sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Culto Luterano - manual litúrgico 2

Este manual encontra-se completo aqui. Mas está disponibilizado também nas postagens, com o marcador "manual da comissão de culto". Há outras duas publicações no blog (mais antigas) devem aparecer na busca também, mas estas aqui estão atualizadas.


II - O Culto Litúrgico - História e Teologia


A. Definindo Termos

Não é fácil falar e definir um assunto que é tão amplo como a história do próprio homem. Mas, precisamos fazê-lo de alguma forma, pois é importante entender o que estamos fazendo quando nos reunimos. James F. White nos serve de auxílio nessa grandiosa empreitada, mostrando como diferentes pensadores protestantes, católicos e luteranos usam o termo.

Escrevendo a partir da tradição metodista, o professor Paul W. Hoon define a vida cristã como sendo uma vida litúrgica. O culto para ele está vinculado diretamente aos eventos da história da salvação. Para ele, o núcleo do culto é “Deus agindo para dar a sua vida ao ser humano e para levar o ser humano a participar dessa vida”. As palavras-chave na compreensão de Hoon sobre culto parecem ser “revelação” e “resposta”. Trata-se, portanto, de uma relação recíproca em que Deus toma a iniciativa em relação ao homem por meio de Jesus Cristo e nós, por meio de Jesus Cristo, respondemos usando uma variedade de emoções, palavras e ações.
Jean-Jaques von Allmen, escrevendo dentro da tradição reformada, defende vigorosamente o culto cristão como sendo a recapitulação daquilo que Deus já fez. Para ele o culto “resume e confirma sempre de novo a história da salvação, cujo ponto culminante se encontra na intervenção encarnada do Cristo”. Von Allmen ainda descreve o culto como sendo a “epifania da igreja”, visto que, ao resumir a história da salvação, capacita a igreja a tornar-se ela mesma, tomar consciência de si mesma e se confessar entidade específica. Finalmente, ele acrescenta que culto é ao mesmo tempo ameaça de juízo e promessa de esperança para o próprio mundo. O culto, portanto, para von Allmen tem três dimensões-chave: recapitulação, epifania e juízo.
Na Igreja Católica Romana é comum descrever o culto como “a glorificação de Deus e a santificação da humanidade”. A origem dessa definição é do papa Pio X, que em ao falar sobre música na igreja em 1903, disse que o culto deve ser para “a glória de Deus e a santificação e edificação dos fiéis”. A mesma definição se repete com Pio XII e aparece com frequência na Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II em 1963, porém, invertendo essa ordem, ou seja, fala primeiro da santificação do ser humano e então da glorificação de Deus. Felizmente mais tarde, se chegou à conclusão que glorificação e santificação formam uma unidade. Tanto a glorificação de Deus quanto a santificação das pessoas caracterizam o culto cristão.
Peter Brunner, representando o pensamento luterano, se vale do termo cunhado por Lutero — Gottesdienst, que tem tanto a conotação de serviço de Deus aos seres humanos quanto a de serviço dos seres humanos a Deus. Com respeito ao culto, Brunner cita palavras do próprio Lutero, “que nele [culto] nenhuma outra coisa aconteça exceto que nosso amado Senhor ele próprio fale a nós por meio de sua santa palavra e que nós, por outro lado, falemos com ele por meio de oração e canto de louvor”[1].
Para os luteranos, o culto é mais do que uma via de mão dupla; ele pressupõe a ação anterior de Deus e, a partir disso, provoca a resposta do homem. Por isso, entre os luteranos, se afirma que o culto é teocêntrico (centralizado em Deus), é cristocêntrico (centralizado naquilo que Deus fez por nós em Cristo) e espiritocêntrico (centralizado na ação do Espírito Santo pelos meios da graça).[2]
O termo liturgia, apesar de clássico e consagrado, é recente. O termo é pouco encontrado em documentos oficiais da igreja, ante do século XX, ganhando popularidade somente no século XXI. Muitas definições, mesmo que tendo sido elaboradas por grandes nomes, mereceram reparos.
Do início do movimento litúrgico (1909) até o Concílio Vaticano II (1962-1965), a maioria dos autores tentou chegar a uma definição de liturgia que englobasse tanto sua natureza quanto suas características essenciais. A dificuldade de fazê-lo residia no fato de a liturgia ser “uma realidade ao mesmo tempo viva e rica. Só participando dela é que pode ser compreendida. Ela não permite ver-se encerrada em conceitos”.[3]
De acordo com Arthur A. Just, uma das melhores definições é a que entende o termo leitourgia como sendo um serviço, um dever de estar na presença do Deus vivo, devido ao que Jesus é — o Ungido de Deus que veio para realizar a salvação do mundo, e devido ao que nós somos — os ungidos de Deus que carregam em seus corpos a plenitude da salvação. E nesse sentido, cristãos se reúnem para fazer liturgia, não para divertir-se — pois talvez até nem gostem da mesma, não para fazer algo que seja bom para eles, ainda que fato seja, mas eles se reúnem para fazer algo que é bom para o mundo.
Portanto, nosso foco litúrgico não é para dentro, e sim, para fora. Primeiro ele se dirige a Deus em Cristo por meio do Espírito Santo, depois se dirige para o mundo ao qual Cristo foi enviado pelo Pai no Espírito para redimir e restaurar o mundo ao seu Criador.[4]

