segunda-feira, 4 de julho de 2011

Na rua da amargura

Calcula-se que dois milhões de casas já foram desapropriadas nos Estados Unidos nos últimos dois anos. Situação que pode piorar, pois outros 9 milhões de americanos devem além do valor de suas casas. No meio deste furacão hipotecário, chamou-me atenção histórias sobre “estacionamento-dormitório” contadas por uma repórter da BBC Brasil numa cidade da Califórnia. Como o caso da mulher que ironicamente vendia imóveis e que hoje mora no seu carro. “Meu Deus, o coração da América está sangrando”, chora esta ex-corretora que perdeu os clientes, a moradia, e a própria dignidade. Segundo a reportagem, os banheiros públicos são fechados à noite no estacionamento, o que leva alguns a não beber nenhum líquido depois que chegam ao local porque não têm onde urinar. “Acho que ainda não vimos nem metade do que vai acontecer com este país”, lamenta outra mulher que também transformou o carro em moradia.
Histórias como estas espantam porque vêm dos Estados Unidos. Se viessem da África, da China, ou mesmo daqui do Brasil, seriam apenas mais algumas entre tantas. Mas é isto que nos faz pensar e até sentir pavor. Porque ninguém está blindado a este tipo de situação — de gente que tinha tudo e agora encontra-se largado nas ruas. Deve ser a pior coisa do mundo não ter um lugar onde morar. Lembro de Jesus que reclamou:
As raposas têm as suas covas, e os pássaros os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Mateus 8.20).
Interessante que até nisto o Salvador se identifica, ele que veio para socorrer as pessoas da dívida dos pecados, e que prometeu:
Não fiquem aflitos, na casa do meu Pai há muitos quartos, e eu vou preparar um lugar para vocês (João 14.1-2).
A diferença é que Jesus privou-se do conforto da casa celestial sem ter nenhuma culpa, enquanto que nós aqui sofremos por irresponsabilidade própria, por querer dar o passo maior que a perna.
E se o assunto é ganância e suas conseqüências, vem à mente a advertência divina ao povo de Israel no tempo do profeta Amós:
Por isso, vocês não vão morar nas casas luxuosas que construíram (Amós 5.11).
O texto bíblico explica:
vocês exploram os pobres, cobram impostos injustos, maltratam as pessoas honestas, aceitam dinheiro para torcer a justiça e não respeitam os direitos dos pobres.
Chama atenção a contemporaneidade das palavras:
“as ruas ficarão cheias de gente chorando” (5.16).
Não quero dizer com isto que todos os que perdem as suas casas são gente má. Como nos terríveis furacões, maus e bons são afetados. No entanto, os motivos do quebra-quebra nos Estados Unidos estão evidentes.
São exemplos nesta bolha terrena onde tudo é instável. Mas são oportunidades para buscar o significado das palavras proféticas:
Taparei as rachaduras das paredes e levantarei a casa que estava em ruínas, e ela ficará como era antes (Amós 9.11).
Marcos Schmidt
Pastor luterano
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo-RS
02 de outubro de 2008