sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

(Re)pensando a Escola Bíblica Infantil

Encontrei o artigo na Internet e resolvi acrescentar alguns comentários.
Ele trata de uma prática que nós luteranos temos tido já há alguns anos, que é retirar nossas crianças do culto para que tenham escola bíblica. Imagino que isso tenha acontecido conforme aumentou a dificuldade de os pais levarem seus filhos à escola bíblica em horário diverso do culto. Mas será que hoje não é mais fácil levar as crianças do que era antigamente? Meios de condução se popularizaram... Claro que em grandes centros, é geralmente um grande deslocamento. Mas será que mesmo ali não daria para tentar algo?
A meu ver, estamos deseducando nossas crianças de irem e ficarem no culto. As mandamos para a Escola Bíblica e já dá pra sentir a inquietação no culto quando este momento demora um pouquinho a mais. Ou quando, por algum motivo, não terá Escola Bíblica junto com o culto. Daí, quando estão na confirmação, queremos que “milagrosamente” aprendam a ficar quietinhas e prestar atenção ao culto... Nesse momento, o ficar no culto parece-me quase um “castigo”, porque lá na Escola Bíblica cantavam, corriam, pulavam, falavam com os coleguinhas e faziam perguntas ao professor... Mas “Deus-me-livre” se fizerem uma pergunta ao pastor durante o culto...
Porquê, então, manter nossas crianças no culto, junto com os pais?
Passo às perguntas que achei na internet, como lá não tinha referência do autor, deixo sem a referência. Mas não fui eu que cunhei os pontos abaixo. Embora concorde com eles. Abaixo de cada ponto, teço comentários.
1º. Crianças aprendendo o que é culto e como cultuar a Deus de forma reverente, não lúdica.
É até desejável que crianças aprendam de forma lúdica, mas o que acontece no culto também é importante. Eu já vi situações em que crianças não obedeciam os professores de Escola Bíblica, e sabe qual era o castigo? Voltar pro culto... Isso mesmo! Voltar pra igreja era castigo. O que isso ensina?

2°. Crianças sendo instruídas sobre o sentido de corpo, de adoração comunitária, adorando com os pais e os outros irmãos do Corpo de Cristo.
É triste que hoje se ensine, mesmo que sem querer, pais e filhos a se separarem já durante o culto. Culto se torna coisa de gente grande e Escola Bíblica é coisa de criança... Há locais hoje em dia que, se uma criança menor, começa a chorar, gera um incômodo muito grande, como se tivéssemos desaprendido a tolerar o choro de nossas crianças (nossas sim, da igreja).

3°. Crianças descobrindo, pela simples observação dos adultos, algumas emoções importantes e pouco encontradas em outros ambientes como reverência, alegria, contrição, arrependimento, exortação, consolo...
O aprendizado pelo exemplo, que tanto se fala, até biblicamente. Jesus diz: “aprendam de mim, porque sou manso” e Paulo: “sejam meus imitadores”. Mas não damos oportunidade para nossas crianças nos virem no culto. Nós não ensinamos mais pelo exemplo. E criança que não aprende com os exemplos de casa, aprende com os exemplos de fora.

4°. Pastores pregando mensagens com linguagem mais simples e aplicações direcionadas também para crianças e adolescentes.
Claro que nós pastores queremos atingir a todos dentro da nave eclesiástica, mas se não tivermos crianças no culto, nossa linguagem mudará instintivamente. E ter crianças no culto nos força a falar também pra elas e nos preocupar com elas no comedimento de certas expressões que não usaríamos em sua presença... Encontraríamos outras formas de dizer a mesma coisa, com palavras melhores.

5°. Pais treinando os filhos para o culto, durante a semana, por meio do culto doméstico diário.
No culto aconteceria o “treinamento” para o momento devocional no lar. E vice-versa. Ou seja, em casa espera-se que as crianças parem e fiquem quietinhas para a devoção, mas na Escola Bíblica não é isso que normalmente acontece. Os professores usam de técnicas diversas para manter a atenção, como ilustrações, bonecos, fantoches... Coisas que normalmente não temos em casa. Mas se as crianças participam com os pais no culto aprenderão isso naturalmente e se participam de devoções no lar, ficarão mais tranquilas no culto.

