segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Sempre oro por vocês

Nas nossas orações sempre damos graças a Deus por todos vocês e nunca deixamos de pedir em favor de vocês. Pois lembramos, na presença do nosso Deus e Pai, como vocês puseram em prática a sua fé, como o amor de vocês os fez trabalhar tanto e como é firme a esperança que vocês têm no nosso Senhor Jesus Cristo. (1Ts 1.2-3)

Os textos para este domingo começam com um convite ao louvor cantado: “Cantem ao Senhor e o louvem. Anunciem todos os dias que ele nos salvou.” E lá no final nos lembra que não precisamos nos preocupar tanto com notícias ruins neste mundo, seja por guerras ou corrupção, pois um dia, que ainda não sabemos, “ele vem governar a terra. Com justiça e sem parcialidade, ele governará os povos do mundo.”
Hoje talvez você esteja preocupado com sua vida. Isso é normal. Até saldável. O inútil é que “deixa a vida me levar”, as pessoas capazes intelectualmente querem uma vida boa aqui e na eternidade. São os tais dos “mordomos”.
Mas hoje talvez você esteja com medo. Por isso não se esqueça: “Eu, e somente eu, sou o Senhor; não há outro deus além de mim.” (Is 45.5)
Esse Deus — único Deus que existe verdadeiramente —, está cuidando da vida de seus filhos. Está olhando por sua vida. Você pode até ter medo. É normal. Mas não se desespere, confie e ore ao Pai “que te ouve em secreto”.
E muito cuidado com as pessoas que estão à sua volta. Nem todo mundo quer o seu bem. Aqueles que te afastam de sua fé, de sua igreja, dos momentos com Deus... Estes querem sua condenação, mesmo que não digam isso.
Veja como em Mateus 22, os fariseus chegam perto de Jesus: “Mestre, sabemos que o senhor é honesto, ensina a verdade sobre a maneira de viver que Deus exige e não se importa com a opinião dos outros, nem julga pela aparência. Então o que o senhor acha: é ou não é contra a nossa Lei pagar impostos ao Imperador romano?”
Eles não queriam uma resposta. Queriam pegar Jesus no contrapé. Se Jesus dissesse para não pagar impostos, seria perseguido pelos Romanos. Se dissesse para pagar, seria perseguido pelos judeus. Assim, nem todo mundo que está perto de você é pro seu bem. Há algumas pessoa que querem te afastar de Jesus, então cuidado. Porque nosso dever de fé é tentar trazer estas pessoas para Jesus, sem que elas nos afastem do Senhor.
Por isso eu, como seu pastor, oro por vocês, para que o Senhor dê forças de resistirem a todos os ataques de Satanás, travestido de amigos e oportunidades de prazer. E que, por fim, sempre estejam na presença do Senhor.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Deus tenta alguém?

Uma tradução (muito rápida) de um texto breve:

A Doutrina Escriturística das Tentações


      Há a) uma tentação para o mal, e b) uma tentação para o bem.
A tentação para o mal vem do diabo, de outros homens e de nossa própria natureza depravada. Seu objetivo é a sedução para o pecado (tentatio seductionis). A tentação para o bem vem de Deus, e seu objetivo é testar e fortalecer a fé (tentatio probationis). Exemplos de tentatio seductionis são a tentação de Cristo pelo diabo (Mt 4.1ss) e pelas tentações dos cristãos por sua carne má (Tg 1.14: “Mas as pessoas são tentadas quando são atraídas e enganadas pelos seus próprios maus desejos.” Exemplos da tentatio probationis são a tentação de Deus a Abraão, com a ordem de sacrificar Isaque (Gn 22.1-18) e Deus permitir que o falsos profetas apareçam com sinais e maravilhas para levar as pessoas à prova, e ver se elas continuarão na Palavra de Deus (Dt 13.3: “Mas não deem atenção a esse profeta ou a essa pessoa que explica sonhos. Pois é assim que o Senhor, nosso Deus, vai pôr vocês à prova, para ver se, de fato, o amam com todo o coração e com toda a alma.”). Também no Novo Testamento Deus permite o surgimento de heresias (aivre,seij), não para provocar a apostasia dos cristãos, mas “para que fique claro quem são os que estão certos.” (1Cor. 11.19), e Paulo testa (dokima,zwn) o amor dos cristãos para mostrar se é sincero (2Co. 8.8s).
     Quando os homens criticam a tentatio probationis, dizendo que isto tornaria Deus a causa pecatti, eles cometem crimen laesae maiestatis divinae. Para afastar tais pensamentos, Deus nos diz claramente nas Escrituras que ele “não deixará que vocês sofram tentações que vocês não têm forças para suportar”. (1Co 10.13). O axioma escriturístico é: Quem sucumbe à tentação, sucumbe por sua própria culpa, ou seja, por sua própria autossuficiência, isto é, deserção da graça, como foi o caso de Pedro (Mt 26.33-36). Todos os cristãos são advertidos: “Portanto, aquele que pensa que está de pé é melhor ter cuidado para não cair.” (1Co 10.12). Mas quem vence a tentação deve a vitória não ao seu próprio mérito e poder, mas unicamente à graça de Deus.

