sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A culpa não é da tecnologia

 


Muitos dizem que a tecnologia é a grande vilã da falta de diálogo entre pais e filhos. E de que as crianças ficam “enfurnadas” em seus quartos com seus celulares etc.

Mas será mesmo que a “culpa” é da tecnologia? Aliás, por que sempre queremos achar um culpado? Será que há sempre culpa a ser resolvida? Já afirmo que nem sempre. Talvez tenhamos que aprender a lidar mais com a “responsabilidade” em vez d “culpa”.

A verdade é que as dificuldades na comunicação familiar não começaram com os smartphones. Elas sempre existiram, porque comunicar-se exige tempo, atenção e disposição. Para citar alguns entraves na comunicação: já houve tempo em que distância física e isolamento geográfico eram problema. Imigrações, guerras, ou simplesmente a busca de um futuro melhor em local distante, faziam as pessoas dependerem exclusivamente das cartas (quando havia), que demoravam meses para chegar. Algumas pessoas que partiram para outros países em imigrações, nunca mais tiveram notícias de seus queridos deixados para trás.

Pode ser que barreiras linguísticas não atrapalhem a comunicação dentro do lar, mas vocês já perceberam que os adolescentes parecem falar uma língua própria? Aquilo que o “velho” entende de uma forma, o adolescente pode entender de outra e aí já nasce a dificuldade, assim como pessoas com sotaques diferentes dentro do mesmo país. Seria hilário ver uma conversar entre um mineiro do interior, um gaúcho dos pampas, um manezinho de Floripa, um paulistano na Mooca e por aí vai. Essa “barreira linguística” também ocorre dentro de casa, com ou sem o celular.

Um limitador dentro do lar pode ser o autoritarismo. Pai e mãe ou um dos dois querem ser apenas “obedecidos” e isso não funciona bem. Nunca funcionou, o que acontecia é que a geração passada (várias gerações passadas, aliás) simplesmente calava. E resmungava no seu íntimo, porque se falassem algo, poderiam ser castigados, daí o medo impera e o diálogo emperra.

Falta de alfabetização não parece ser mais uma barreira, embora dê vergonha alheia de ler textos até de professores e jornalistas. Que saudade da época em que as pessoas sabiam o que é uma vírgula e um a craseado... Mas neste momento meu cérebro está me aconselhando: “seje menas”... Então serei menos rigoroso. Não dá para cobrar da geração atual o que não receberam: educação. Porque de 40 anos para cá a educação só piorou, prova disto é que 33% dos médicos de uma pesquisa recente não sabem a diferença da “veia” pra “aveia”... Então a falta de educação básica precisa de paciência. É sempre preciso perguntar de novo e explicar novamente para ver se todos se entenderam.

As mudanças sociais e tecnológicas podem atrapalhar sim, mas não costumam ser a causa e sim o sintoma. Igual uma pessoa que está com pneumonia, mas o médico só se preocupa com a febre (certamente um dos 33%)... Primeiro se trata do problema, a pneumonia, e os sintomas desaparecerão.

Se não é da tecnologia a responsabilidade pela falta de diálogo, de quem é? Essa é fácil: dos pais. E eu sou pai de duas lindas moças. Já falhei muito nesse diálogo. Sempre preciso me readaptar e procurar melhorar. Procurar fomentar atividades que levem ao diálogo e conversa. Promover um ambiente seguro em que possa haver diálogo, mesmo que seja por smartphone (isso mesmo, para quem não sabe, dá pra conversar com os filhos, com o marido ou a esposa, pelo celular).

A tecnologia não cria distâncias por si só; ela apenas revela ou amplia hábitos que já estavam presentes. Se antes os pais ou os filhos se refugiavam no trabalho, na leitura, nos estudos, no lazer ou na televisão, hoje podem se perder nas redes sociais e em muito mais coisas. O problema não é o meio, e sim a prioridade. A sociedade está mudando, e com ela mudam as formas de interação. Porém, princípios não mudam: filhos continuam precisando de presença, escuta e amor. Precisam de segurança e não somente de críticas: “você fez, isso, não fez aquilo”; “você não estuda”, “seus amigos são ruins”, “você nunca faz o que te peço”, “você precisa crescer”... Isso nunca resolveu nada e não o fará.

Não culpe a tecnologia pelo que é responsabilidade sua. Use a tecnologia como ponte, não como barreira. Envie mensagens, faça chamadas, compartilhe momentos. Mas, acima de tudo, esteja presente de verdade. Dizem por aqui que na falta de “tempo em quantidade” é preciso ter “tempo de qualidade”. Mentira. Tempo de “qualidade” é o que vem em “quantidade”. Se a família e Deus são prioridades pra você, você vai dar um jeito de estar presente. E não se arrependerá de estar presente. Nunca.

Likes inflam egos e têm criado uma geração vazia, mas likes não substituem abraços, e emojis não substituem palavras ditas com carinho. Assuma a culpa (ou responsabilidade) que é sua. Este é o primeiro passo para a busca do perdão, do entendimento e do diálogo. Não terceirize a culpa, não adianta. Busque a solução. Busque orientação em Cristo. Busque aconchego e acolhimento no seu lar e na sua igreja.

 

Oração:

Senhor, ajuda-me a ser presente na vida dos meus queridos. Não me permita transferir minha responsabilidade para a tecnologia, mas use cada recurso para aproximar, nunca para afastar. Dá-me sabedoria para equilibrar meu tempo e coragem para priorizar o que realmente importa: relacionamentos que refletem o teu amor, a leitura e o estudo da tua Palavra e a presença em tua casa. Amém.

 

Jarbas Hoffimann

 

Leia em sua Bíblia Provérbios 2.26

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