6°. Pais ensinando seus filhos a permanecerem em silêncio em ambientes que o requerem, como o culto.
Há crianças que são mais “barulhentas” que outras e isso parece incomodar. Não deveria. Todos já tivemos contato com crianças e sabemos que elas aprendem conforme as ensinamos. E não há lugar melhor para ensinar respeito e hora para cantar, falar e silenciar, do que no culto. Num primeiro momento será difícil, especialmente para os pais que parecem se incomodar mais que os outros. Mas ao aprendermos o valor de trazer nossos filhos ao culto, aprenderemos a ter mais tolerância com crianças que às vezes se excedem e com pais que ainda não conseguem silenciá-los... Às vezes é um aprendizado mútuo, tanto para pais quanto para crianças e ainda para a igreja. A igreja deveria se alegrar com as crianças no culto... Elas garantem a continuidade daquela mesma igreja.

7°. Pais continuando o ensino do sermão em casa, verificando se os filhos entenderam a mensagem, resolvendo dúvidas, e aplicando o ensino mais diretamente na vida do filho.
Hoje os (quando lembram ou se importam) perguntam para os filhos: “Qual foi a história de hoje na escolinha?” E daí, normalmente as crianças explicam... É ótimo. Mas não seria muito bom pais e filhos continuarem refletindo sobre a aplicação do sermão? Não seria uma oportunidade de pais passarem exemplos para seus filhos? Isso não existe mais pois pais têm um culto e filhos (se queremos considerar culto a Escola Bíblica, mas não é) têm outro culto... Até aí os estamos separando. Não apenas fisicamente, mas também no conhecimento adquirido naquele momento, nas experiências trocadas e muito mais.

8°. Adultos sendo menos egoístas, aprendendo a suportar algum eventual barulho infantil.
Disto já falei acima, mas é incrível como os adultos estão se tornando “pirracentos” também. Não suportam uma criança, que pra mim é o barulho da vida... Mas se dão muito bem numa igreja onde os decibéis vão aos píncaros... Ou num evento social onde mal conseguimos ouvir (gritando) alguém que está sentado na mesma mesa, ao nosso lado. Isso quando não fazemos de nossa própria casa um local tão barulhento (TV, Computador, Celular com fone nas alturas...) que ninguém mais se ouve... Mas daí, um bebê chorando por fome, dor ou outro incômodo, nos é “impossível” de suportar. Temos ficado tão egoístas que nem na necessidade daquela criança ficar no culto pensamos mais...

9°. Adultos “adotando” crianças no culto, isto é, trazendo para seu banco crianças cujos pais não são crentes, para que elas não fiquem sozinhas;
É raro que haja crianças nos visitando sem os pais, mas acontece. E que bom se pudermos ser os “pais espirituais adotivos” dessas crianças. Que coisa mais linda. Mas se trouxermos os “visetantezinhos” para o culto e os mandarmos para a Escola Bíblica, tirando o momento da história bíblica, é quase como se a estivéssemos levando a uma festa infantil.

10°. Pastores com a consciência tranquila em cumprir exatamente o prescrito na Palavra: Família da Aliança em adoração conjunta.
Acho que este último ponto é o que mais me incomoda, como pastor. Não que desconfie de forma alguma do que os professores estão ensinando. Tenho certeza que é a verdadeira e pura Palavra de Deus. Mas o Senhor me chamou para ser pastor de toda a família. E, nós pastores, quase não temos mais contato com os pequeninos.

Não tenho respostas ou soluções e nem quer mudar nada radicalmente na igreja. Mas estou convencido de que estamos ensinando nossas crianças a não gostarem do culto. Se lá pela década de 80 falávamos do valor de ter toda a família no culto, junta, hoje parece que separamos pais e filhos sem muita cerimônia.
Vamos pensar juntos, quem sabe achamos uma forma melhor, não de acabar com a Escola Bíblica, que é essencial, mas de que as crianças tenham ambas as oportunidades, porque o maior evento da igreja é, sem dúvida, o Culto e estamos privando nossas crianças dele. Assim como privamos, e aqui outro ponto de preocupação, nossos professores.
Feliz a congregação que, como a minha, tem 12 ou mais professores e ajudantes... Daí o professor “falta” ao culto apenas uma vez a cada 6 semanas... Mas e aquelas que têm poucas destas vocações? Como se tem feito para que os professores não percam a oportunidade de usufruir o perdão junto com os irmãos, de participar da Santa Ceia e ouvir a pregação?
É pra pensar. Orar e agir.
Rev. Jarbas Hoffimann
Pastor Luterano
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Congregação Castelo Forte
Nova Venécia, ES