quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Concílio no Espírito Santo - 10


1.      Tentatio
a.       Aos que perguntarem o porquê de tantas páginas dedicadas ao tema tentação, lembramos as palavras de Pieper: Toda a teologia de Lutero cresceu da tentatio de dentro e de fora. Primeiro, veio a interior. Após anos de incerteza e de terrores de consciência sob a doutrina romana das [boas] obras, Deus o guiou ao entendimento do evangelho da livre graça de Deus em Cristo. Assim provou em seu próprio coração e consciência “quão reta, quão verdadeira [...] é a palavra de Deus”. Então veio a tentatio de fora. Quando Lutero ensinou a palavra de Deus, o papado, sim, quase todo o mundo se pôs no seu caminho, e declarou que perdera o direito tanto à sua vida eterna como à vida terrena. Em sua aflição ele aprendeu “a buscar e a amar a palavra de Deus” [...] Assim, pela via da aflição, Lutero tornou-se “um razoavelmente bom teólogo”.
b.      E Pieper conclui: “Não nos enganemos! Ainda hoje a aptidão teológica não é obtida de outro modo do que esse, na agonia de dentro e de fora somos guiados para dentro da palavra da Escritura e aderimos a ela como a única inamovível força divina no universo”.
c.       Acima se disse que saboreamos melhor o quanto a palavra de Deus é reta, verdadeira, boa, doce, pura, amável, poderosa e consoladora na tentação!  Aqui Lutero parece usar o termo no sentido de provação.
d.      Pois nem a intervenção perversa do maligno consegue destruir, estragar ou sequer prejudicar a obra de Deus! Pelo contrário, Lutero parece dizer que quanto mais o diabo nos tenta, mais a palavra de Deus, com o seu poder de fortalecer a fé, se manifesta em graça e perdão, mostra em nossa vida sua capacidade de fazer crescer a fé e a de agirmos contra as tentações do inimigo.
e.       A tentação não é a pedra de toque da autenticidade da fé (credibilidade do crente) e, sim, da própria palavra de Deus, “que na tentação demonstra sua credibilidade e poder”. Ela comprova a validade do primeiro mandamento (Dt 6.4-5; Mc 12.29-30), pois quem nele medita, faz de fato e na prática, de modo exterior, a controvertida experiência de quem está envolvido na luta entre o único Senhor e os muitos outros senhores.
f.        Portanto, há um árduo caminho até o teólogo poder dizer: “O que me consola na minha angústia é isso: que a tua palavra me vivifica”. (Sl 119.50) “Antes de ser afligido andava errado, mas agora guardo a tua palavra”. (Sl 119.67) “Foi-me bom eu ter passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos”. (Sl 119.71).
g.       Não se é bafejado pela sorte por ser um eleito de Deus, alguém de quem o inimigo esteja impedido de se aproximar, de atacar. Aí estão as bem-aventuranças (Mt 5.1-12) para mostrar que não. Mas este é o caminho em que Deus conduz o teólogo.
h.      A tentatio completa o ciclo. Esta é a função da tentação. Aqui não só se ensina a saber e a entender, mas também a experimentar que a palavra de Deus é “sabedoria acima de toda sabedoria”.
i.        Na tentação [ele...] experimenta pessoalmente a justiça e a verdade da palavra de Deus em todo o seu ser, e não apenas em seu intelecto. Ele tem experiência da [sua] doçura e beleza [...] não apenas com suas emoções. Ele experimenta o [seu] poder e a força [...] não apenas com seu corpo. A tentação é, portanto, o teste para avaliar qualquer teólogo; ela revela o que, sem ela, não se vê e não se conhece. Assim [...] a tentação testa e prova a realidade da espiritualidade de alguém. (Kleinig)
j.        Por isso Lutero agradece aos que o oprimiram e fizeram sofrer.
k.      Porque eu mesmo (para que eu, dejeto de rato, também me ponha no meu lugar, tenho muito a agradecer aos meus papistas, por terem me agredido, acossado e intimidado dessa maneira com a fúria do diabo, ou seja, por terem feito de mim um teólogo razoavelmente bom, o que jamais teria conseguido sem eles.
l.        O pleno estudo/aprendizado da teologia, para Lutero tem seu ponto culminante na sabedoria da experiência. A realidade da espiritualidade do teólogo carece ser testada e aprovada na experiência da tentação.
m.    Para Lutero a espiritualidade implica em oração vinculada à meditação e ambas vinculadas à vida cristã como ela é. Na tentatio atuam, lado a lado, a obra estranha e a própria de Deus que confere o aspecto existencial à vida cristã que Lutero expõe em sua teologia da cruz.
n.      Bonhoeffer reflete que, por não conseguir levar o Filho de Deus à queda, Satanás persegue os cristãos. “Não somos nós os tentados, mas Jesus é tentado em nós”. Por isso também participamos do triunfo de Cristo.
o.      Tentação não é tanto algo para se ensinar, mas se aprender vivendo. Não é teoria, mas, experiência vivida. Tentatio descreve uma complexa rede de tribulações, angústias do coração humano, dúvidas na mente e estratégicos ataques de fora.
p.      Ainda segundo Bonhoeffer, a tentação revela ao homem sua natureza e cobiça como a raiz do pecado. Mas o pecado manifesto, conhecido e confessado traz certeza do perdão. O diabo tortura o cristão pela sedução ao prazer, pela privação e por sofrimento físico e espiritual. O empurra até a beira do abismo. Mas ali Deus o sustenta por sua graça, ainda imperceptível; e a ação do diabo revela ao cristão o socorro divino, sua misericordiosa correção (Hb 12.4ss).