domingo, 22 de janeiro de 2012

Invasão da privacidade no céu e na nossa vida–de forma agradável e salutar

2º  Domingo após Epifania (B) 

Sl 139.1-10
1Sm 3.1-10
1Co 6.12-20
Jo  1.43-51

Está aí outra vez o Big-Brother passando na televisão – onde pessoas permitem ficar expostas, e a sua privacidade é invadida por milhões de telespectadores.

É muito estranho este tipo de comportamento humano – de gostar em se expor, e de gostar em ver a vida íntima dos outros. Isto tem nome: exibicionismo e voyerismo.

Em todo o caso – o normal mesmo é o desejo da privacidade, de não ficar exposto.

Até existe lei para proteger a privacidade das pessoas. Hoje, com a internet, as leis estão sendo adaptadas, a fim de que a vida de cada um não fique desvendada. Aliás, precisamos tomar todo o cuidado, porque quanto mais souberem de detalhes de nossa vida, mais podem usar isto contra nós e até fazerem alguma maldade à nossa integridade física, moral e econômica.

Falo disto, porque o Evangelho de hoje fala de uma agradável e benéfica invasão de privacidade. Jesus invadiu a vida pessoal de Filipe e Natanael. E isto trouxe uma grande mudança na história destes dois personagens da Bíblia.

No culto passado, conforme a leitura do EVANGELHO, foi Deus quem invadiu a privacidade de Jesus. Jesus foi batizado, e no momento quando saiu da água, ele viu o céu se abrir – se rasgar. E assim o Salvador foi exposto (epifania). Ele inicia seu ministério, e daí por diante a sua vida, e a própria morte, tudo dele fica explícito.

O resultado desta invasão na vida pessoal de Jesus é a nossa própria salvação. Se Jesus ficasse escondido, no seu canto, sem ninguém saber quem ele é, e o que ele fez, todos nós estaríamos perdidos, sem chance de sermos descobertos por Deus.

No Evangelho de hoje é Jesus quem descobre, descoberta a vida de duas pessoas, e faz uma promessa. Ele promete a invasão da privacidade do céu. Ele promete que o céu será uma casa onde se poderá enxergar a privacidade do que acontece lá.

Foi isto que ele disse para Filipe e Natanael: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: vocês verão o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1.51).

         Somos obrigados a confessar que é uma promessa bem estranha.

         - O que será isto: - ver o céu aberto, e os anjos subindo e descendo sobre o Filho do Homem?

         Entendemos que Jesus não fala do céu das estrelas, do espaço, no qual se movem a terra e os planetas. Ou do céu de onde falta chuva, ou de onde vem muita chuva.

         Ele fala do céu invisível, do Reino de Deus, onde estão os anjos que obedecem a Deus – este lugar onde Jesus está assentado à direita de Deus Pai.

         “Vocês verão o céu aberto”.

Cremos que as promessas de Deus sempre se cumprem.

         Mas por natureza somos pessoas desconfiadas. Temos dificuldades em acreditar naquilo que está longe de nossos olhos, fora de nossa realidade.

Gostaria de ajudar a todos vocês, na mensagem de hoje, a terem a mesma experiência de fé que  tiveram Filipe e Natanael. E assim, convido para refletirem comigo em algumas particularidades do Evangelho de hoje.

          Penso que, o que mais se destaca na história destes dois discípulos de Jesus é o fato de que não foram eles que decidiram procurar o Senhor. Algo semelhante com a história de Samuel, quando foi Deus que apareceu a este menino que mais tarde virou profeta.

         Isto é muito importante saber e reconhecer. Jesus mais tarde, quando conta a parábola da Videira, lembra desta verdade a todos os seus discípulos: “Não foram vocês que me escolheram; pelo contrário, fui eu que os escolhi para que vão e dêem muito fruto” (João 15.16).

         Isto combate em nós a prepotência, o orgulho, a vaidade – frutos da natureza humana que tanto estragam os objetivos de Deus em nossa vida de chamado.

Querem um exemplo? No trabalho da igreja de vez em quando falamos: se não fosse eu, nada disto aconteceria.

Na verdade, se sou pastor, um líder na igreja, ou membro que oferta e participa, alguém que coopera no trabalho da igreja, isto acontece porque Deus fez isto. Caso não tivesse nos colocado nesta posição e tarefa, ele buscaria outros.

         O que podemos fazer – e isto realmente depende de nós – é dizer: “não, eu não aceito, eu não quero”. Mas isto já é outra história...

         Outro fato interessante no Evangelho é que Natanael ficou muito surpreso quando Jesus chegou para ele e disse: aí está um verdadeiro israelita, um homem realmente sincero.

- De onde o senhor me conhece? perguntou Natanael, muito espantado.

         Foi uma reação normal para alguém que não sabia com quem estava falando! Natanael ainda não sabia que aquele com quem conversava é aquele que sabe tudo, aquele que vê tudo.

         Este fato está bem explicito no Salmo 139: Ó SENHOR, tu me examinas e me conhecer. Sabes tudo o que eu faço, e, de longe, conheces todos os meus pensamentos. Tu me vês quando estou trabalhando ou quando estou descansando, tu sabe tudo o que eu faço.

         Isto pode ser uma coisa boa, mas também uma coisa ruim.

         Boa, quando queremos que Deus sempre esteja ao nosso lado, nos protegendo, abençoando.

         Ruim, quando fazemos coisas erradas, ou quando queremos seguir nossos próprios caminhos.

         Para Natanael, foi uma coisa boa, até porque veio um elogio da parte de Jesus: “um verdadeiro israelita, uma pessoa sincera”.

         Será que Jesus diria o mesmo de nós? Um verdadeiro cristão, uma pessoa sincera - sem cera, sem máscaras?