B. Conhecendo a História
É praticamente impossível compreender o culto luterano sem conhecer a história do culto litúrgico. A Igreja Luterana, por natureza, é conservadora teológica e liturgicamente. As igrejas reformadas do século XVI sustentavam que somente práticas ordenadas pelas Escrituras deveriam ser mantidas no culto público. Os reformadores luteranos adotaram um princípio mais conservador. Os luteranos estavam convencidos de que somente o que fosse proibido pela Escritura deveria ser abolido. Dessa forma, a Igreja Luterana não promoveu uma ruptura radical com a Igreja da pré-reforma, e sim, uma continuidade com tudo que aconteceu nos primeiros 1500 anos. Mais, os reformadores luteranos entenderam-se como herdeiros das práticas de culto do AT.
As igrejas reformadas acreditavam ser possível retornar aos dias da simplicidade primitiva dos apóstolos. Os luteranos entendiam que isto era impossível, pois havia uma interveniência de 1500 anos de história. Os luteranos se reconheciam mais ricos por causa desses 1500 anos e quiseram reter essas riquezas da história do cristianismo. A liturgia e a riqueza das práticas de culto faziam parte dessa história.
A igreja apostólica, sem dúvida, era uma igreja litúrgica — ela possuía uma ordem de culto, ela cumpria a ordem do Senhor de pregar, de batizar e de celebrar a Santa Ceia. Em Atos 2.42 está registrado que a Igreja Apostólica, imediatamente após o Pentecostes, “perseverava na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” Além disso, o NT está cheio de cânticos litúrgicos, no Evangelho de Lucas (Lc 1.46-56; 1.67-80; 2.25-32), nas cartas do apóstolo Paulo (Fp 2.6-11) e no Apocalipse (Ap 7.9-12, 14.1-5). As leituras (Cl 4.16; 1Ts 5.27; 1Tm 4.13, Ap 1.3), as exposições, as orações e cânticos e salmos, próprios da liturgia das sinagogas, foram assumidos pela igreja do NT e encontraram espaço em nossa liturgia contemporânea.
Os apóstolos seguiram a ordem que o Senhor lhes dera com relação à celebração da última Ceia, realizando regularmente esta Ceia que era feita dentro do ritual judaico. Um importante ponto de encontro dessa Ceia é a bênção após as refeições e o “cálice da bênção”. Essa Ceia judaica e a bênção influenciaram a liturgia do Sacramento na forma como a temos hoje. Vejamos: no início da Ceia era feita a saudação “o Senhor seja convosco”. A resposta, genuinamente hebraica, era “e com o teu espírito”. Da mesma forma a resposta prevista para as orações permaneceu e permanece até hoje sem tradução: “Amém”. Acredita-se que as palavras “é verdadeiramente digno, justo e do nosso dever...” foram adaptadas por uma congregação primitiva de uma tradição mais antiga. Tudo indica que até mesmo a primeira frase do nosso “Sanctus” provém daquela época. É evidente que a Ceia não era uma Ceia comum, mas um banquete sagrado. Ceias ordinárias nutrem para a existência humana, mas essa Ceia oferece nutrimento para a vida com Deus.
Em sua primeira Apologia, Justino o Mártir (150 A.D.) oferece um relato da celebração eucarística cristã. Lendo esse relato, o cristão de hoje é confrontado por duas coisas: A primeira é a grande ênfase que Justino coloca em coisas aparentemente sem importância, como o Amém da congregação, o qual indica que é a comunidade que celebra o Sacramento. Na comunhão, a comunidade inteira estava unida. A segunda é a importância da ação de graças.
A Ordem de Culto da Igreja Egípcia, frequentemente atribuída ao presbítero romano Hipólito, foi provavelmente completada antes de 215 A.D. Quando os presbíteros e bispos tomavam o pão e o vinho, iniciavam com a conhecida fórmula: “O Senhor seja convosco. E com teu espírito. Levantai os vossos corações. Levantemo-los ao Senhor. Demos graças ao Senhor nosso Deus. Assim fazê-lo é digno e justo.” O que deve ser observado é que isso era uma descrição e não uma prescrição. Até então ainda não havia uma fórmula completamente fixa, mas somente uma estrutura. Hipólito, em seu texto, está apenas nos dando uma sugestão. As orações litúrgicas do terceiro século permaneceram ainda elásticas, e continuamente foram objetos de mudança e novas influências. Havia, porém, uma ordem unificada, um conjunto de regras flexíveis que tinham o selo da autoridade do costume. Todavia, não podemos em sentido amplo, falar de uma liturgia unificada do primeiro século.
Os dois mais importantes testemunhos do quarto século vêm de Alexandria no Egito, o Eucológio (livro de orações e liturgia) do Bispo Serapion e a Constituição Apostólica de Antioquia, Síria. As constituições Apostólicas são também conhecidas como a liturgia de Clemente. O esboço externo (ideias gerais) dos usos litúrgicos no Oriente são claramente percebidos na liturgia de Clemente. As prescrições daquela liturgia estavam destinadas a ser ampliadas e estabelecidas pelo grande pregador de Antioquia, São João Crisóstomo. Ainda que o quarto século fosse um período de vivo desenvolvimento, o antigo esboço litúrgico se manteve intacto. No Oriente, as celebrações assumiram um esplendor gradativamente maior, os clérigos apareciam em vestimentas esplêndidas, foram introduzidas luzes e incenso nos cultos e também se desenvolveu, a partir de então, a cerimônia externa da genuflexão. Muito do esplendor da corte bizantina foi adotado pela igreja.
A influência do Oriente deve ser olhada com seriedade, mas a nossa liturgia é de origem latina. As liturgias do Ocidente podem ser divididas em duas grandes famílias, a Afro-Romana e a Gálica. Essas liturgias eram importantes não porque continuaram em uso, mas por causa da influência que ambas exerceram sobre a liturgia romana. Enquanto que a Gálica era mais florida e pomposa, a Afro-Romana era mais austera. A elaboração posterior da liturgia romana é uma influência direta da tradição gálica. O que sabemos a respeito da missa do século VI veio a nós por intermédio dos escribas Francônios dos séculos VIII e IX. Tudo indica que o conteúdo do Cânon Romano ao qual Lutero rebateu tão veementemente durante o período da Reforma já vinha daquele período. Especialmente, a forte ênfase do sacrifício da missa que transparece nas orações.
A moldura da Missa Romana deve ter sido essencialmente determinada no V século. Depois da era de Gregório o Grande (590 A.D.) encontraremos algumas pequenas modificações. As Missas do século VII, adotadas pelas sete igrejas de Roma, têm um grande significado para os desenvolvimentos litúrgicos posteriores. O culto atingiu um momento de estabilidade quando todos os elementos que o compõe foram colocados por escrito. Possuindo uma forma definida e determinada, o culto solene pode ser transmitido com facilidade aos outros territórios.[5]
Em 754 o Rei Pepino, pai de Carlos Magno e, posteriormente, o próprio Carlos Magno, buscando uma padronização que servisse à unidade do império, decretou a aceitação da Liturgia Romana em territórios Franco-Germânicos.[6] A Liturgia Romana adquiriu um novo lar. Por 200 anos seu desenvolvimento foi em solo Franco-Germânico, em cuja forma retornou à Roma e se tornou o modelo até o período anterior a Reforma.
Nos territórios Franco-Germânicos a missa se tornou cada vez mais clericalizada, as pessoas comuns não entendiam o latim. Um novo tipo de disciplina do secreto se desenvolveu: a separação das coisas sagradas, não dos não cristãos (dos de fora da igreja) e sim, do próprio povo da igreja. O conceito de igreja como corpo de Cristo tornou-se cada vez mais estranho, a igreja tornou-se uma estrutura hierárquica entre clérigos e leigos. A divisa entre o altar e o povo, entre os clérigos e leigos, entre aqueles que tinham o dever de oficiar a ação sacramental e aqueles que formavam a congregação celebrante, aumentou cada vez mais.
Essa situação inclusive manifestou-se na arquitetura. O altar foi fixado na parede dos fundos. A antiga forma de reunir o povo ao redor do altar para a celebração da Santa Ceia, foi trocada, tendo o sacerdote parado de costas para a congregação e celebrando a missa numa linguagem desconhecida. Enquanto a congregação dos fiéis permanecia muda, testemunhando o espetáculo. Cada vez mais a missa se tornou um mistério de Deus vindo ao homem, um mistério que deveria ser contemplado e adorado à distância. E foi esse reducionismo da missa que passou a ganhar aceitação generalizada em torno do ano 1000 A.D., ao retornar para Roma.
O período Gótico viu não somente uma grande ornamentação das igrejas, mas também da liturgia. A missa se tornou um drama sagrado, uma teatralização diante dos olhos dos participantes. O cerimonial se tornou elaborado, havendo uma multiplicação do sinal da cruz. Foi também neste período que as cores litúrgicas foram fixadas assim como as conhecemos até hoje.
A missa não só se tornou um teatro, mas também um meio de se fazer dinheiro. A missa podia ser comprada pelos seus bons efeitos sobre os vivos e os mortos. Pela compra das missas, os méritos do Cristo sofredor, comemorado na missa, eram disponibilizados. Os fiéis agora viam o sacerdote representando o drama do caminho da cruz de nosso Senhor, carregado de mistério, mediante o qual, os efeitos da morte de Jesus na cruz eram concedidos e atribuídos conforme solicitado. Esta forma produziu uma nova cerimônia em torno do Século XII — a elevação da hóstia e do cálice. Ver e testemunhar esse ato tornou-se o ponto alto da missa, ao invés de participar do corpo e do sangue na Ceia familiar de ação de graças.
Este mesmo período Gótico viu a descomunal multiplicação de missas, bem como um descomunal crescimento dos clérigos, os quais se mantinham só com a compra e a venda de missas. Comentaristas católicos desse período estão dispostos a admitir que Lutero corretamente criticava essa visão imprópria da missa.
Já em 1516, Lutero, ao pregar sobre o terceiro mandamento, enfatizava a necessidade de “ouvir a Palavra de Deus” em contraposição a “ouvir a missa”. Em 1520, Lutero advogava a comunhão sob as duas espécies, pelo bem da integralidade do sinal, em objeção à prática de se recitar em secreto as Palavras da Instituição. Em 1523 Lutero preparou um folheto de oito páginas, distribuído no período de Pentecostes, intitulado “Von Ordnung Gottesdiensts in der Gemeinde”. Esta foi a primeira tentativa de Lutero para estabelecer princípios para a ordem do culto, pois em dezembro de 1523, ele elaboraria a sua Formula missae et communionis.
Nesta ordem Lutero aprova os Introitos para os domingos e dias de festa, o Kyrie, o Gloria in Excelsis, a Coleta, a Epístola, o Gradual, o Evangelho (com suas cerimônias usuais), o Credo Niceno, o Sermão (nesse momento ou antes do introito), o Prefácio, as Palavras da Instituição (cantadas audivelmente), o Sanctus, o Hosana, a Elevação, a Oração do Senhor, a Pax, a Administração, o Agnus Dei ou Hino da Comunhão, a Coleta, o Benedicamus e a Bênção Arônica (Aarônica). Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os antecedentes desta forma se encontram na missa celebrada em Wittenberg antes da Reforma.
Em 1526, Lutero finalmente deixou convencer-se com relação a uma liturgia no vernáculo, elaborando a Deutsche Messe. Mesmo tendo seguido o esboço da liturgia Franco-Romana da Idade Média, ele a simplificou, substituindo partes da liturgia por hinos no vernáculo bem conhecidos.[7]8
Lutero também promoveu reformas na ordem do Batismo em 1523 e 1526, na ordem para o casamento, na ordem para a Ordenação em 1525, na Litania em latim e alemão, em coletas e em 38 hinos. O seu alvo era promover a participação ativa da Congregação no culto. Como um teólogo da Bíblia, Lutero tinha plena consciência da importância do culto para toda a família de Deus.
A Reforma em terras germânicas e países escandinavos foi amplamente supervisionada por Príncipes, Duques e Reis. Quando o Bispo não assumia a liderança das reformas em terras germânicas era necessário tornar o Príncipe em “Bispo emergencial”. E, mesmo em países escandinavos, sempre que os bispos não cooperavam, a Reforma adquiria um sentido nacionalista, onde as reformas se produziam de nação em nação.
Em territórios alemães as visitações aconteciam sob os auspícios do Príncipe ou do Duque. Os resultados e a regulamentação dessas visitas podem ser observados nas ordens eclesiásticas (Kirchenordnungen) que foram produzidas. Tais ordens tinham força de lei e estabeleciam os métodos da reforma do culto. Mormente, as reformas da liturgia seguiam dois caminhos principais: os mais conservadores seguiam como seu modelo a Formula Missae de 1523, enquanto outros adotavam a Deutsche Messe de 1526. Apesar da diferença, havia concordância substancial nas ordens, pois ambas estavam casadas com a histórica tradição litúrgica da igreja. A Reforma Luterana não foi uma revolução radical. Não existia a intenção de separar-se da igreja histórica. Mesmo que não se buscasse uma uniformidade rígida, havia uma preocupação respeitosa com a vida de culto tradicional da igreja.[8]
No que concerne à Igreja Evangélica Luterana, quando o período da Reforma terminou em torno do século XVI, ela também viveu o fim de seu desenvolvimento litúrgico. Os séculos subsequentes testemunharam o declínio da vida e do culto na igreja.
Um dos fatores mais destrutivos foi a Guerra dos Trinta anos (1618-1648). A vida na igreja, na maior parte da Alemanha Luterana, chegou a uma estagnação. A igreja na Alemanha ficou reduzida a uma pobreza penalizante, não somente em termos materiais, mas também no que se refere à preocupação com a espiritualidade e a sua cultura litúrgica e musical. Estima-se que a população foi reduzida de 16 para 6 milhões de habitantes em consequência de conflitos armados, fome, doença e imigração.
Outro agente corrosivo na vida litúrgica foi o surgimento do Pietismo. O Pietismo produziu um tipo desequilibrado de cristianismo que superenfatizava a experiência pessoal, a vida e a conduta. Por sua forte oposição aos “prazeres do mundo” encorajava um novo tipo de ascetismo que conduziu ao legalismo e ao criticismo dos ainda “não reavivados”. Na medida em que o cristianismo pessoal era supervalorizado, a objetividade dos Meios da Graça era cada vez mais desvalorizada. A liturgia histórica da igreja deu lugar a expressões de emoções e ideias individuais. O Pietismo, com suas limitações intensamente pessoais, não mais entendeu, nem usou o que permaneceu das formas ricas e polidas do sistema litúrgico-histórico da igreja.
O Pietismo, carecendo de força intelectual, rapidamente se esgotou e foi substituído pelo Racionalismo ou Iluminismo. O Pietismo, pelo menos, podia ser reconhecido como um movimento cristão. O Iluminismo, no entanto, superou até aquilo que é considerado superstição de origem cristã, substituindo o plano divino da redenção por um ideal de felicidade. Interesses práticos ao invés de doutrinas ou alta espiritualidade, eram abordados nos púlpitos. A Escritura foi minimizada e os milagres, explicados como causas naturais. Dentro da esfera do culto, o Racionalismo foi totalmente destrutivo. O culto foi mutilado de tal forma, que não podia ser reconhecido como tal. O templo se tornou um mero lugar de reunião, o púlpito uma plataforma de preleções, da qual o ministro oferecia instruções morais. O Sacramento do Altar foi reduzido a uma forma vazia e já não era mais celebrado a cada domingo e dias santos, mas observado à feição dos reformados, quatro vezes ao ano.[9]
No início do século XIX houve uma conscientização por parte de alguns, de que a vida da igreja estava em decadência. Em 1817, durante a celebração do tricentésimo aniversário da Reforma, Claus Harms editou um novo conjunto de 95 teses, onde conclamava a igreja a retornar a sua base teológica. Foi em boa hora que isso ocorreu. Nuremberg, partes da Saxonia, Mecklenburg, e alguns outros poucos lugares, mantiveram muito do culto histórico com as vestimentas antigas e costumes e ainda muito das músicas antigas eram cantadas em latim. O espírito do culto havia desaparecido, e as igrejas estavam vazias. Em outros lugares as ricas formas litúrgicas há muito haviam desaparecido, dando lugar a uma ordem vazia, conduzida somente pelo ministro.
Em 1822, Frederico Guilherme III da Prússia, o qual julgava-se um entendido de liturgia, publicou uma agenda para uso em todas as igrejas evangélicas de seu reino, ambas, Luteranas e Reformadas. Essa foi uma tentativa de se reconduzir o culto cristão à sua fundamentação histórica e de se recuperar um entendimento da liturgia. Mas essa tentativa encontrou resistência, principalmente porque o mesmo fazia parte de um movimento que tentava unir Luteranos e Reformados em uma única igreja. A essa altura, é importante é importante observar que esse foi o fator precipitante que levou Martin Stephan, pastor da Igreja “São João” em Dresden, a liderar um grupo de pessoas da Alemanha para a América (Perry County, Mo). A objeção não era tanto aos abusos nos cultos, e sim, à frouxidão doutrinária que acompanhava as tentativas de forçar Luteranos e Reformados a se tornarem uma única igreja. Na verdade, o maior interesse dos Luteranos Saxões de Perry County estava em restaurar as normas que eram próprias do Culto Luterano, ou seja, voltar às origens.
Um dos mais qualificados proponentes desse retorno ao culto histórico litúrgico e sacramental era Wilhelm Loehe, pastor na vila de Neuendettelsau, na Bavária. Loehe era um homem da teologia confessional. E foi essa teologia que o levou a ter uma mente aberta para missões, preocupar-se com o bem estar social, e o determinou a restaurar o culto como o centro da vida da igreja. Várias agendas foram lançadas por Loehe, retornando às normas estabelecidas pelos Reformadores Luteranos. Uma dessas agendas foi escrita especialmente para o Sínodo de Missouri e foi amplamente usada no sínodo.
O século XIX viu um reavivamento da Teologia Confessional, tanto na Alemanha, como nos Estados Unidos. Sínodos confessionais foram organizados, e juntamente com esse reavivamento da Teologia Confessional, veio um reavivamento do culto litúrgico e sacramental.
Os luteranos de fala inglesa estavam usando material de culto e ordens litúrgicas que estavam muito próximas das usadas por seus vizinhos protestantes. À medida em que a Teologia Confessional não estava sendo levada a sério, esses materiais de culto pareciam ser adequados. Mas quando a Teologia Confessional foi novamente levada a sério, a adequação de tais materiais foi questionada. Em 1860, um Concílio Geral lançou o Manual da Igreja, o qual, sem dúvida, apresentava a melhor liturgia em inglês até então, produzida pelos luteranos. Esse livro antecipou os princípios que foram mais especificamente levados a efeito na preparação do Culto Comum, 20 anos mais tarde.
Em 1888, o Sínodo Geral, o Sínodo Unido do Sul e o Concílio Geral, lançaram juntos uma versão da liturgia comum, o Culto Comum, o qual estava baseado nas ordens da igreja do século XVI, usando como modelo a Formula Missae de Lutero.
Enquanto a reforma litúrgica estava acontecendo em inglês, uma convocação estava sendo feita aos Germânicos do Sínodo de Missouri, no sentido de valorizarem sua rica herança litúrgica. O único defensor, que clamava ao Sínodo, para que esse levasse a sério o seu culto, era Friedrich Lochner, pastor em Springfield, Ill. Seu livro, Der Hauptgottesdienst (O Culto Divino Principal), chamou o Sínodo de volta à sua norma Confessional, de que, a cada domingo e dias santos, o Sacramento do Altar deveria ser celebrado como o principal culto paroquial.
Em 1912, o Sínodo de Missouri lançou seu primeiro hinário em inglês. O mesmo continha uma variante do Culto Comum, herdado do Sínodo de Missouri Inglês, o qual havia se juntado ao Sínodo de Missouri Germânico, em 1911. Foi esse hinário que se tornou a base para o The Lutheran Hymnal de 1941. E é nessa linha direta de desenvolvimento que o Lutheran Worship agora se firma.[10]
Quando em 28 de abril de 1899, a Convenção da LCMS o “Deutsche Evangelische Lutherische Synode von Missouri, Ohio und Andern Staaten”, decidiu começar o trabalho no Brasil, na verdade, não se estava abrindo uma missão externa, e sim, fazendo uma extensão do trabalho entre alemães que provinham de um país cristianizado.
A igreja em solo brasileiro, sendo herdeira da cultura alemã, bem como da prática litúrgica alemã, não precisou preocupar-se com grandes adaptações quanto a métodos e formas. Assim, a nossa prática litúrgica na fase inicial não passou de uma mera transferência geográfica, ainda que, segundo o Dr. Paulo W. Buss, os alemães do Brasil não aceitaram pacificamente todas as práticas litúrgicas que lhes eram propostas. Sendo natural que as congregações organizadas antes da vinda dos pastores missourianos oferecessem as maiores resistências. Essas, não estavam acostumadas a inscrição da Santa Ceia, ao sinal da cruz, uma frequência mais regular nos cultos e na Santa Ceia, uso modificado da confissão auricular, a uma forma mais democrática de administração (era praxe pastor e congregação acatarem decisões tomadas exclusivamente pela diretoria).
O Dr. Buss ainda lembra, que a situação econômica das primeiras congregações no Brasil, influenciou fortemente o desenvolvimento litúrgico na IELB: igrejas (capelas) simples e sem sinos, bancos sem genuflexórios, cruzes de madeira simples em vez de crucifixos mais requintados, batinas pretas ao invés de vestes litúrgicas completas.
Paralelamente, em 1917, com o rompimento diplomático com a Alemanha e a consequente proibição do uso da língua alemã no Brasil as igrejas tiveram dificuldades em dar continuidade ao trabalho, pois nem membros e pastores falavam e entendiam o vernáculo. Inicia-se assim o processo de indigenização na IELB: os primeiros hinos, partes da liturgia e orações são traduzidas para o português; começam as primeiras pregações em português nas reuniões sinodais; inicia-se a missão entre luso-brasileiros (1918 - Lagoa Vermelha, RS) e negros (1920 - Solidez, Canguçu, RS). Infelizmente, porém, com o término da guerra, o processo foi radicalmente interrompido. Por volta de 1938 apenas 16% dos cultos tinham pregação em português e apenas 40 dos 90 pastores e professores sinodais eram brasileiros natos.
Com o advento do estado novo, em 1941, o governo obrigou as igrejas a pregarem apenas em língua nacional. Um sermão em língua estrangeira poderia seguir o português nas áreas onde o mesmo não fosse entendido. Mas em 1942, a língua alemã foi totalmente proibida, transformando o distrito brasileiro da LCMS, finalmente e até certo ponto, numa igreja brasileira. Suspensa a proibição, em muitos lugares o alemão voltou a ser usado com certa regularidade.
Independente disso, a Igreja Brasileira já havia incumbido o Dr. Rodopho Hasse a confeccionar um Hinário em língua portuguesa, editado em 1938, conforme a ata da 24a Convenção Nacional, de 1940. O mesmo continha uma ordem de culto simplificada sem Santa Ceia e uma ordem de culto com Santa Ceia, o qual continha 217 hinos e uma seção com orações. Nesse mesmo ano, este hinário foi reeditado e ampliado para 314 hinos. Em 1949 foi ampliado para 340 hinos. Em 1974 recebeu um apêndice de 112 hinos.[11] Essa realidade permaneceu até 1986, quando foi lançado o atual Hinário Luterano, com linhas melódicas e 573 hinos. Sobre esse novo hinário convém ressaltar o seguinte:
1.    Foi ampliado, levando em conta a originalidade das músicas e das letras.
2.    Para acentuar a origem confessional da IELB, foram acrescentados o Catecismo Menor de Lutero (1529) e a Confissão de Augsburgo (1530), bem como a inclusão de duas ordens litúrgicas com celebração da Santa Ceia.
3.    Foi mantida a antiga ordem litúrgica (tradicional com Santa Ceia) e acrescida uma nova ordem de culto, procurando resgatar alguns elementos históricos: a Confissão e Absolvição como parte preparatória ao culto propriamente dito; o Credo posposto ao sermão, como a proclamação de fé diante da palavra ouvida e a relocação do Ofertório ao seu lugar original, como preparação à Santa Ceia.
4.    Foram acrescentadas as informações sobre os Domingos e Festas Maiores e Menores para mostrar as diferenças existentes entre o Ano Eclesiástico Tradicional e o Reformulado, em acordo com a renovação litúrgica a partir do Vaticano II (1962-1965).

