sexta-feira, 29 de abril de 2011

Perdoando e sendo perdoado

A colheita fora boa. O bom tempo ajudara o trabalho dos dois irmãos. Um, casado, vivia com a família numa boa casa. O outro, solteiro, tinha a sua pequena casa ali ao lado da casa do irmão. A divisão da colheita obedeceu à regra do meio a meio. Cada um recolheu a sua metade no seu celeiro.
Alegres, despediram-se para o repouso da noite. Enquanto o sono não chegava, o irmão solteiro ficou pensando: “O meu irmão é casado, tem esposa e dois filhos. Naturalmente, a necessidade dele é maior do que a minha”. Levantou-se, foi até o seu celeiro, encheu uma bolsa de trigo e, sem deixar que fosse percebido, foi despejá-lo no celeiro do irmão.
Enquanto isso, o irmão casado conversava com a sua esposa, e ambos concluíram que o irmão solteiro havia trabalhado mais, livre que estava de compromissos caseiros e familiares. Por isso ele precisava preparar-se para formar uma família. Assim ele se levantou, foi até o seu celeiro, encheu uma bolsa de trigo e o despejou no celeiro do irmão.
Este gesto dos irmãos se repetiu várias noites seguidas. Cada um se sentia bem pelo fato do trigo no seu celeiro não diminuir. Certa noite, porém, o encontro aconteceu. No meio do caminho os irmãos se encontraram. E abraçaram-se, celebrando com alegria o amor que os unia.
Esta história é uma versão nova das palavras do apóstolo Paulo:
“Amem uns aos outros com o amor de irmãos em Cristo e se esforcem para tratar uns aos outros com respeito.” (Romanos 12.10).
Apesar de vivermos num tempo cheio de egoísmo, lembremo-nos que o amor fraterno ainda é capaz de maravilhosos milagres. Vamos, pois, agir de forma a promover abraços na família, na igreja e no círculo social, celebrando a alegria de podermos traduzir na vida, com gestos concretos, o amor do qual nos fala o apóstolo, e que Cristo apontou como o maior de todos os mandamentos.
O evangelho deste domingo fala do perdão (Mateus 18.21-35). Jesus estava explicando como se deve tratar de um irmão culpado, quando Pedro o interrompe e pergunta:
“Então Pedro chegou perto de Jesus e perguntou:– Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão que peca contra mim? Sete vezes?
– Não! – respondeu Jesus. – Você não deve perdoar sete vezes, mas setenta e sete vezes.” (Mateus 18.21,22).
Jesus então conta a parábola do credor incompassível. Diz ele que havia certo homem que devia uma grande soma de dinheiro ao seu patrão. Este, chamando-o, ameaçou-lhe tomar a mulher, os filhos e vendê-lo como escravo se não lhe pagasse a dívida.
O homem, que não tinha dinheiro para pagar uma dívida tão grande, se ajoelhou diante do patrão e lhe pediu clemência. E este teve pena dele, perdoou-lhe a dívida e o despediu em paz.
Dias depois este homem, que fora perdoado de uma grande dívida, encontrou um dos seus companheiros, que lhe devia uma pequena quantia de dinheiro. Agarrou-o pelo pescoço, exigindo que lhe pagasse a dívida. Como este não tinha todo o dinheiro na hora, pediu que lhe desse algum prazo. Mas o homem não quis saber de conversa: colocou-o na cadeia e o deixou preso até ele pagar toda a dívida.
O patrão ficou sabendo disso tudo, mandou chamá-lo, dizendo:
“Empregado miserável. Eu perdoei tudo o que você me devia, porque você me pediu. Você devia ter tido pena do companheiro, assim como eu tive pena de você, perdoando-lhe a dívida”.
E o patrão então, irado, mandou prender o empregado sem coração, a fim de ser castigado, até que pagasse toda a dívida. E Jesus conclui, dizendo:
“É isso o que o meu Pai, que está no céu, vai fazer com vocês se cada um não perdoar sinceramente o seu irmão.” (Mateus 18.35).
Essa parábola nos mostra como Deus nos perdoa. O patrão aqui representa Deus, o empregado somos nós, a dívida são os nossos pecados e o companheiro é o nosso irmão na fé. Assim como Deus nos perdoa, ele também espera que nós perdoemos uns aos outros.
Isto quer dizer que Deus, de certa forma, condiciona o seu perdão ao nosso perdão. Quem não perdoa aos outros quando é ofendido, também não tem o perdão de Deus. É o que Jesus também nos diz na oração do Pai Nosso.
Jesus, na oração do Pai Nosso, depois de nos ensinar a orar: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores”, ele conclui, dizendo:
“14– Porque, se vocês perdoarem as pessoas que ofenderem vocês, o Pai de vocês, que está no céu, também perdoará vocês. 15Mas, se não perdoarem essas pessoas, o Pai de vocês também não perdoará as ofensas de vocês.” (Mateus 6.14-15).
É muito importante saber isso, porque sem o perdão Deus não nos aceita, não atende as nossas orações e nem aceita as nossas ofertas. Por isso Jesus, numa outra parte do evangelho, diz:
“Portanto, se você estiver oferecendo no altar a sua oferta a Deus e lembrar que o seu irmão tem alguma queixa contra você, deixe a sua oferta ali, na frente do altar, e vá logo fazer as pazes com o seu irmão. Depois volte e ofereça a sua oferta a Deus.” (Mateus 5.23,24).