Tradução: Rev. Jarbas Hoffimann
Pieper, Francis, Christian Dogmatics, CPH, Saint Louis, MO, p. 563-4 (Doctrine of man)

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Luteranos x Reformados

texto retirado da página Tradição Reformada

Uma das principais afirmações dos reformados que sustentam uma ideia de continuidade ou unidade entre os movimentos luterano e reformado é que o Luteranismo seria uma espécie de reforma mal consolidada e só aprimorada dentro da tradição reformada. É injusto dizer que essa posição só é comum entre leigos. Na verdade muitos eruditos reformados são adeptos dessa ideia. Podemos citar vários, mas nos contentemos com a declaração do teólogo holandês, bastante respeitado na tradição reformada, Abraham Kuyper, que diz "em grande parte Calvino inicia a colheita do que o herói de Wittenberg [Lutero] tinha semeado na Alemanha e fora dela". Nesse texto busco mostrar que essa afirmativa não é fiel à história eclesiástica do século XVI.

Na ânsia de recolher "aliados teológicos" além de Calvino e seus principais herdeiros, geralmente alguns reformados tendem a apelar a autores anteriores a Calvino para provar que o movimento reformado não ensinou doutrinas novas. Muitos deles citam teólogos como Santo Agostinho, S. Bernardo de Claraval, S. Tomás de Aquino e por fim Martinho Lutero como calvinistas (reformados) antes de Calvino.

É verdade que o movimento reformado não introduziu doutrinas novas na Igreja. No entanto, nem todo autor que inspirou uma doutrina reformada pode ser considerado de fato um reformado. Sem abordar outros autores porque daria um texto maior. Mas só em citar S. Bernardo de Claraval como um proto-reformado alguém está cometendo um anacronismo grave. É verdade que Claraval negou o dogma mariano da Imaculada Conceição e defendeu uma ideia de justificação idêntica à de Calvino. No entanto, Claraval defendia outras doutrinas mariológicas e uma eclesiologia bastante diferente do que é proposto dentro da tradição reformada.

Claraval não é um reformado antes de existirem reformados, Claraval é um católico romano que PROVAVELMENTE concordaria com reformados em algumas coisas e os reprovaria em outras. O mesmo pode se aplicar a Martinho Lutero. Por qual razão eu digo "provavelmente"? Porque Claraval não foi contemporâneo da ascensão reformista na Igreja Católica, por isso não podemos ter 100% de certeza de como ele se posicionaria diante dela (acho provável que seguisse como um católico romano). Já em relação à Lutero, é bem diferente. Lutero foi contemporâneo de pioneiros reformados como Zwingli, Bucer, Bullinger, Zanchi, Vermigli e Calvino e discordou de maneira veemente de todos citados em questões importantes.

O movimento reformado já nasceu de maneira independente do Luteranismo. Ao tratarmos de Catolicismo Reformado (tratado pejorativamente como Calvinismo) e do Catolicismo Evangélico (tratado pejorativamente como Luteranismo), nunca estaremos falando de uma mesma igreja, um mesmo segmento teológico ou uma mesma filosofia religiosa. Não se trata de uma Igreja que um dia foi una e se separou por meio de cisma, como houve, por exemplo, no cisma de 1054 dentro da Igreja Católica Apostólica que resultou na divisão entre Ocidentais (católicos romanos) e Orientais (católicos ortodoxos). A Igreja Luterana surge por meio do cisma de 1517 dentro da Igreja Católica do Ocidente (já separada da Igreja Oriental), após a excomunhão de Martinho Lutero e a elaboração da Carta de Protesto dos príncipes alemães contra a expulsão deste pelas autoridades da Igreja Papal[2]. A Igreja Luterana não nasce já trazendo em seu "pacote" a Igreja Reformada. Muito pelo contrário. A Igreja Reformada já nasce em outro país, por meio do cisma de 1519 quando reformistas suíços foram excomungados também da Igreja Católica, a exemplo de Lutero. Pode se dizer que Lutero teve influência na reforma que houve na Suíça - no entanto não teológica ou eclesiástica, mas política. Digamos que Lutero deu um impulso de encorajamento apenas e passou confiança para que os reformados não tivessem medo da repressão das autoridades da Sé Romana.