Apesar desse novo Hinário Luterano ter tido como objetivo contemplar as diversas necessidades da igreja (atendendo a grupos mais tradicionais e as missões), a realidade mais uma vez está demonstrando que isso não aconteceu. O que aconteceu ao longo da história (1968, 1974 e 1977) com a elaboração de vários hinários para missão e ocasiões especiais, também aconteceu após a elaboração do novo Hinário Luterano, sendo elaborando um novo hinário (Louvai ao Senhor, 1988) visando atender mais especificamente as necessidades da missão, exclusivamente com relação ao canto e à música.
Com relação aos dois volumes da Liturgia Luterana, ainda em uso na IELB, desconhece-se qualquer explicação quanto à sua origem, impressão, tradução e autoria. Sabe-se apenas que ambos são uma “publicação autorizada pela Igreja Evangélica Luterana do Brasil”.[12] Por volta da década de 70, a Comissão de Culto e Liturgia recebeu a incumbência de fazer uma revisão destes dois volumes. Mas em 1980, com a adoção do sistema Trienal de leituras, a IELB também adotou o novo calendário litúrgico, obrigando-se a promover uma reformulação mais profunda, que começou com o lançamento do Preciso Falar Vol. VI em 1986, adequando os Introitos, as Orações do Dia (Coletas) e Graduais dos Domingos e Festas Maiores e Menores ao calendário reformulado. Desde então, a Comissão de Culto e Liturgia tem trabalhado na reformulação integral dos referidos volumes. Enquanto isso, a referida comissão, em conjunto com a Concórdia Editora, decidiu publicar num único volume a Liturgia Luterana, observando as adaptações ao novo calendário litúrgico e a Série Trienal.[13]
No período pós-guerra, principalmente de 1945 a 1960, ainda não se dava muita atenção às questões litúrgicas. O Ano da Igreja frequentemente era substituído por leituras que atendessem o ano civil, os sermões em geral seguiam temas livres, não respeitando as leituras e os temas designados para a ocasião, as orações fugiam do tema do sermão e do Domingo. Mesmo que a IELB tivesse uma proposta de ordens litúrgicas no hinário, as inovações e alterações eram muito comuns. A passagem do uso da liturgia chamada “antiga” para a “nova” ordem litúrgica (que é a Liturgia II do HL e, na verdade, era mais tradicional e, portanto, mais antiga), foi lenta e gradativa.[14] A questão da conscientização litúrgica na IELB é um processo recente, pertencente basicamente às últimas duas décadas, o que pode ser demonstrado por várias maneiras:
1.       Estudos e palestras em Convenções e Congressos;
2.       Moções em Convenções: sobre reformulação do Hinário, manuais e vestes litúrgicas.
3.       Publicação de Manuais e literatura sobre culto e liturgia.
4.       Publicação de artigos em revistas teológicas e no Mensageiro Luterano.
5.       Publicação do Vivendo em Cristo (1987), contendo uma unidade exclusivamente tratando do culto (O Culto Cristão, pp.188-223).
6.       Além do currículo normal, foram oferecidas disciplinas optativas sobre litúrgica nos seminários.
7.       A Comissão de Culto e Liturgia oferecendo novos materiais de culto.
8.       O incentivo às celebrações dominicais da Santa Ceia e cultos regulares e dominicais em todas as congregações (Projeto Portas Abertas).
9.       Provisão dentro do lema da IELB para a última década, com uma ênfase específica ligada à questão do culto na igreja — Adorando como Filhos de Deus (1998).
10.   O uso generalizado de paramentos em acordo com as cores litúrgicas.

