terça-feira, 14 de junho de 2016

Intolerância (mais uma vez)

Antes de começar, preciso definir algo: sou cristão, pastor, teólogo luterano, pai de família, cidadão… Tento ser o melhor nisso tudo aí… Nem sempre consigo. É a triste realidade de ser “justo” e “pecador” ao mesmo tempo. Pois é feliz ser declarado justo por causa da justiça de Cristo… Entretanto, enquanto estamos no mundo, o pecado continua a insistir em nós, para nos afastar da justiça. Reconheço que, diante da Bíblia, muitas coisas, segundo a fé cristã bíblica, são pecado, como, por exemplo, o homossexualismo. Entenda bem, não se trata de uma questão ética, mas sim, religiosa. Minha fé. Talvez não a sua. Ninguém é pessoa pior porque é homossexual.
Definindo acima, apenas para lembrar que tenho meus princípios morais e religiosos, fruto da fé que o Senhor me deu em Cristo, meu Salvador. Você não precisa nem concordar comigo, nem ter a mesma fé para que eu o ame. Afinal, o Senhor Jesus ensina justamente isto: amar a todos. E todos não se classifica, ou são “TODOS”, ou não é o que Jesus ensinou… Né!?
Voltando do culto neste domingo, liguei a TV para ver um pouco do vôlei… Um dos poucos esportes que ainda alegra o brasileiro, junto com o basquete do Flamengo(!), porque a seleção já faz tempo que parece fazer mais politicagem para vender e comprar jogadores, do que jogar mesmo… Não é mais a seleção do povo, mas uma seleção espúria de uma CBF cheia de acusações de conchavos para enriquecer seus diretores…
Liguei a TV e lá estava uma informação de que uma “Boate Gay” tinha sido atacada na madrugada, matando 20 pessoas e ferindo outras 40… Não sei porque tanta ênfase em “Boate Gay”, mas vamos lá… Demorei para digerir a notícia (embora isso pareça ser normal nos Estados Unidos, assim como está normal a criminalidade e a corrupção aqui no Brasil).
Naquele primeiro momento, postei, ainda estupefato, em minha página no facebook: “Mais uma vez a ignorância, o desamor, o ódio se sobrepõem ao amor, perdão, e todo o ensino de Jesus. Num atentado a uma boate nos EUA. Antes de serem "gays" (ou não) são pessoas. E são alvos do amor e do perdão de Deus. Oremos por todos aqueles que são vítimas de intolerância. Assim como oramos pelos cristãos perseguidos.
Mais tarde, não eram apenas 20 as pessoas mortas, mas 50 seres humanos que tinham sido mortos. E outros 53 feridos (ainda pode morrer mais alguém).
É bom que se ressalte: antes de se definir aquelas pessoas como “gays” se deveria falar das pessoas que ali foram mortas ou feridas. São pessoas com pais, mães, tios, amigos, vizinhos… São pessoas com sonhos (mesmo que não concordem com os seus e meus), são pessoas com vida (mesmo que você e eu discordemos de como a vivem)... São pessoas, acima de tudo, amadas também por Jesus. E fico triste em pensar que possa haver pessoas que se digam cristãs e que estejam felizes com essa grande catástrofe.
Se alguém está feliz com isso, não entendeu o que Jesus ensinou. É como os “cristãos” que durante as cruzadas montaram um exército de crianças para retomar Jerusalém. Queriam, pela força, impor a palavra de Jesus. E mataram suas crianças, numa guerra insana (se é que há alguma que não seja).
Jesus, ao contrário, agiu assim: “Aí Simão Pedro tirou a espada, atacou um empregado do Grande Sacerdote e cortou a orelha direita dele. O nome do empregado era Malco. Mas Jesus disse a Pedro: Guarda a sua espada! Por acaso você pensa que eu não vou beber o cálice de sofrimento que o Pai me deu?” (João 18.10-11) e diante de Pilatos, instigado a revidar: “O meu Reino não é deste mundo! Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus seguidores lutariam para não deixar que eu fosse entregue aos líderes judeus Mas o fato é que o meu Reino não é deste mundo! (João 18.36)
É um reino que transcende este mundo. Um reino que não vai querer matar o outro, porque o outro quer viver diferente. É claro que nós cristãos não podemos fugir do que a Bíblia trata como pecado. Isso não pode acontecer. Mas não é pela força que Jesus é testemunhado.
Não sem motivo, quando perguntado sobre qual o maior mandamento Jesus respondeu: ame a Deus e ame ao próximo. E quando diante de um líder judeu, foi a vez de Jesus perguntar qual era o maior mandamento: “O homem respondeu: Ame o Senhor, seu Deus, com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças e com toda a mente. E ame o seu próximo como você ama a você mesmo.” (Lucas 10.27).
O problema é que, como aquele homem, os cristãos querem escolher quem é o seu próximo. Aquele homem perguntou: “mas quem seria o meu próximo?” Então Jesus conta a linda parábola do Bom Samaritano (leia em: http://pt.bibles.org/por-NTLH/Luke/10).
Você é cristão, quem é seu próximo? A teologia luterana define o próximo: “é aquele que precisa do seu amor”.
E quem precisa do seu amor? Cada pessoa à sua volta. Você não concorda com a vida que outras pessoas estão levando? Ore por elas. Fale de Jesus a elas. Mas não torne o pecado delas maiores do que os seus. Somos todos pecadores. Não podemos e nem devemos tolerar o pecado, mas, a exemplo de Jesus, precisamos ser mais tolerantes com os outros pecadores. Falando do perdão que só Jesus pode dar.
A você que é homossexual ou ama alguém que seja, não me odeie. Eu não te odeio. Te amo em Cristo, embora não concorde com a vida que você escolheu levar. Assim como talvez você não concorde com a vida que eu levo...
Por fim, um convite aos cristãos: oremos pelos entes queridos daqueles mortos nos Estados Unidos, no massacre do dia dos namorados. Oremos para que os que ficaram vivos se recuperem. Oremos para que os cristãos sejam amorosos e ajudadores nesse momento difícil. Oremos para que os ódios no Brasil também sejam sobrepujados pelo amor. Ódio só produz mais ódio. Amor produz diálogo. E para falar de Jesus, precisamos dialogar.


Jarbas Hoffimann é formado em Teologia e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, em Nova Venécia. (pastorjarbas@gmail.com; facebook.com/pastorjarbas, @pastorjarbas)


Estes e outros artigos são publicados no Jornal Correio 9, de Nova Venécia (curta para ser avisado das edições diárias, leitura completa online): https://www.facebook.com/correio9