terça-feira, 6 de setembro de 2011

Guerra Santa

Um leitor desta coluna, reagindo ao que escrevi nos últimos dois artigos, alertou-me: "O religioso deve ser extremamente cuidadoso na abordagem de determinados assuntos, principalmente quando falados em público, ou em meios de comunicação de massa. Pois existem entre as pessoas ditas normais, os fanáticos, os sociopatas, pessoas doentes e aparentemente normais, que podem cometer crimes em nome de Deus".

Ele tem razão quando a história humana registra tantas atrocidades provocadas principalmente pelas religiões. E se o mundo lembra os vinte anos da queda do muro de Berlim, o começo disto tem um religioso Adolf Hitler que tentou reescrever a Bíblia com o intuito de eliminar as citações à cultura judaica. No entanto, mesmo se o pregador ou outro formador de opinião manter-se cauteloso, qualquer coisa que disser ou escrever pode ser motivo para um louco sentir-se convocado a uma guerra santa. Algo parecido com a barbárie do major americano que matou 13 colegas no Texas. A religião islâmica não incita ao terrorismo, mas caso ele tenha ligação com o Al-Qaeda, encontrou no Alcorão motivo para o ato criminoso. Outro exemplo é a perseguição dos universitários da Uniban contra uma colega. O regimento desta universidade prescreve que é proibido atitudes que "desrespeitam os princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade". Uma regra boa e necessária, mas que pode dar vazão para uma turba linchar qualquer moça com vestido curto.

O apóstolo Paulo confessou: "Eu era tão fanático que persegui a Igreja" (Filipenses 3.6). Obcecado pelo farisaísmo judaico, diz que foi curado do extremismo com a ajuda da fé cristã. Mas o próprio Jesus alertou contra o falso cristianismo: "Tomem cuidado para que ninguém engane vocês. Porque muitos vão aparecer em meu nome" (Mateus 24.4). Pedro, num descuido emocional, cortou fora a orelha do soldado que prendia o seu Mestre. Depois de curar o homem decepado, Jesus deu ao discípulo uma lição que parece esquecida: "Guarda a sua espada, pois quem usa uma espada será morto por uma espada. Você não sabe que, se eu pedisse ajuda ao meu Pai, ele mesmo me mandaria agora mesmo doze exércitos de anjos?" (Mateus 26.52,53).

Diante disto, até onde as "marchas para Jesus" cooperam com o Evangelho, quando Paulo diz que "alguns anunciam Cristo porque são ciumentos e briguentos, mas outros anunciam com boas intenções"? (Filipenses 1.15). Creio que nestes tempos de passeatas, paradas, manifestações, cada qual defendendo ardorosamente as suas idéias, o equilíbrio permanece na recomendação: "O mais importante é que vocês vivam de acordo com o Evangelho de Cristo (...) Porque é Deus quem dá a vitória a vocês" (Filipenses 1.27,28)

Marcos Schmidt
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo, RS
12 de novembro de 2009