Apesar de todo esse esforço, empreendido na valorização das nossas raízes históricas de sermos uma igreja litúrgica, nos ressentimos de não termos alcançado uma indigenização que levasse em conta a cultura e as características peculiares do povo brasileiro.



[1] James F. WHITE, Introdução ao Culto Cristão. São Leopoldo, IEPG e Sinodal, 1997., pp.14-18.
[2] William J. SCHMELDER, Por esta Causa me Ponho de Joelhos - Manual do Líder. Porto Alegre, Concórdia, pp.14 e 15.
[3] Aimé G. MARTIMORT, A Igreja em Oração - Introdução à Liturgia. Vol. I. Petrópolis, Vozes, 1988, pp.31-33.
[4] Arthur A. JUST, Liturgy as Pastoral Care. (ensaio não publicado), 1985, pp.3 e 4.
[5] Com a invenção da imprensa a possibilidade da padronização litúrgica foi ampliada. No início do séc. 16 havia cerca de 200 variedades de missais em uso. Tanto católicos como não católicos se convenceram que a uniformidade litúrgica representava um avanço. Hoje, a variedade de ministérios em várias culturas exige uma abordagem mais pluralista da liturgia. James F. WHITE, op. cit., p.. 32.
[6] Id. Ibid., p.186.
[7] Id. Ibid., pp.118 e 188.
[8] Nelson KIRST, Liturgia. In.: Teologia Prática no contexto da América Latina. São Leopoldo, Sinodal e São Paulo, Aste, 1998, p.125.
[9] James F. WHITE, op. cit., pp.118-119. Nelson KIRST ainda lembra que “foi Zwínglio - e não Lutero nem Calvino - que transformou um culto especial de pregação, chamado pronaus, no culto dominical, eliminando com isso a Eucaristia.” op. cit., p.124.
[10] Fonte: “Guide to Introducing Lutheran Worship” CPH, St. Louis, 1981. Reprinted in Worship Toward 2000 - Resource Packet, Commission on Worship, LCMS, 1992, pp.2-8.
[11] Paulo W. BUSS, In: Uma Proposta Litúrgica para a IELB - Estudo apresentado à 50a CN da IELB, em São Leopoldo, de 21-26 de janeiro de 1986, pela Congregação de Professores da EST-IC de São Paulo, pp.10-12. Contatos com diversos pastores mais antigos, nos levaram a concluir que entre os anos 40 e 60 o Prof. Paul W. Shelp produziu diversas edições de agendas para o culto. Os volumes I e II da agenda litúrgica para pastores surgiu no final da década de 60, tendo o Rev. Rodolpho Hasse como seu principal tradutor.
[12] Id. Ibid., p.12.
[13] No meio do caminho as trienais mudaram novamente, e decidiu-se por fazer 2 volumes das liturgias.
[14] Id. Ibid, pp.12-13.

