quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Concílio no Espírito Santo - 6



O Tema e o Método da Teologia


1.      O Tema da Teologia (a justificação)
a.       A definição do objeto da teologia de Lutero é: O ser humano pecador e o Deus justificador. Nela os adjetivos pecador e justificador são decisivos, essenciais, determinantes. O ser humano é o acusado que é inocentado por Deus, que o acusa e justifica. Baseado na doutrina da justificação, Lutero formula as demais. E todas as questões, em conexão com este tema, passam a ser teológicas (Sl 51).
b.      O exemplo da roda da bicicleta. A doutrina da justificação está no centro. Dela advém as demais doutrinas.
2.      A Vita Passiva (a fé – o meio)
a.       Biel questiona “se a teologia seria prática ou teórica”. Lutero responde expondo o que é fundamental para seu conceito de teologia e a compreensão da fé. Rompe com o sistema aristotélico de diferenciar teoria e praxiscontemplatio e actio, e rejeita estas “para que não sejamos seduzidos pela vita activa com suas obras nem pela vita contemplativa com suas especulações”.
b.      A alternativa de Lutero é a vita passiva. Decisivo para esta é o fato de estar vinculada não à experiência que faço, mas à que sofro.
c.       Como obras humanas nada contribuem para a justiça do cristão, a fé é totalmente obra divina (Jo 1.3), pois o ser humano não a pode produzir, mas só receber/sofrer a ação de um outro: Deus, em Cristo e pelo Espírito Santo.
d.      A fé é obra divina em nós, que nos transforma e gera de novo a partir de Deus, que afoga o velho homem; ele faz de nós pessoas bem diferentes de coração, ânimo, senso e todas as forças (Dinâmica Lei e Evangelho – Dt 6.5)
e.       A justiça (passiva) da fé, porém acontece no momento em que são radicalmente destruídos o pensamento de auto-justificação, assim como a atividade justificadora, a moral, juntamente com a almejada unidade de ambos. A fé não é ciência nem atividade, nem metafísica, tampouco moral, nem vita activa, tampouco vita contemplativa, mas vita passiva.
3.      A Sabedoria da Experiência (sapientia experimentalis – o método).
a.       Para Lutero a teologia é antes sabedoria do que ciência; mas pondera a relação desta com o mundo vivencial; por isso, é sabedoria da experiência. Nisso difere de Aristóteles, que faz da teologia a suprema ciência puramente racional e sem qualquer aspecto histórico e empírico (experiência de vida) .
b.      A teologia tem temporalidade; é ciência da história e da experiência. Lutero diz: “A teologia é uma sabedoria infinita, porque nunca se poderá acabar de aprendê-la”.
c.       A teologia é uma arte que se aprende apenas da experiência que se adquire ao longo da vida.
d.      Por meio de exagero, Lutero declara que um teólogo não é formado pela compreensão, leitura e especulação, mas pelo viver, ou melhor, o morrer e ser condenado.
                                                                     i.      “Não aprendi a minha teologia toda de uma só vez, mas tive que buscá-la sempre de novo, indo cada vez mais fundo. Quem fez isso para mim foram as minhas tentações, pois ninguém consegue entender as Escrituras sem prática e tentações. Isto é o que falta aos entusiastas e às seitas. Eles não têm o crítico certo, o diabo, que é o melhor professor de teologia. Se não tivermos esse tipo de diabo, seremos apenas teólogos especulativos, que só ficam perambulando em seus próprios pensamentos e especulando com a própria razão se as coisas devem ser assim ou assado”.
                                                                   ii.      “Não devemos medir, julgar, entender nem interpretar a Sagrada Escritura segundo a nossa razão, mas refletir sobre ela diligentemente e buscá-la com a oração. Desse modo, as tentações e Satanás são também uma das causas porque aprendemos a entendê-la um pouco e de certo modo através da prática e da experiência; de outro modo e sem isso jamais se chega a entender algo dela, mesmo que a ouçamos e leiamos. Neste ponto o Espírito Santo deve ser o único mestre e preceptor a nos ensinar, e o discípulo ou aluno não se envergonhe de aprender desse preceptor. E mesmo que eu venha a cair em tentação, imediatamente lanço mão de um texto ou dito da Bíblia que me apresenta Jesus Cristo como aquele que morreu por mim, o que então me proporciona consolo” (Lutero).
e.       Lutero, portanto, não propõe um currículo, nem método acadêmico de estudo da teologia, ou de meditação. Mas “um modo correto de estudo”.