sábado, 9 de julho de 2016

Adoradores de imagem

Se você espera que este seja mais um texto de um pastor evangélico, falando mal dos católicos, errou… Não vai ler isto aqui. Até porque os luteranos reconhecem toda a importância da arte eclesiástica e o cuidado na construção dos templos, por exemplo. É lindo ver templos como a Matriz de São Marcos e sua construção de cultura litúrgica, indicada pela porta que se volta ao nascente. Igrejas litúrgicas sempre têm sua porta voltada para o nascente, lembrando Jesus, a luz do mundo.
Nós luteranos não temos problemas com cruzes ou crucifixos. Há até igrejas que usam estátuas representativas de pessoas como o Apóstolo Paulo, lembrando o grande missionário da Igreja Cristã de todos os tempos. Há também estátuas em homenagem a Lutero, que escreveu mais de 150 volumes de textos sobre a interpretação bíblica e mudou a igreja como um todo e mudou a história e geografia do mundo, tamanha sua influência.
Porém, é certo que na região do Espírito Santo, esta tradição litúrgica é um tanto diferente do restante do luteranismo no Brasil e no mundo. Mas andando pelo Brasil se vê vitrais, quadros e mesmo estátuas. E mundo afora é assim também. Aqui no Espírito Santo a igreja tem uma história peculiar, que posso explicar em outro momento, mas não agora.
Temos uma diferença em como “vemos” os santos. Para os católicos, os que foram bons (em Cristo) neste mundo, podem fazer algo por nós, desde lá, na eternidade, e por isso se faz preces a eles. Para nós luteranos, os santos são os que foram salvos pela fé em Cristo e estão na vida eterna. De lá, são nosso exemplo de fé, como Maria a Mãe do Salvador, Paulo, Pedro, São João e tantos outros, que são exemplo de fé e dedicação à obra do Senhor. Embora nós luteranos honremos a memória dos santos e seu exemplo deixado, não cremos que ela possa nos ajudar de alguma forma, por isso não oramos (ou rezamos) pra eles.
Aqui, quando falo de adoradores de imagem, não é dos católicos (nem de outras religiões, pois há outras) que falo. Falo dessa nova mania de “selfies”... Gosto muito de tirar fotos… Ajuda a memória. Porém prefiro de minhas filhas e linda esposa, e a “selfie” facilita a gente se incluir na foto e aparecer nos passeios, etc… Acontece que parece que muitos são viciados em “selfies”... E precisam dos “likes” e dos comentários. Como se a alegria dessas pessoas dependesse de quantas curtidas têm a foto ou o vídeo do “snapchat”.
Não faz muito tempo, uma “famosidade” de “instagram” revelou que sua vida na frente da câmera era falsa… Que as roupas que usava eram, na verdade, “presentes” de lojas, para incentivar a venda dos produtos. Os lugares das férias, bebidas e comidas consumidos, nada mais eram que propagandas, pelas quais ela recebia. Nada de errado em receber para fazer propaganda, mas aquela pessoa queria passar uma visão de vida que não era a sua, até surtar e começar a desconstruir aquela imagem falsa. Alegou ela que era melhor viver uma vida não tão “glamurosa”, mas verdadeira, do que viver numa mentira.
Nossos jovens (e como os jovens são influenciáveis) estão sendo diretamente influenciados pela necessidade de seguidores. Postam fotos sensuais, fazendo desafios, seminus… Bebendo até cair e se cortando, participando de eventos apenas para aparecer nas “selfies” de gente mais famosa que eles e tentando arrebanhar seus próprios seguidores para o “insta”, “youtube”, “face”... Numa vida cheia de cores na tela, mas vazia de conteúdo real.
Outro dia, em evento da igreja, gravei um dos hinos mais queridos pelos luteranos do Brasil: “Exultantes te Adoramos”, cantado num encontro reunindo mais de 600 pastores e várias outras pessoas que estavam ali presentes. Em questão de horas o vídeo tinha sido assistido por mais de 10 mil pessoas. O que mais me espantou foi a admiração e “certa inveja” de que uma postagem minha tivesse alcançadas tantas pessoas. Mas foi publicado apenas como testemunho de louvor de uma igreja ao seu Senhor, nada mais…
Jesus não tirava “selfies”, mas certamente tinha seguidores e muita gente comentando suas ações. Uns falando mal, outros bem.
Numa famosa multiplicação de pães e peixes parecia que muita gente iria seguir Jesus, tanto que fizeram de tudo para o encontrarem em outro local, perto do lago… Ao chegarem (com seus muitos “likes” e “follow’s”) Jesus parece não querer seguidores que só queriam se beneficiar a si mesmos: “vocês estão me procurando porque comeram os pães e ficaram satisfeitos e não porque entenderam os meus milagres.” (João 6.26)... Foram muitos “unfollow”...
Jesus não procurava fama… Não queria aparecer. Queria distribuir amor ao próximo e queria ajudar ao necessitado… Assim como os santos que são lembrados até hoje em dia. Jesus não queria apenas um número crescente de seguidores. Se fosse assim, bastava continuar distribuindo pães e peixes… A multidão certamente se achegaria a seu redor, como chegam em volta dos milagreiros e profetas da prosperidade.
Por fim, Jesus ficou com 11 seguidores… Muito aquém dos milhões de seguidores de “vlogers” atuais, que fazem de tudo para apenas aparecer (e não se enganem, ganhar dinheiro também).
Com aqueles 11, vieram outros. Mas não eram seguidores dos 11… Eram discípulos do Mestre. E só no dia de Pentecostes, quando Pedro falava (conforme registra Atos 2), quase 3 mil pessoas passaram a seguir Jesus. Mas muitos hoje só seguem Jesus esperando milagres. Deixam para segundo lugar o que é, de fato, importante: a salvação eterna. Muitos vão para a igreja apenas para tirar fotos perto das estátuas e relíquias, crendo que isso os salva. Outros nem isso, preferem o #partiuigreja #partiubalada #tomartodas #ateochao… Ou seja, a igreja é só pra poder dar uma boa justificativa para sair de casa, pois o que importa é #ateochao…
Quantas “duckface”... Quanta falsidade… Certa vez ouvi alguém dizer: “queriva viver no facebook… lá todo mundo é feliz, saudável, rico, tá sempre de férias, é devoto, ajuda o próximo, bom político…” É a idolatria de si mesmo. Adorando a própria imagem. Que, como imagem, não é viva, nem tem vida. Assim é bem difícil acordar a cada dia para uma vida real (abençoada, por vezes difícil, mas real).
#partiuserfeliz #partiuseguirJESUS.

Jarbas Hoffimann é formado em Teologia e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, em Nova Venécia. (pastorjarbas@gmail.com; facebook.com/pastorjarbas)

Estes e outros artigos são publicados no Jornal Correio 9, de Nova Venécia (curta para ser avisado das edições diárias, leitura completa online): https://www.facebook.com/correio9