A Admoestação e a Disciplina Cristãs

A Admoestação Cristã

      O corpo de Cristo deve ser uma comunidade vigilante para refletir Cristo, sua cabeça. Tocados pelo amor de Deus em Cristo, os cristãos aceitam o privilégio e a responsabilidade de nutrir e apoiar as necessidades espirituais e corporais uns dos outros. O Salvador disse claramente, “O meu mandamento é este: amem uns aos outros como eu amo vocês.” (Jo 15.12) João relembra-nos: “E o amor é isto: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e mandou o seu Filho para que, por meio dele, os nossos pecados fossem perdoados. Amigos, se foi assim que Deus nos amou, então nós devemos nos amar uns aos outros.” (1Jo 4.10-11). E, devido ao fato de o poder do Diabo, o mundo e a nossa carne pecaminosa combinarem-se a fim de desviar o fraco do bom caminho — e mesmo o forte de tempos em tempos — Paulo relembra aos cristãos da Galácia: “Meus irmãos, se alguém for apanhado em alguma falta, vocês que são espirituais devem ajudar essa pessoa a se corrigir. Mas façam isso com humildade e tenham cuidado para que vocês não sejam tentados também. Ajudem uns aos outros e assim vocês estarão obedecendo à lei de Cristo.” (Gl
6.1-2).
      Não havia limite para o que o Salvador poderia fazer e para a paciência que ele demonstrava na tarefa de recuperar o perdido e o errante. A trilogia de parábolas registrada em Lucas 15 articula a perseverança de Deus em procurar o errante e a ansiedade de Deus para perdoar e para restaurar o perdido à família de Deus.
      E nem o pastor poupará esforço algum para auxiliar a congregação a recuperar os membros errantes ou perdidos, permitindo “Que a mensagem de Cristo, com toda a sua riqueza, viva no coração de vocês! Ensinem e instruam uns aos outros com toda a sabedoria.” (Cl3.16) Esta tarefa não é auto-justifiação, mas interesse e preocupação genuínos pelo membro e irmão que rompe com a comunidade adoradora, que repudia o nutrimento dos meios da graça, ou que às tentações que assaltam a todos nós. A meta é que todos sejam mantidos a salvo no rebanho de nosso Salvador.
      Ainda assim, os cristãos frequentemente ignoram aqueles que necessitam de ajuda espiritual, como se isto não fosse preocupação deles. Expressões ocasionais de interesse, por conseguinte, têm um som vazio — como, por exemplo, quando um membro tem se ausentado do culto por vários anos e o visitador da igreja então lhe diz: “Estou aqui porque estamos preocupados com você”. Tais tentativas esporádicas parecem indicar que, não importa qual seja o relacionamento que as pessoas tenham com o Senhor, de qualquer maneira elas serão salvas.
      Embora o pastor tenha a responsabilidade primordial de exercer a liderança, todos os membros da congregação são responsáveis diante de Deus por seus irmãos crentes. Recusar cuidado espiritual aos outros é uma ofensa contra Deus, o Criador e o Salvador de todos nós.
      Como um exemplo para o rebanho, o pastor deveria demonstrar uma afeição vigilante para com todos os membros da congregação. Ele deveria liderar dando oportunidades para que os membros desempenhassem o mesmo interesse zeloso mutuamente. (Estas oportunidades, contudo, não incluem permitir que o escritório do pastor sirva como um repositório de fofocas e insinuações. Se um membro vier contando coisas da vida de outros, este membro deveria ser aconselhado a exercer pessoalmente a responsabilidade da admoestação.)

A disciplina Eclesiástica:

Um Ministério da Reconciliação

      Usado adequadamente, o processo de disciplina eclesiástica é positivo é útil; uma oportunidade para ensinar os outros a aplicar a Lei e o Evangelho corretamente (1), e uma maneira para que o Evangelho motive as pessoas a colocarem sua fé em prática (Ef 2.10; Gl 5.24-26; Rm 8.1-17).
      Mateus 18 nunca deveria ser usado como uma maneira rápida para livrar-se de um negligente. A disciplina eclesiástica é um ministério de reconciliação (2Co 5.19). O objetivo é reconciliar a pessoa com Deus, com a congregação em geral e com os membros individualmente (incluindo o pastor). Os pastores exercem uma ótima influência na congregação quando eles, como pacificadores (Mt 5.9), aplicam os princípios de Cristo (Mt 7.1-5; 18.1-15) e São Paulo (2Co 5.11-6.2; Gl 6.1-5) e quando eles treinam seus membros em como realizar a reconciliação.
      A implementação do processo de reconciliação envolve mais do que apenas seguir mecanicamente Mateus 18, passo a passo (2). Os escritos de Paulo oferecem uma boa recomendação prática. A pessoa que quer tentar impedir que um irmão ou uma irmão caia da graça deve estar orientada espiritualmente (Gl 6.1-5), deve estar completamente harmonizada com o que significa a vida no Espírito (Gl 5.13-25) e deve estar consciente de que, ao mesmo tempo, a Escritura aplica a ambas as partes: “Agora já não existe nenhuma condenação para as pessoas que estão unidas com Cristo Jesus.” (Rm 8.1) (3). Isto presume que um membro errante é um filho de Deus até prova em contrário (Mt 13.24-
30).
      Para realizar esta reconciliação, três fatores devem estar claros:

  • Atitude: A mente de Cristo e a consciência de sua presença são fundamentais para a disciplina eclesiástica. Cristo mesmo disse:

— Eu afirmo a vocês que isto é verdade: o que vocês proibirem na terra será proibido no céu, e o que permitirem na terra será permitido no céu.
— Eu afirmo a vocês que isto também é verdade: todas as vezes que dois de vocês que estão na terra pedirem a mesma coisa em oração, isto será feito pelo meu Pai, que está no céu. Porque, onde dois ou três estão juntos me meu nome, eu estou ali com eles. (Mt 18.18-20; cf. Jo 20.21-23).
      Esta passagem exige que tomemos a sério o que significa que Jesus está presente na igreja. Já que Jesus está presente, a igreja se esforçará para demonstrar as mesmas qualidades de paciência, perseverança, amor, perdão e compaixão que Cristo mostrou. A igreja deve expressar preocupação ardente pelo bem-estar eterno da pessoa errante.

  • Propósito: O propósito último que perpassa todos os procedimentos da disciplina eclesiástica é, por meio de arrependimento e absolvição, restaurar a pessoa à comunhão completa com a igreja. Portanto, a igreja não pode estabelecer um limite de tempo para cada um dos passos de Mateus 18. A igreja tem a obrigação sagrada de fazer todo possível para trazer a pessoa de volta ao relacionamento vital e salvífico com o Senhor Jesus Cristo. Uma pessoa que se torna membro de uma congregação cristã, de fato, requer tal preocupação vigilante; e a congregação, ao receber um membro, promete proporcionar isto.
  • Meios: A Palavra, corretamente dividida em Lei e Evangelho, fornece os únicos meios para intimar o errante ao arrependimento e para oferecer a certeza do perdão. Apelos a expedientes, a auto-vantagens ou a expressões variadas de lealdade falham em tomar o risco espiritual no qual a pessoa está envolvida a sério e vão de encontro ao propósito último de recuperar o perdido.

A Proibição Menor

      Como primeiro ato oficial da aplicação da Lei ao impenitente, o pastor pode exercer sua responsabilidade pelo bem-estar espiritual de uma pessoa vedando-lhe a Ceia do Senhor. Isto é chamado de “proibição menor”. O pastor pode recorrer a isto quando uma pessoa manifestar um espírito impenitente ao guardar rancor contra alguém, a recusar o perdão ou ao viver em pecado insistente — i.e., ao comprometer-se com o pecado, recusando a graça de Deus. O pastor lida com a pessoa em nível pessoal enquanto o problema não tiver sido resolvido, orando
para que, deste modo, os passos subsequentes em direção à excomunhão não venham a ser necessários. “Ainda não há nem absolvição em uma mão e nem excomunhão na outra” (4).

