quinta-feira, 4 de agosto de 2016

De cabeça baixa

Certa vez ouvi uma estorinha (sim, ainda há diferença entre história e estória) que ficou gravada em minha mente. Foi na igreja, mas não lembro mais o pastor que a contou… Faz “muuuuuuito” tempo. Mas lembro:
“Certa vez, um andarilho, achou dinheiro no chão. Ficou muito feliz com isso, pois precisava daquele dinheiro. Dali em diante ele passou a andar sempre olhando atentamente para o chão… Por causa disso, muitas vezes quase foi atropelado. Outras vezes caiu por bater em postes. Ou deu esbarrões em pessoas que passavam. E no fim o que conseguiu foi um problema de coluna, alguns hematomas, vários botões e muito mais lixo encontrado nas sarjetas.”
E agora? Com o Pokemon Go…
Já há casos de acidentes, de assaltos, de tiros achando que os “caçadores de Pokemon” seriam bandidos e por aí vai.
Antes já olhávamos cada vez menos ao redor e cada vez mais para a telinha… Ou as telinhas, pois quando não é a do celular, é a do computador ou da TV (esta, que já atrapalha as conversas familiares faz anos… Muitos anos.) E a TV era pior… Se o celular permite que você se comunique com outras pessoas, a TV só te passa (des)informações e impede as conversações, pois sempre tem um “cala a boca que eu quero ouvir a TV”.
Agora multidões correm atrás dos monstrinhos do Pokemon Go… E já vi como funciona. Minhas filhas ficaram fascinadas em caçar. Eu achei chato. Mas talvez o chato seja eu que não tenho mais paciência para algumas coisas… Entretanto não se espante com jovens e adolescentes andando apontando o celular para tudo que é lado. Pois você precisa “pegar” com a câmera e precisa apontar ela para todos os lados… Quando achar o monstro, tem que jogar a “pokebola” para o prender… Se for um Pokemon mais forte, precisará atirar várias vezes a armadilha… E às vezes vai parecer que estão te filmando ou te fotografando, sem a sua permissão, mas não estarão nem te vendo… Na sua frente, em realidade aumentada, estará um Pokemon… Estarão “lutando” para ouvir um “Gotcha”... E estarão de cabeça baixa. Eu realmente acho que é um entusiasmo inicial e que vai passar… Mas…
O que vemos agora é muita gente de cabeça baixa. E o que vão encontrar? Agora, Pokemons… Mas deixarão de ver à volta. Não verão os riscos e nem as oportunidades. Pois de cabeça baixa só vemos o chão… Agora nem mais o chão, apenas a telinha do celular. Claro que tem coisa boa também, porque na “caça” e competição, que sempre existiram, mesmo em álbuns de figurinha, os “caçadores” vão interagir com outros. Fazer novas amizades, desfazer outras… Enfim, quase tudo tem lados positivos e negativos… Como da estorinha inicial: foi legal achar dinheiro, foi ruim perder a vida procurando mais, olhando para a direção errada.
Como cristãos aprendemos a olhar para cima e para os lados: “Depois de ter dito isso, Jesus foi levado para o céu diante deles. Então uma nuvem o cobriu, e eles não puderam vê-lo mais. Eles ainda estavam olhando firme para o céu enquanto Jesus subia, quando dois homens vestidos de branco apareceram perto deles e disseram: — Homens da Galileia, por que vocês estão aí olhando para o céu? Esse Jesus que estava com vocês e que foi levado para o céu voltará do mesmo modo que vocês o viram subir.” (Atos 1.9-11).
Se olharmos só pra tela do celular não veremos a necessidade das pessoas à nossa volta. Não veremos as necessidades de nossa cidade. Não poderemos acompanhar a sociedade e suas alegrias, nem suas tristezas. Não veremos que a Casa do Vovô, a Apae, pais de filhos com necessidades especiais, e tantos outros precisam de ajuda… Imagine a luta para integrar um filho autista em escolas públicas que deveriam ter cuidadores especiais, mas não têm orçamento para isso… Imagina a luta de um asilo para cuidar bem dos idosos, quando falta comida, bebida, fraudas… E pessoas para ajudar… Talvez, em vez de Pokemons, pudéssemos ter órfãos e idosos aparecendo na telinha do celular… Mas...
É preciso olhar em volta. E ver quantos sofrem por fome, tristeza, desamor…
É preciso olhar pra cima e reconhecer nossa completa dependência da misericórdia de Jesus, para poder fazer alguma coisa por aqueles que estão à nossa volta.
No tempo de folga, brinque à vontade… Assista suas séries preferidas na Netflix… Cace Pokemons… Balance na rede… Veja futebol… Mas não deixe de olhar em volta e para cima. É muito mais importante e você fará muito mais diferença.

Jarbas Hoffimann é formado em Teologia e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, em Nova Venécia. (pastorjarbas@gmail.com; facebook.com/pastorjarbas)

Estes e outros artigos são publicados no Jornal Correio 9, de Nova Venécia (curta para ser avisado das edições diárias, leitura completa online): https://www.facebook.com/correio9