         Mas Natanael tinha os seus defeitos, e isto é outra coisa que o texto nos ensina.

         Quando Filipe disse para Natanael: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu no livro da Lei e sobre quem os profetas também escreveram”,  ele duvidou achando que o Messias não poderia ser alguém de Nazaré, ou seja, de uma vila humilde e pobre.

         Este homem, além de cético, tinha preconceitos. Na cabeça e na cultura dele, gente boa só poderia ter ascendência boa – pedigree.

         Por mais que a gente diga que não – mas sempre torcemos o nariz para as pessoas simples, para lugares simples – para a pobreza, especialmente quando estas pessoas estão numa posição de autoridade, de liderança.

         Os espertos sabem disto, e por isto, quando querem enganar, se vestem com a melhor roupa, e se fazem de importantes.

         É preciso tomar cuidado, porque atrás de coisas grandiosas, pode estar a falsidade, e atrás de coisas simples, pode estar a verdade.

         Natanael, ao pensar que Jesus era um chinelão, um João ninguém, desprezou o Filho de Deus.

         Mas, ainda bem que Jesus não desprezou este homem. E esta a parte mais interessante da história.

         Jesus chegou para Natanael, e amorosamente lhe disse: “Antes de Filipe o chamar, eu já tinha visto você sentado debaixo da figueira”.

         Natanael veio para ver Jesus, e descobre que ele já tinha sido visto por Jesus. 

          Nós não sabemos o que este homem fazia sentado debaixo de uma figueira. Mas ele estava sentado, parado, inerte, sem fazer nada. Quem sabe pensando na vida, nos problemas, deprimido, sem perspectiva.

         Sentado debaixo de uma figueira pode ser até uma coisa muito boa, especialmente nestes dias extremamente quentes de verão. Ou até mesmo nas férias, descansando de um ano agitado e estressante.

         Mas a vida não pode ficar assim quando Deus tem planos relevantes para nós.

         Quando Deus nos chama para mostrar  aos outros de que existe um céu aberto,  a primeira coisa que ela faz acontecer, é nos tirar de uma vida estática, vazia, sem frutos para o seu reino. No caso de Samuel, Deus o acordou do sono e o chamou.

Deus nos acorda, no tira da sombra, e nos oferece uma missão.   

         Natanael ficou surpreso que a sua vida era um livro aberto para Jesus. Sua surpresa foi acompanhada pelas palavras: “Mestre, o senhor é o Filho de Deus! O senhor é o Rei de Israel”

E foi neste momento de fé e de confissão que Jesus lhe diz: “Você crê em mim só porque eu disse que o tinha visto debaixo da figueira? Pois você verá coisas maiores do que esta. Eu afirmo que vocês que isto é verdade: vocês  verão o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.

         Os comentaristas bíblicos explicam que Jesus está buscando a imagem daquele sonho de Jacó, que viu uma escada entre o céu e a terra, e anjos subindo e descendo por esta escada (Gênesis 28).

         Tudo indica que Jesus estava neste mesmo local onde Jacó teve este sonho.

         Um comentarista explica este texto com as seguintes palavras:      “Essas palavras se referem claramente à escada de Jacó, e deixam entendido que aquilo que ele viu, agora teria o seu cumprimento: ou seja, que ele, o Filho do homem, é a habitação de Deus e o portão do céu; e que, por intermédio dele, e nele em primeiro lugar, haveria de descer toda a comunicação de ajuda e de graça, vindas do alto”.

         Nesta compreensão, o que Jacó viu em sonho, Jesus promete a Natanael que ele verá na realidade.

         Estimados irmãos, vivemos tempos na história da humanidade nunca vistos antes. É a modernidade tecnológica nos trazendo uma mudança muito grande, especialmente no aspecto da comunicação. Podemos hoje falar com todo mundo, a qualquer hora. E não só falar, mas ver esta pessoa com quem estamos conversando.

         Mas, uma coisa ainda permanece a mesma, igual como no tempo de Natanael, Filipe e Samuel.

         Não podemos falar com Deus, ao menos que ele fale conosco. Não podemos enxergar a Deus, ao menos que ele nos enxergue primeiro.

         E aqui está a descoberta mais fantástica, que não pode ser comparada com a internet ou qualquer outro instrumento tecnológico, feito por mãos humanas.

         Esta descoberta fantástica foi revelada na vida destes personagens bíblicos, e também na tua vida, meu irmão, minha irmã.

         Mas, pode ser que tu não estejas interessado que Deus faça uma invasão na tua vida. Pode ser que tu estejas com certas dúvidas, se vale a pena permitir que Jesus te exponha, te chame - para fazeres parte da Epifania do reino de Deus.

         Creio que o melhor então é seguir o exemplo de Natanael (nome que significa dom de Deus). Ele foi tirar as suas dúvidas com o próprio Salvador.

         Oração: Senhor e Salvador. Agradecemos-te por tua palavra. Reconhecemos que sobre nós o céu permanece fechado, a não ser que tu venhas até nós com teu perdão e amor. Louvado seja porque abriste o céu para nós. Deixa-nos ser como Natanael, a fim de que possamos vencer nossas dúvidas.  Deixa-nos ser como Filipe e Samuel que ouviram a tua voz e entregaram a vida para o serviço e o testemunho. Que tenhamos coragem, alegria e vontade no testemunho e no trabalho no teu reino. Dá-nos sempre a visão do céu aberto e da sua glória, para não esquecermos neste mundo agitado e cheio de tentações, de que as maravilhas da vida está em ti e vem de ti. E permita, enfim que um dia estejamos contigo neste céu aberto com todos aqueles a quem testemunhamos. Por Jesus Cristo. Amém.

Marcos Schmidt