Excomunhão

Causa e Definição

      De acordo com Mateus 18, quando uma pessoa permanecer inexoravelmente
impenitente, a igreja não tem outra escolha a não ser seguir os passos rumo a declarar que a pessoa é um “pagão ou como um cobrador de impostos” (Mt 18.17). A excomunhão significa que a pessoa cortou a si mesma da graça de Deus e que foi declarada fora de um relacionamento salvífico com Jesus Cristo. A pessoa que morresse neste estado de impenitência estaria perdida eternamente.
      Realmente, o pecado em si mesmo não exige a excomunhão ou a separação da igreja cristã. Cada um peca diariamente e precisa do perdão que Deus dá livremente por causa de Cristo. Ao invés de excomunhão ou separação, a falha em reconhecer nossa pecaminosidade e ser persistentemente impenitente já nos separa de Deus e impede que o perdão e a restauração aconteçam — buscando ou não a igreja a disciplina eclesiástica.

Consequências

      A excomunhão declara que a pessoa impenitente está fora do âmbito da igreja (ainda que possa adorar com ela). A pessoa excomungada não pode mais receber o Sacramento do Altar e nem ser um padrinho de Batismo. Todos os direitos e privilégios de membro da congregação estão suspensos e a pessoa é transferida da listra de membros para a lista de prospectos para ser buscada para Cristo. Não deve ser concedido um sepultamento cristão a qualquer pessoa que venha a falecer neste estado de impenitência.
      A pessoa que se afasta da congregação antes que a excomunhão aconteça, obviamente não pode ser excomungada. Porém, de modo algum, isto exime a congregação da responsabilidade de admoestar a pessoa com relação à impenitência persistente ou ressaltar-lhe as conseqüências eternas disto.
Pelo fato de uma congregação cristã excomungar em nome da igreja cristã inteira, idealmente a ação deveria ser confirmada por toda a igreja cristã na terra, independente da afiliação congregacional (Isto mostra o quanto é importante que e excomunhão venha a ocorrer por uma razão válida).

Separação X Excomunhão

      Às vezes, a separação da congregação, ao invés da excomunhão, é mais viável. Por exemplo, diferenças sobre uma doutrina não fundamental (i.e., uma doutrina que não seja essencial à fé salvadora) pode romper a harmonia confessional que une os membros da congregação. Caso a instrução continuada sobre a doutrina verdadeira não prove convincentemente, a pessoa dissidente deveria ser incentivada a tornar-se membro de uma tradição que esteja em maior harmonia com sua postura confessional.

A Responsabilidade Pastoral com Relação à Excomunhão

      O pastor não deveria aceitar o papel de policial, de oficial de justiça, de perseguidor, de juiz e nem de jurado. O veredicto de excomunhão deve ser promulgado pela congregação. Não parece que uma votação unânime seja uma exigência bíblica, embora isto possa frear uma acusação impetuosa (5). E, caso nenhuma pessoa possa confirmar uma acusação levantada, a pessoa que a fez pode estar precisando ser aconselhada no entendimento bíblico.
      Quando o processo de excomunhão alcança seus estágios finais, a responsabilidade do pastor envolve três procedimentos:

  1. O pastor deve certificar-se de que tudo foi feito de acordo com as Escrituras.
  2. O pastor deveria fazer tudo o que ele pode para trazer a pessoa ao arrependimento e para evitar a excomunhão.
  3. Em nome da congregação, o pastor anuncia a excomunhão e, quando a pessoa arrepender-se e for novamente recebida na comunhão da congregação, o pastor anuncia a reintegração.

      C. F. W. Walther, em sua tese acerca do ministério “The Voice of Our Church on the Question Concerning the Church and the Ministry” (A Voz de Nossa Igreja sobre a Questão Concernente à Igreja e ao Ministério), diz:
É certo que o ofício das chaves num sentido mais restrito, a saber, o poder para desligar e ligar publicamente, também está confiado aos que estão incumbidos do ministério da Palavra... Aqui, ele [o pastor] não lida meramente com uma doutrina clara da Palavra divina, mas com o julgamento da condição espiritual de uma pessoa (Seelenzustand). E este julgamento é de tal natureza que o mesmo fecha o céu à pessoa em questão e lhe proíbe a comunhão fraternal com os cristãos, e vice-versa. Portanto, embora a execução pública da excomunhão pertença aos que estejam incumbidos do ministério da Palavra e deva permanecer com eles, de acordo com o mandamento do Senhor e com a instituição sagrada, todavia, deve ser exercida de acordo com o mandamento e a ordem expressa do Senhor apenas depois que a congregação como um todo(isto é, o ministro e os ouvintes) tiverem ponderado e tomado a decisão judicial final sobre o assunto... Por esta razão, até mesmo Paulo não desejou excomungar a pessoa incestuosa que estava em Corinto sem a congregação, mas ele lhes escreveu que, ainda que ele mesmo considerasse que o pecador merecesse a excomunhão, a própria congregação (“vocês se reunirem”) deveria excluir de seu meio aquela pessoa ímpia (1Co 5.4,13). (6)

Conclusão

      A prática da admoestação cristã e da disciplina eclesiástica é uma responsabilidade difícil e sensível; ela também mede o quanto os cristãos tomam a sério o interesse pleno de uns pelos outros. A disciplina cristã será largamente não praticada, mal usada ou ignorada quando uma congregação cristã (e/ou o pastor como líder no exercício do Ofício das Chaves, Jo 20) falhar em tomar a sério as tentativas de desenvolver uma comunidade genuinamente cristã e vigilante. Quando os membros assumirem a responsabilidade pelo bem-estar espiritual mútuo, Mateus 18 irá auxiliá-los a demonstrar tal interesse.

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Notas

  1. Por exemplo, em Mt 19.16-24, Jesus aplica a Lei. Em At 16.25-34, Paulo aplica o Evangelho. Pastores (e os líderes da congregação) deveriam sempre de novo estudar a obra The Proper Distinction Betwenn Law and Gospel, de C. F. W. Walther (St. Louis: Concordia, 14th printing, 1986, © 1929,1986. Deveria ser feito, como leitura adicional, o estudo da obra Church Discipline in the Christian Congregation (November, 1985). The Commission on Theology and Church Relations (The Lutheran Church — Missour Synod).
  2. Tanto John H. C. Fritz (Pastoral Theology [St. Louis: Concordia, 1932, 1945, Heritage Edition, 1977], p. 232-256), quanto George H. Gerberding (The Lutheran Pastor [Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1902], p. 260-270) sugerem excelentes procedimentos para o exercício de Mateus 18.
  3. O pastor necessita estar bem versado naquilo que é ensinado em Rm 7.7-8.17 a respeito de como proceder com o processo de reconciliação.
  4. Church Discipline in the Cristian Congregation. p. 21.
  5. Não parece que a unanimidade seja uma exigência bíblica. Quando a evidência do pecado e da impenitência são indiscutíveis, a congregação não está obrigada à rubrica tradicional. Idem, ibidem. p. 22.
  6. C. F. W. Walter, “The Voice of Our Church on the Question of Church and Ministry”, Walther and the Church, William Dallmann. W. H. T. Dau, e Theodore Engelder, ed. (St. Louis: Concórdia, 1938), p. 83.

Aqui um documento maior, citado acima, da LCMS

Este documento é uma tradução que fiz a quase 20 anos, de material de nossa igreja irmão nos Estados Unidos, a LC-MS, mas não anotei, à época a referência, então não consigo citar a fonte original, vou continuar procurando.

Tradução: Jarbas Hoffimann

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Tragédias, Perguntas e Arrependimento

      Quando nos deparamos com tragédias ficamos perplexos. Podem ser tragédias pessoais e familiares, quando vidas bem próximas de nós são ceifadas, ou também tragédias de grandes proporções, como a de Brumadinho. Diante destas tristezas, horrores e lágrimas surgem questionamentos. Por que aquelas pessoas? Por que isto aconteceu com a minha família? O que eles fizeram para merecer esta tragédia?
      Nos tempos bíblicos, uma tragédia em especial foi utilizada como pano de fundo para desconstruir a ideia de que tragédias são pagamentos às pessoas más. Em Jerusalém a torre de uma muralha, no bairro de Siloé, caiu sobre dezoito pessoas e matou-as. Uma tragédia! Reparem no que Jesus disse, utilizando este fato:
“e lembram daqueles dezoito, do bairro de Siloé, que foram mortos quando a torre caiu em cima deles. Vocês pensam que eles eram piores do que os outros que moravam em Jerusalém? De modo nenhum! Eu afirmo a vocês que, se não se arrependerem dos seus pecados, todos vocês vão morrer como eles morreram” (Lucas 13.4-5).
      Podemos vivenciar tragédias não como castigo, mas como eventos que revelam a fragilidade da vida. Parece que tragédias e mortes prematuras são coisas apenas de jornais e notícias, mas precisamos acordar desta falsa sensação de segurança. Tudo pode acontecer conosco, hoje ou amanhã. Somos pecadores e estamos sentenciados à morte. Esta é a verdade que dói e assusta. E, por isto, como o próprio Jesus disse, precisamos estar preparados em arrependimento e perdão dos pecados, ou seja, vivendo a fé cristã diariamente.
      A maior tragédia humana e divina aconteceu justamente com um inocente. Nele não havia culpa ou pecado, mas mesmo assim, seu sangue inocente foi derramado na cruz. Este sangue garante perdão ao arrependido e a eternidade ao que nele crê. Sim, Jesus foi sacrificado por nós. Ele foi ressuscitado e garante vida, mesmo depois da morte. Porque ele vive, nós também viveremos. Porque ele vive, vidas cristãs ceifadas por tragédias viverão novamente.
      Então fica a dica: as tragédias que nos fazem sofrer também podem ser vistas como convites ao arrependimento, perdão e muita fé em Jesus. É importante lembrar que Deus não é indiferente às tragédias, mas é “nosso refúgio e nossa força, socorro que não falta em tempos de aflição” (Salmo 46.1).

