segunda-feira, 30 de maio de 2011

A contracultura do palavrão

Dercy Gonçalves era conhecida pelos palavrões. Nas entrevistas que dava na televisão, a gente só ouvia os “biiiiiii” da censura editorial. “O palavrão é o meu ganha pão”, respondeu a um repórter. Referindo-se ao seu palavreado obsceno, um crítico a defende: “Falar mal dela por causa dos palavrões é ridículo, pois o palavrão para ela era uma coisa pura, não tinha nada de negativo”. Não quero falar mal dela, mas permitam-me discordar desta idéia de “coisa pura” e de toda a reverência da mídia brasileira para a irreverência da Dercy. Creio que o exemplo dela fica por conta da sua coragem, ousadia e perseverança – disposição que falta em muita gente que desiste no meio do caminho. Mas não acredito que o riso e a diversão necessitem da obscenidade, e por isto não reconheço neste modo uma lição de vida.
A notoriedade desta divertida e desbocada mulher centenária tem explicação. A própria Dercy revelou: estratégia de público. E qual a explicação para o gosto popular por este tipo de diversão? Li na “Superinteressante” que existe uma resposta científica para o palavrão. Segundo a última edição de fevereiro, pesquisas recentes mostram que as palavras sujas nascem em um mundo à parte dentro do cérebro. Enquanto a linguagem comum e o pensamento consciente ficam a cargo da parte mais sofisticada da massa cinzenta, os palavrões moram nos porões da cabeça. É o fundo do cérebro, a parte que controla nossas emoções.
Isto tem sentido, afinal, quem já não soltou o verbo em momentos quando as emoções negativas escaparam do controle? Dizem que isto ajuda como terapia. Como, por exemplo, ir ao estádio de futebol, xingar a mãe do juiz e meio mundo e depois voltar tranqüilinho para casa. Mas será que esta é a melhor forma de colocar os bichos para fora? Creio que não! Na biografia Dercy de Cabo a Rabo, a própria autora comenta que entre quatro paredes a comediante era uma pessoa muito triste e solitária. Na verdade, a gente fala do que está cheio o coração. Assisti uma entrevista onde o repórter, diante do túmulo dela em forma de pirâmide, indagava sobre as esperanças após a morte. Ela respondeu que “céu e inferno” era aqui mesmo, e depois a gente se transformava numa energia cósmica. Deve ser a pior coisa do mundo, partir sem ter a certeza de continuar existindo. A vida aqui se torna o pior palavrão.
Nestes tempos quando tudo é motivo para piada e deboche, a Bíblia fala de algo bem sério:
Vejam como uma grande floresta pode ser incendiada por uma pequena chama. A língua é um fogo. Ela é um mundo de maldade, ocupa o seu lugar no nosso corpo e espalha o mal em todo o nosso ser. (Tiago 3.5-6).

Por isto ela recomenda:
Usem apenas palavras boas, que ajudam os outros a crescer na fé e a conseguir o que necessitam, para que as coisas que vocês dizem façam bem aos que ouvem (...) Nada de gritarias, insultos e maldades (...) Não usem palavras indecentes, nem digam coisas tolas ou sujas, pois isso não convém a vocês. (Efésios 4.29-30; 5.4). Que as suas palavras sejam sempre agradáveis e de bom gosto. (Colossenses 4.6).

Mas pelo jeito como as coisas andam, contracultura hoje é a linguagem descente.

Marcos Schmidt
pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo - Novo Hamburgo, RS
24 de julho de 2008