).

4ª VELA – Jesus, o Rei dos reis
A quarta vela, acesa no quarto domingo de Natal, anuncia a grande alegria natalina, de que Jesus é Rei dos reis. Feliz quem tiver parte, pela fé, no reino eterno de Jesus.
Na primeira vinda, Jesus veio humilde. “Eis aí te vem o teu Rei humilde” (Mt 21.5). Ele se humilhou profundamente. Sendo verdadeiro Filho de Deus, “não julgou como usurpação o ser igual a Deus: antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.7,8). Assim trouxe maravilhosa salvação que nos enche de alegria e júbilo, como os anjos o anunciaram no dia de Natal: “Eis que vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo o Senhor” (Lc 2.10,11). Então os anjos cantaram e nos ainda hoje cantamos cheios de alegria com eles: “Glórias a Deus nas maiores alturas, e paz na terra aos homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.14).
Em breve Jesus voltará. Não mais em humilhação, mas em grande glória e majestade, com todos os seus santos anjos, (Jo 14.18) para julgar vivos e mortos. E não como muitos imaginam e ensinam, para levantar aqui na terra um reino glorioso de mil anos. Jesus disse: “Quando virdes estas cousas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima” (Lc 21.15-18). Aguardamos com grande alegria a segunda vinda de Cristo em glória. Então passaremos do crer para o ver. O apóstolo João escreveu: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é” (1 Jo 3.2).

A VELA BRANCA – NATAL
Após o quarto domingo de Advento, vem o dia 25 de dezembro, Natal. A vela branca é acesa. Ela simboliza o nascimento de Jesus. Veio o príncipe da Paz. O profeta Isaías profetizou a respeito do Natal: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da paz; para que aumente o seu governo e venha paz sem fim sobre o trono de Davi; e venha paz sem fim sobre a casa de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça desde agora e para sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isto” (Is 9.6,7). O mesmo profeta ainda escreveu: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel” (Is 7.l4). Por isso os anjos anunciaram aos pastores nos campos de Belém: “Não temais: eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra aos homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.10-14). No dia do Natal se manifestou a benignidade do Senhor e o seu amor para com todos os homens (Tt 3.4). Que amor. Jesus, o filho de Deus, gerado do Pai desde a eternidade e também verdadeiro homem nascido da virgem Maria, veio ao mundo. Ele veio de uma maneira bem estranha. Podemos dizer: ao contrário do que se poderia imaginar e esperar. Quem jamais procuraria o Salvador Jesus numa pobre estrebaria. Quem poderia imaginar que ele salvaria a humanidade por sua profunda paixão e morte de cruz? Mas foi assim que ele veio e salvou a humanidade do pecado, da morte e do poder de Satanás. Por isso o próprio Jesus disse a Nicodemos: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo 3.16-19). Por isso escreve o apóstolo Paulo: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feituras dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.9-10). Por isso o mesmo apóstolos nos conclama: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos. Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor. Não andeis ansiosos de cousa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus” (Fp 4.4-7).

CONCLUSÃO
Eis a mensagem da coroa de Advento: Cristo é Rei dos reis. Ele venceu nossos inimigos: pecado, morte e Satanás. E todo o que confia na palavra de Deus tem o que estas palavras lhe oferecem, dão e confirmam, perdão dos pecados, vida e eterna salvação. Em breve Jesus voltará para julgar vivos e mortos e receber os seus fiéis no reino da glória, no novo céu e na nova terra. Que esta mensagem se grave fundo em nossa alma para bênção, para crescimento na fé, bem como para a prática de toda a boa obra, para sermos cheios de frutos da justiça (Fp 1.3-11); e nos firme na esperança da vinda de Cristo para o grande e derradeiro dia, de sua vinda em glória. Por isso a Bíblia termina com a mensagem de Advento: “Certamente venho sem demora. E a igreja toda responde: Amém. Vem, Senhor Jesus” (Ap 22.20).

Leitura Bíblica para a Quaresma 2026

Você sabe o que é a Quaresma? Muita gente acha que é o tempo de sofrimento e privação (jejum etc...) que começa depois do carnaval. Infelizm...