Pastor Bruno A. K. Serves
Congregação Cristo da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Candelária-RS

O Culto Luterano - manual litúrgico 1

Este manual encontra-se completo aqui. Mas está disponibilizado também nas postagens, com o marcador "manual da comissão de culto". Há outras duas publicações no blog (mais antigas) devem aparecer na busca também, mas estas aqui estão atualizadas.

O Culto Luterano

I - Palavras Introdutórias

A IELB vem trabalhando esse tema — culto, ou aspectos ligados ao culto há muito tempo. Exemplos:
·      Por treze anos uma comissão trabalhou na reforma do Hinário Luterano, o qual foi editado em 1986.
·      A produção de material complementar: hinos para Missões (1a Edição em 1968 com 54 hinos), produções independentes (Love Songs - Louvor, composto e impresso por Arnaldo Koller em 1977, com 130 cânticos; Musi Jovem, coletânea de cânticos e hinos para jovens, compilada por Gijsbertus van Hattem, DIPA, 1a edição 1980, com 100 hinos); hinários para jovens (Todos os Povos o Louvem, JELB, 1a edição 1982, com 104 hinos) e crianças (Cânticos de Louvor - Vol 1, 2a edição 1986, com 113 hinos e Cânticos de Louvor - Vol 2, 1a edição 1990, com 65 hinos), estudos em Convenções: “Uma Proposta Litúrgica para a IELB” (apresentado na 50a Convenção Nacional da IELB de 21 a 26 de janeiro de 1986, em São Leopoldo, RS).
·      Aprovação de vestes litúrgicas na Convenção Nacional da IELB (1988 em São Leopoldo - RS)
·      Produção de livros na década de 80: Manual da Comissão de Altar (1987); O Culto Cristão (1988); Por Esta Causa me Ponho de Joelhos (1989).
·      A adoção da Série Trienal em 1980.
·      A produção de vários Preciso Falar com auxílios para a pregação e o culto (Vol. 1, 1975; Vol 2, 1976; Vol. 3, 1978; Vol 4, 1984; Vol 5 A e B, 1985; Vol 6, 1986; Vol 7, 1986; Dois Vol., 1998).

Citamos esses pontos, além de trabalhos publicados nas revistas teológicas dos Seminários (Igreja Luterana e Vox Concordiana) e artigos no Mensageiro Luterano, para enfatizar a preocupação da IELB, com a questão litúrgica e do culto corporativo, principalmente nas últimas três décadas. E agora, em 1998, com a ênfase Adorando como Filhos de Deus, a IELB se vê desafiada a mais uma vez refletir sobre a sua vida de culto.
Na medida em que nós nos aproximamos do limiar de um novo milênio, é mais do que natural que reflitamos como igreja sobre onde estamos e para onde queremos ir. Que mudanças o mundo sofrerá? E como isso afetará o nosso país, as nossas comunidades, as nossas profissões, as nossas famílias, etc.?
Convém perguntar o mesmo da igreja! Em particular o povo da IELB. Na medida em que ela olha para frente, para um novo milênio, e observa as muitas mudanças culturais e demográficas em desenvolvimento, precisamos nos perguntar o que o futuro nos reserva em termos de nosso culto corporativo.
Qualquer previsão tem seus riscos. Muitos são os fatores que podem influenciar qualquer item. Quem poderia, por exemplo, prever, no início do século, que a língua alemã utilizada indiscriminadamente em nossos cultos, sofreria uma mudança radical na década de 40. E quem poderia prever que a reforma litúrgica de Vaticano II pudesse afetar as demais igrejas cristãs no que concerne a uma revisão litúrgica. Quem poderia prever as mudanças quase radicais que ocorreram a partir da década de 60, com o advento dos Beatles, no que se refere à linguagem e ao estilo musical, ambos centrais ao culto corporativo.
O Sínodo de Missouri preocupado com novas tendências, em 1987 instalou uma Comissão de Culto, com a tarefa específica de reunir dados que ajudassem a igreja a vislumbrar o futuro e melhor corresponder aos anseios do nosso tempo. Os dados levantados revelaram as seguintes tendências:
1.  Mensagem: Os sermões continuarão a receber um destaque muito especial no culto luterano. Mas deverão ser mais curtos do que os atuais e usarão uma variedade maior de estilos de comunicação. Possivelmente, o esboço do sermão aparecerá impresso nos programas de culto. Os sermões também deverão abordar com maior frequência os temas sociais.
2.  Música: Variedade e simplicidade serão os destaques quanto à música e canto nos próximos anos. Se tornará comum o uso de outros instrumentos musicais para acompanhar os hinos. Haverá uma preferência por ritmos e textos mais alegres e leves.
3.  Recepção: As congregações, de forma geral, prestarão mais atenção às dinâmicas sociais nos cultos. As oportunidades para interação entre os membros durante o culto serão expandidas (ampliadas). Os projetos das igrejas ideais incluirão espaços específicos para que membros possam confraternizar antes e depois do culto.
4.  Ordens Litúrgicas: Esta é a área que deverá receber a maior atenção e adaptação nos próximos anos. Os membros e frequentadores dos cultos estão na expectativa de maior variedade litúrgica. Também ampliarão o seu envolvimento no culto. Os cultos dominicais serão elaborados cuidadosamente com vistas à integração do velho e do novo, no que se refere a formas litúrgicas.
5.  Crianças: A presença e a participação de crianças no culto e vida congregacional se tornará um item prioritário em muitas congregações locais. Sermonetes passarão a ser um item regular nos cultos corporativos. As crianças também deverão acompanhar os pais por ocasião da distribuição da Santa Ceia para, num gesto especial, receberem uma bênção do pastor.
6.  Outras tendências: As congregações se tornarão mais atentas quanto às necessidades espirituais e sociais dos membros e da comunidade em geral. Mais tempo e esforço será empregado no sentido de tornar a experiência cúltica mais agradável, significativa e positiva.[1]

No Brasil, infelizmente, não temos pesquisa similar, todavia, observa-se, ainda que desordenadamente, tendências semelhantes. Observa-se que várias congregações da IELB criaram suas comissões de culto e altar, outras, elaboraram suas próprias ordens de cultos alternativas, a Concórdia recentemente lançou novos auxílios litúrgicos (Vinde, Adoremos, 96/97) e o Seminário Concórdia dedicou em 97 um Laboratório de Litúrgica e Homilética, visando equipar e capacitar estudantes de teologia, pastores e congregações para acompanharem adequadamente as tendências, exigências e necessidades do nosso tempo.
Considerando que a Igreja Luterana é uma igreja historicamente litúrgica. Considerando que desde a sua origem nossos pais, ao longo da história, sempre procuraram orientar suas ações por princípios teológicos sadios, neste momento em que a IELB se propõe a examinar mais uma vez a questão litúrgica, sob a ênfase Adorando como Filhos de Deus, não poderíamos deixar de fazê-lo sem considerar esses princípios teológicos.



[1] “Worship Toward 2000” Challenges and Opportunities. A Task Force Report from the Commission on Worship, The Lutheran Church-Missouri Synod, Janeiro, 1991.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

domingo, 27 de janeiro de 2019

Testemunhar na própria família

Lc 4.16-30
3º Domingo após a Epifania

[Em áudio]

Que a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a presença do Espírito Santo estejam com todos vocês! (2Co 13.13).