A prova irrefutável de que Igreja Luterana e Igreja Reformada são orientações distintas desde seus respectivos nascimentos é a ocorrência do Colóquio de Marburg no ano de 1529. O Colóquio visava exatamente unificar as duas igrejas e fortalecer a causa protestante contra: países europeus, cantões suíços e regiões do Sacro Império Romano-Germânico que estavam sob domínio papista. No entanto, não houve sucesso na tentativa. Durante a ocasião, o principal representante da Igreja Reformada, Ulrich Zwingli, teve uma discussão grave contra Martinho Lutero, o principal representante da Igreja Luterana. Lutero e Zwingli puseram-se de acordo sobre catorze temas, mas não a respeito do décimo quinto, a Eucaristia[3]. Lutero, irado com a posição memorialista de Zwingli acerca da Eucaristia, desistiu de seguir participando do Colóquio e negou a mão da comunhão aos reformados, ao dizer "Nosso espírito e vosso espírito não estão de acordo"[4] (em alemão: "Unser Geist und euer Geist reimt sich nicht zusammen"), concluindo que não haveria união eclesiástica e teológica entre luteranos e reformados.

Com o tempo em que a ortodoxia luterana foi se desenvolvendo e resumindo suas doutrinas no Livro de Concórdia (um compilado de confissões do Luteranismo) mais diversas outras divergências entre Lutero e os reformados teriam surgido além da questão eucarística. Apesar de não serem as únicas, essas podem ser citadas como algumas das principais:

1. Representações artísticas de Cristo (luteranos foram favoráveis, reformados foram contra).
2. Soteriologia (luteranos foram favoráveis à Expiação Ilimitada e Resistibilidade da Graça, reformados foram contra esses dois pontos e ambos só encontraram consenso em Depravação Total e Eleição Incondicional).
3. Filosofia (luteranos, a exemplo de ortodoxos orientais, seguiram uma visão mais próxima do misticismo, enquanto reformados seguiram a Escolástica e estavam próximos do racionalismo, a exemplo dos católicos romanos).
4. Liturgia (luteranos estavam mais próximos de um Princípio Normativo de Culto - que aciona ao culto livremente aquilo que não é proibido biblicamente, enquanto reformados estavam mais próximos de um Princípio Regulador de Culto - que aciona ao culto somente e tão somente aquilo que tem ordenança ou implicação bíblica e rejeita inclusive o que não é proibido explicitamente).

Por fim, de diversas formas podemos provar que nunca houve unidade em sentido eclesiástico e teológico entre luteranos e reformados. O Luteranismo não é uma reforma incompleta e a Tradição Reformada uma completa, na verdade se tratam de reformas completas em diferentes contextos. São duas vertentes que estão unidas pela fé do Credo Apostólico e pelos Cinco Solas da Reforma Protestante, mas divergentes em todo o resto.

Reformados admiram Lutero, mas não devem permitir que essa benquerença seja convertida em omissão para com os estudos sinceros da história eclesiástica e em uma romantização de um passado que nunca existiu. Lutero era um grande homem, tanto quanto nossas grandes referências reformadas. Mas todos eles reprovariam essa deficiência histórica cada vez mais propagada no meio evangelical e reformado atual.

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[1] KUYPER, Abraham. "Calvinismo", p. 28.
[2] Em 19 de abril de 1529, seis príncipes e representantes de 14 Cidades Livres Imperiais pediram a Dieta Imperial em Speyer contra uma proibição imperial contra Lutero, bem como a proscrição de suas obras e ensinamentos. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Protestation_at_Speyer
[3] Este colóquio aconteceu por iniciativa de Felipe I de Hesse e reuniu as principais figuras do protestantismo. Lutero, Brenz, Osiander e Melanchton opunham-se a Zuinglio e Ecolampadio, enquanto Bucer, Hedio e Capito esforçaram-se para conciliar as duas partes. Disponível em: https://en.m.wikipedia.org/wiki/Marburg_Colloquy
[4] JACKSON, Samuel M. "Huldreich Zwingli, the Reformer of German Switzerland", 1903.

Leitura Bíblica para a Quaresma 2026

Você sabe o que é a Quaresma? Muita gente acha que é o tempo de sofrimento e privação (jejum etc...) que começa depois do carnaval. Infelizm...