segunda-feira, 2 de maio de 2011

Festa dos parentes

A Justiça brasileira mandou acabar com a farra da contratação de parentes para cargos no serviço público. É o tal do nepotismo (do latim nepos - descendente), palavra com origem dentro da própria igreja, quando no século sétimo o papa começou a nomear parentes para funções em cargos de poder. No artigo “Parentes, fora!”, o sociólogo Claudio Lembo argumenta que entre os primeiros a se lançar contra o nepotismo, se encontra Lutero, que censurou a prática de escolher parentes como geradora de uma casta eclesiástica. Creio, no entanto, que antes do reformador protestante, quem se manifestou contra este trenzinho da alegria foi Jesus.
“Quem é a minha mãe? Quem são os meus irmãos?”,
perguntou o Salvador quando sua parentela insistia no privilégio de falar com ele. Diz o Evangelho que Jesus olhou para as pessoas que estavam ao seu redor e respondeu:
Vejam! Aqui estão a minha mãe e os meus irmãos. Pois quem faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã e minha mãe (Marcos 3.34,35).
Percebe-se, portanto, que no reino de Deus ninguém recebe privilégios.
A Constituição brasileira diz que o poder público deve zelar pela legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência. Segundo palavras de um ministro do Superior Tribunal Federal no julgamento contra o nepotismo, agora é proibido confundir “tomar posse no cargo” com “tomar posse do cargo”, como se fosse um patrimônio particular.
Na verdade, nem sempre parente é competente, e esta regra deveria ser aplicada em tudo. Parentes e amigos merecem larga consideração, mas nenhum servidor público tem o direito de beneficiá-los em detrimento do bem comum.
Referindo-se ao ministério pastoral da igreja, Paulo alerta contra a parcialidade:
Eu peço e insisto no seguinte: em tudo o que você fizer, obedeça a estas instruções, sem preconceito contra ninguém e sem favorecer nenhuma pessoa. Não tenha pressa de colocar as mãos sobre alguém para dedicá-lo ao serviço do Senhor (1 Timóteo 5.21,22).
Ao falar sobre o serviço cristão, é Pedro quem recomenda:
Sejam bons administradores dos diferentes dons que receberam de Deus. Que cada um use o seu próprio dom para o bem dos outros (1 Pedro 4.10).
Aqui, no texto original do grego, administrador é “oikonomos”, de onde surge a palavra ecônomo. Isto lembra que na fiel economia da vida, dos talentos, do tempo, do corpo, do dinheiro, tudo tem um propósito: para o bem de todos sem privilégios de ninguém, mesmo que este alguém é meu filho ou minha mãe. Isto explica as polêmicas palavras de Jesus:
Quem ama o seu pai, a sua mãe, o seu filho, a sua filha mais do que ama a mim não merece ser meu seguidor (Mateus 10.37).
Amar Jesus é cumprir o que o próprio Senhor lembrou:
Quando vocês ajudam o mais humilde dos meus irmãos, é a mim que fazem (Mateus 25.40).
Conforme uma teoria, parentes possuem os mesmos genes e protegê-los seria uma forma de garantir a sobrevivência dos próprios genes. Isto explica tudo nesta mistura de coisa pública com doméstica: nepotismo não é boa ação à parentela, é puro egoísmo.

Marcos Schmidt
Pastor luterano
Igreja Evangélica Luterana do Brasil
Comunidade São Paulo, Novo Hamburgo - RS
28 de agosto de 2008