     Queridos irmãos e irmãs em Jesus Cristo.
     Imaginem a cena:
     Jesus vai à igreja dele, uma Sinagoga. Lá ele escolhe um texto e lê:
     “O Senhor me deu o seu Espírito. Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres e me enviou para anunciar a liberdade aos presos, dar vista aos cegos, libertar os que estão sendo oprimidos e anunciar que chegou o tempo em que o Senhor salvará o seu povo.”
     Jesus estava na igreja dele e se levantou para fazer a leitura do texto do profeta Isaías. Este texto que acabamos de ler. Ele sabia que todos os judeus esperavam o Messias. Então ele dá a notícia que deve-ria trazer grande alegria àqueles que estavam na Sinagoga:
“— Hoje se cumpriu o trecho das Escrituras Sagradas que vocês acabam de ouvir.”
     Os judeus da sinagoga tentaram desviar as palavras de Jesus, lembrando que ele era apenas o filho de José, mas Jesus continuou dando mostras de que era o Filho de Deus. E de que conhecia muito bem a Palavra de Deus. Isso deixou aqueles homens com tanta raiva, que o texto bíblico nos conta que tentaram matar Jesus, atirando-o do alto de um monte. Mas Jesus passou pelo meio da multidão e foi embora.
     No meio deste texto Jesus lembra: ‘nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra” (Lc 4.24). Mas mesmo sabendo disto Jesus disse quem ele era e o que ele viera fazer.
     Jesus veio para salvar as pessoas de seus peca-dos. Veio para dar a vida eterna. Enquanto ele esteve na terra, ele mesmo anunciou isto aberta e clara-mente. Quando ele subiu aos céus esta missão ficou para cada um de seus seguidores: você e eu.
     Se nós não falarmos, as pedras vão falar... Porque a mensagem de Jesus Cristo será levada adiante.
     Você quer salvar a si mesmo? Creia no Senhor Jesus...
     Você quer salvar sua mãe? Fale de Jesus a ela...
     E seu pai, seu tio e outros parentes? Fale de Jesus a eles...
     Os amigos do trabalho vão pro céu? Talvez estejam precisando que você lhes fale a respeito de J-sus Cristo e de como é bom poder não ter medo da morte eterna.
     A missão é de Deus, mas nós a colocamos em prática como fiéis discípulos. Muitas vezes nossos próprios parentes não vão querer nos dar ouvidos... Tal-vez pensem: “Quem é você pra me dizer qualquer coisa?” Outras vezes nos dirão: “Não vem me falar desse negócio de igreja...” Porém se não falarmos, pode ser que tais pessoas jamais tenham a oportunidade de ouvir falar de Jesus.
     Alguns preguiçosos poderão dizer: “Eles sabem ler e também sabem onde é a igreja, quando quiserem que venham...”
     Isto pode até ser verdade, mas muitas vezes as pessoas precisam de alguém que os leve pela mão. Com carinho e amor. Assim como faz o pai ou a mãe no primeiro dia de escola do filho... Ficam ali, juntos, talvez até na própria sala, até o momento em que o filho começa a se habituar ao ambiente...
     Assim deveríamos fazer com os que estão afasta-dos de Deus. Se eles são nossos amigos, porque não passar na casa deles antes do culto e os trazer pra igreja? Por que não? Isto demonstra preocupação e amor e, mais tarde, essas pessoas saberão re-conhecer isso, mesmo que no momento não gostem muito. Lembrem que elas estarão lutando contra Satanás que as quer fora da igreja e esta é uma luta árdua e diária.
     Faça a sua parte na missão... Faça tudo que puder pra trazer as pessoas pra Jesus, pois isso vai deter-minar o futuro eterno delas: céu ou inferno.
     Ore pelas pessoas que quer trazer pra Jesus...
     Peça que Deus lhe dê oportunidades para testemunhar...
     Convide para a Igreja porque em algum momento a pessoa vem e ouve a Palavra de Deus aqui também, aí o Espírito Santo está trabalhando para mantê-la na verdadeira fé .
     O Sacrifício de Jesus foi para dar a vida eterna a todos. Esta notícia é maravilhosa... Compartilhe com todos... Assim, mais e mais pessoas poderão ser salvas.
     Isso é Epifania, é o amor de Jesus chegando a to-dos...
     Que Jesus nos dê forças para testemunhar. Amém.

E a paz de Deus, que ninguém consegue entender, guardará o coração e a mente de vocês, pois vocês estão unidos com Cristo Jesus. Amém. (Fp 4.7)

Rev. Jarbas Hoffimann

Congregação Castelo Forte
Nova Venécia, ES
Igreja Evangélica Luterana do Brasil

sábado, 26 de janeiro de 2019

Minha tia voltou pra casa

     A Paz de Cristo esteja com todos vocês.

     Domingo (20/jan/2019), 14h55 recebíamos a notícia de um acidente envolvendo meus tios "Lorival" e Onéria... E sabíamos que a Dany e o Iego estavam junto. Acredito que eu tenha sido o primeiro sobrinho que a tinha pegou no colo. Ela ainda com 14 anos e eu bebê...
     No domingo, Irene e eu fomos ao local do acidente. Levamos uns 20 minutos pra chegar, mas nem de longe imaginávamos a gravidade. Aliás, vendo os carros e o Senhor que ali estava morto, fica difícil imaginar que haveria sobreviventes. Mas há. E estes sobreviventes misturam a alegria da dádiva da vida e a tristeza da despedida.
     Naquele domingo, à beira da estrada, começava uma correria que não terminou ainda. Quer dizer, terminou para uma pessoa: Tia Onéria. Ela não corre mais. Não precisa. Com Paulo ela diz:
“Fiz o melhor que pude na corrida, cheguei até o fim, conservei a fé.” (2Tm 4.7).
     E quem vai dizer que não era hora? Eu não me arisco. Sei que minha tia, como nós aqui, confiamos em Deus e por isso, confiamos que o “fim da corrida chegou”. E chegará para todos. Muitos de nós não veremos o alvorecer do dia 1º de janeiro de 2020. Por isso é tão importante estar SEMPRE preparados para a “hora não sabida”.
    Lembro outra palavra de Jesus:
“No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem. Eu venci o mundo.” (Jo 16.33).
     Este versículo começa da forma que daqui a pouco quero terminar esta mensagem:
“Eu digo isso para que, por estarem unidos comigo, vocês tenham paz.”
     Mas vamos nos concentrar na primeira parte:
“No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem. Eu venci o mundo.”
     Há tanta bobagem espalhadas por nossos rádios e televisões. Há tantos falsos profetas pregando vitórias sobre coisas mundanas, como dinheiro, carro, empresa, saúde, relacionamentos... Que parece que as promessas do Senhor se restringem a este mundo.
     Esse povo precisa ter a mesma convicção que eu tenho. Mas que aprendi do apóstolo Paulo:
“Se a nossa esperança em Cristo só vale para esta vida, nós somos as pessoas mais infelizes deste mundo.” (1Co 15.19).
     E você irmão, tem esta convicção? De que nossa esperança vai muito além deste mundo?
     Se você quer a Cristo pra resolver seus problemas aqui, você acabará sendo enganados por charlatões e curandeiros usando Deus no sobrenome...
     Se você tem problema financeiro, fale com amigos, com o banco... Trabalhe ainda mais. Estamos vivendo uma geração de preguiçosos que querem ganhar muito sem fazer nada. Já vai longe a geração que esperava um ano para ver o resultado de sua safra e se alegrar com ela.
     Se você tem problema de saúde, vá ao médico, faça um tratamento...
     Se você tem problema de relacionamento com seu pai ou mãe, com sua esposa ou marido, “larga” de ser orgulhoso e converse.
     E em tudo isso, entregue tudo sempre nas mãos do Senhor. Porque ele que continua conduzindo nossa vida até o último dia. Ele é o senhor de vivos e de mortos (aliás, dos vivos na vida eterna).
     Jesus diz e eu repito: “No mundo vocês vão sofrer; mas tenham coragem. Eu venci o mundo.”
     Vocês (nós) vamos ter aflições.
     Mas tenham coragem. Eu (Jesus) venci o mundo. E o mundo, neste texto, é a representação de todo o pecado que pode nos afastar de Deus...

     Tem gente que só lembra de Deus no dia de velório dos outros. Até pensa em voltar depois, mas antes de uma semana, já se esqueceu do que realmente importa no final. Acha que vai viver para sempre. Não vai. Só vai andar com Deus na eternidade, quem andou com ele aqui.
     No final não importa se você venceu NO mundo. Importará se você tinha fé naquele que venceu O mundo.
     E Tia Onéria venceu.
     Quem bom ter crescido neste templo, construído por seus antepassados. Que bom, em seu último dia, ter seu corpo honrado neste mesmo templo. Que bom ver parentes e amigos seguirem nesta mesma fé.
     E a mim, seu primeiro sobrinho, foi dada a honra de proferir estas palavras.
     Ela venceu com Cristo.
     Não sofre mais a dor de ter perdido um de seus filhos tão cedo também. Não sofre as dores físicas. Não sofre nunca mais.
     Está, de fato, em paz, pois está em Cristo.
     Assim:
“Eu digo para que, por estarem unidos comigo, vocês tenham paz.”
     Ela está em paz.
     Eu estou em paz com sua vitória e partida.
     Fiquem vocês também em paz. A paz dos que seguirão rumo à vida eterna.

     Amém.

Mensagem proferida na cerimônia de despedida da minha tia Onéria Flegler Kalk. Seu falecimento foi resultante de um gravíssimo acidente de trânsito na tarde do domingo, dia 20 de janeiro de 2019.

Rev. Jarbas Hoffimann

Congregação Castelo Forte
Nova Venécia, ES
Igreja Evangélica Luterana do Brasil

Leitura Bíblica para a Quaresma 2026

Você sabe o que é a Quaresma? Muita gente acha que é o tempo de sofrimento e privação (jejum etc...) que começa depois do carnaval. Infelizm...