Muitas pessoas sabem disso, por isso não vão à Santa Ceia quando estão de mal com alguém. Mas será que elas também sabem que se morrerem nesta situação, Deus poderá não aceitar a sua alma, assim como não aceita a sua oferta?
Uma das coisas mais feias na igreja é a briga entre os irmãos na fé. E há pessoas que já gostam de uma briguinha! Sempre estão de mal com alguém: se não é com um, é com outro.
Essas brigas não são de hoje: elas sempre existiram, até mesmo nos tempos bíblicos. Em Filipenses 4 o apóstolo Paulo pede a duas irmãs na fé que façam as pazes entre si e terminem com a briga. E, em Gálatas 5, ele repreende os cristãos que, como cachorro e gato, viviam brigando, querendo comer um ao outro. Diz ele:
“Mas, se vocês agem como animais selvagens, ferindo e prejudicando uns aos outros, então cuidado para não acabarem se matando!” (Gálatas 5.15).
Num mundo cheio de maldade, onde existe tudo quanto é tipo de gente: gente boa, gente chata e gente enjoada, como evitar uma briga e viver em paz com todos?
Em 1º Coríntios 6 Paulo tem um conselho sobre isso, de como evitar uma briga: sofrer o prejuízo, suportar as ofensas. Diz ele:
“Mas o que acontece é que um irmão em Cristo leva ao tribunal a sua queixa contra outro irmão e deixa que juízes pagãos julguem o caso. Só o fato de existirem questões entre vocês já mostra que vocês estão falhando completamente. Não seria melhor agüentar a injustiça? Não seria melhor ficar com o prejuízo? Pelo contrário, vocês cometem injustiça, e roubam, e fazem isso tudo contra os seus próprios irmãos!” (1 Coríntios 6.6-8).
Para viver em paz e evitar brigas é preciso saber sofrer o prejuízo, agüentar desaforo e abrir mão de certos direitos. Quem quiser estar sempre com a razão nunca vai ter amizade com ninguém, mas vai estar sempre em inimizade com os outros.
Uma coisa muito comum numa briga é o espírito de vingança. A pessoa que está de mal com alguém sempre procura prejudicar, falar mal e aborrecer o seu desafeto. Isso é o mesmo que colocar lenha na fogueira.
Certa vez um senhor matou o cachorro de um irmão na fé porque ele havia matado um dos seus porcos. O irmão na fé quis saber do pastor o que devia fazer, pois havia ficado muito triste em perder o seu cachorro de estimação. Ele achava que devia matar também o cachorro do vizinho para aplacar um pouco a sua raiva.
O pastor lhe disse que aquilo que ele queria fazer não ia adiantar nada. Uma: o cachorro não tinha nada a ver com o problema dos dois. Outra: com isso ele só iria agravar mais ainda a situação, pois amanhã ou depois não se estaria matando porco e cachorro, mas sim um ao outro. O irmão aceitou o conselho e a briga acabou.
Paulo, em Romanos 12, nos apresenta uma maneira muito prática de resolver uma encrenca: pagar o mal com o bem. Isto é: fazer o bem a pessoa que não gosta da gente. Diz ele:
Não paguem o mal com mal. “Mas façam como dizem as Escrituras: “Se o seu inimigo estiver com fome, dê comida a ele; se estiver com sede, dê água. Porque assim você o fará queimar de remorso e vergonha.” (Romanos 12.20).
A pessoa que nos odeia vai ficar com vergonha por causa de atitudes boas da nossa parte. É pagar o mal com o bem. É fazer o bem a ela, mesmo que nos odeie. E ela, envergonhada, com o tempo deixará de nos fazer mal.
Foi o que Jesus fez com os seus inimigos. Enquanto os inimigos zombavam dele, ele, do alto da cruz, orava por eles, pedindo que Deus os perdoasse. E, muitos deles, como o malfeitor na cruz, se converteram, pedindo que se compadecessem deles quando estivesse no paraíso. A atitude de Cristo mudou os seus corações, que, de inimigos, passaram a ser em seus amigos.
Perdoar aos outros e viver em paz com todo mundo não é fácil. Isso exige humildade, renúncia e abnegação. Mas vale à pena.
Vale à pena abrir mão de certos direitos, sofrer o desaforo e se humilhar diante dos outros para viver em paz; pois se não fizermos isso, teremos inimizades – e, vivendo em inimizade, seremos reprovados por Deus.
Um dia, pela fé em Cristo, estaremos nos céus. Lá os chatos, os enjoados, os encrenqueiros e os briguentos não terão vez. Então estaremos livres deles.
Porém, até lá vamos ter que suportar uns aos outros. Mas, Deus, que nos agüenta a vida toda, nos dá forças para suportar também ao nosso semelhante.
Que Deus, que em Cristo nos perdoou todos os pecados, tornando-nos suportáveis diante dele, nos dê espírito de humildade e perdão, a fim de que vivamos em paz uns com os outros: perdoando e sendo perdoados. Amém.

Observação: As mensagens do Pastor Lindolfo podem ser encontradas também em:
http://www.uni-goettingen.de/de/suche.html?query=lindolfo+pieper&sln=all
http://www.online-sermons.info
http://groups.google.com.br/group/sermoesdaielb
ou diretamente no "Google Search" bastando digitar "Lindolfo Piepper" no espaço indicado e mandar procurar, é o "link" que segue:
http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&pwst=1&q=lindolfo+pieper&start=0&sa=N&filter=0.

Pastor Lindolfo Pieper
Jaru-RO – Brasil
Igreja Evangélica Luterana do Brasil